23 junho 2026

Palpites na educação: criança apronta?

Uma das coisas mais curiosas sobre a maternidade e a paternidade é a quantidade de palpites que recebemos.

Se a criança faz birra no mercado, ouvimos: "Ah, deixa. Criança apronta mesmo." Se desobedece, dizem: "É só uma fase." Como se o fato de ser criança fosse justificativa para não educar.

Mas criança apronta mesmo. E é justamente por isso que precisa de educação.

Crianças são pequenas, inexperientes e vulneráveis. Ainda estão aprendendo sobre limites, segurança, respeito e convivência. Elas não sabem todas as consequências das próprias escolhas e nem sempre conseguem regular suas emoções. Precisam de alguém que as guie.

E isso exige autoridade.

Não estou falando de violência, humilhação ou medo. Autoridade não é gritar, bater ou controlar pela força. Autoridade é assumir a responsabilidade de conduzir alguém que ainda não consegue conduzir a si mesmo.

A autoridade existe para proteger.

É a autoridade que impede a criança de correr para a rua, de machucar outra pessoa, de fazer algo perigoso para si mesma. É a autoridade que ensina que nem todo desejo precisa ser realizado imediatamente, que existem limites e que a vida em sociedade tem regras.

Não podemos exercer esse papel sendo apenas amigos ou nos colocando como iguais. A amizade é importante, mas a criança precisa, antes de tudo, de adultos que sejam porto seguro e direção.

Ela precisa de alguém que diga, com amor e firmeza: "Por aqui não. Vamos por este caminho."

Porque, no fim das contas, educar não é dominar uma criança. É usar a autoridade que temos para proteger alguém que ainda está aprendendo a caminhar pelo mundo. ❤️

22 junho 2026

Marjorie

Eu sonhei com a Marjorie desde que tinha 11 anos. Antes mesmo de existir, ela já tinha um lugar reservado no meu coração.

Sua gravidez foi planejada, mas também trouxe uma crise. Eu tinha medo. Medo de tudo acontecer de novo: as mudanças, a depressão pós-parto, a sensação de não ser uma boa mãe. Ao mesmo tempo, eu via aquela gestação como uma oportunidade de fazer diferente.

Mas a Marjorie não era uma nova oportunidade. Era uma pessoa. Uma pessoa inteira, única, que chegava para escrever a própria história.

Ela nasceu de parto normal e isso, por si só, já foi um presente para mim. Veio linda, pequena e menina. Minha Marjorie. Minha princesa.

Foi um bebê muito tranquilo. Calma, pouco chorona e tão esperta que às vezes eu me perguntava se ela não era um mini adulto. Com apenas um ano e meio, já dormia sozinha no berço, no próprio quarto. Falava todas as palavras corretamente e inventava histórias como ninguém. Falava tanto que chegava a me deixar tonta.

Então veio a pandemia. E ela foi forte. Mais do que isso, foi a melhor companhia que nós e o Gabriel poderíamos ter naquele período tão estranho.

Depois veio a mudança de casa. Depois vieram as irmãs.

Ela sentiu tudo intensamente. Foi muito ciumenta quando a primeira irmã nasceu e continuou sendo quando a outra chegou. Tornou-se mais carente, com uma necessidade enorme de atenção. E tudo bem. Eu sempre dei. Porque algumas crianças pedem amor com palavras; outras pedem com presença. A Marjorie sempre pediu presença.

Ela sempre quis ir para a escola. Tanto que escolheu a própria escola. E, por incrível que pareça, acertou. No dia em que completou quatro anos, foi chamada para a escolinha que havia escolhido. E logo encantou as professoras com sua inteligência fora do comum — embora sua raiva, igualmente fora do comum, também se fizesse notar.

Marjorie é sociável. Sua linguagem de amor é tempo de qualidade. É inteligente e criativa de um jeito que me surpreende todos os dias. É carinhosa, colaborativa e gosta de cuidar das irmãs. Às vezes preciso lembrá-la de que isso não é sua obrigação, mas ela simplesmente gosta de cuidar. Existe nela uma ternura que naturalmente se transforma em serviço.

Quando soube que ela era superdotada e tinha TOD, não me surpreendi. Nem uma coisa, nem outra. Eram características que eu já enxergava desde que ela era um bebê.

A Marjorie me trouxe a realidade de ser mãe de menina. Também me trouxe a experiência, ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, de conviver diariamente com uma criança mais inteligente do que eu.

E talvez esse seja um dos maiores presentes que ela me deu: a oportunidade de aprender, todos os dias, que os filhos não chegam para caber nos nossos planos. Eles chegam para nos expandir.

A menina que eu sonhei aos onze anos não veio para me dar uma segunda chance. Veio para ser ela mesma. E que privilégio imenso é poder ser a mãe da Marjorie.

21 junho 2026

Gabriel

Meu herói

Gabriel nasceu há dez anos, quando eu tinha apenas seis meses de casamento. Foi um começo difícil. Muitas mudanças aconteceram em pouco tempo e a depressão pós-parto me afundou a ponto de eu mal perceber seu crescimento. Olhando para trás, dói lembrar disso.

Mas, com apenas um ano e meio de idade, Gabriel me salvou.

Ele virou meu herói. Foi ele quem me fez mãe de verdade. Foi com ele que aprendi o que era atenção, presença, carinho e amor. Aquele amor incondicional que só uma mãe conhece. Foi ele quem me ensinou a sair de mim mesma para enxergar o outro.

Gabriel era diferente desde que me lembro. Um bebezinho que não me olhava enquanto mamava — ou talvez fosse eu quem não conseguia olhar para ele. Demorou a falar. Demorou a desfraldar. Foi cedo para a escola, mas não interagia com as outras crianças, não socializava. Fazia as atividades quando queria e quando se interessava.

No ensino fundamental, foi acolhido, mas ainda enfrentava suas dificuldades. Tentava fugir da escola, da sala de aula. Tinha crises em que subia nas mesas, arrancava cortinas e bagunçava tudo ao redor. Foi nessa época que finalmente recebemos um laudo: autismo e TDAH. Uma realidade com a qual convivemos até hoje.

Mas Gabriel não é o autismo.

Gabriel é um menino maravilhoso.

Tem dez anos. Gosta de desenhar, de conversar, de brincar e de fazer perguntas. Gosta de basquete. Não ama ler, nem futebol, e também não gosta de copiar do quadro. Mas, quando se interessa por algo, seu mundo inteiro passa a girar em torno disso.

É extremamente carinhoso. Gosta de abraço, de colo, de presença. É educado, quieto e obediente. Às vezes se irrita, principalmente com as irmãs. Mas tem um coração de ouro. Está sempre cuidando, sempre se importando, sempre agindo como irmão mais velho, mesmo nunca tendo tido essa obrigação.

Sua fé é admirável. Ele crê em Deus e O ama. Sabe o que é pecado e o que é dever. Tem sonhos enormes: morar no Nordeste, casar com uma nordestina, ter cem filhos, ser bombeiro, cientista e astronauta. E eu sei que ele pode. Sei que ele vai voar longe.

Gabriel é uma criança especial. E, às vezes, eu gostaria de ter feito mais por ele. Mais terapias, mais amor, mais paciência, mais presença.

Mas também sei que fiz o meu melhor.

Mesmo sem poder oferecer todas as terapias, eu fui a terapeuta. Quando ainda não havia atendimento especializado na escola, eu fui a professora particular que o alfabetizou. Fui amiga, mãe, presença e defensora dos seus direitos dentro das minhas possibilidades. Corri atrás do que ele precisava.

E hoje não me arrependo de não ter feito mais, porque eu dei o que eu tinha. Dei o meu tempo, minhas forças, meu coração.

Meu menino está crescendo.

E eu o vejo se tornando alguém incrível. Vai ser um pai incrível. Um marido incrível. Um profissional incrível. Um cristão verdadeiro.

Eu creio.

E eu amo meu filho.

Meu herói.