Meu herói
Gabriel nasceu há dez anos, quando eu tinha apenas seis meses de casamento. Foi um começo difícil. Muitas mudanças aconteceram em pouco tempo e a depressão pós-parto me afundou a ponto de eu mal perceber seu crescimento. Olhando para trás, dói lembrar disso.
Mas, com apenas um ano e meio de idade, Gabriel me salvou.
Ele virou meu herói. Foi ele quem me fez mãe de verdade. Foi com ele que aprendi o que era atenção, presença, carinho e amor. Aquele amor incondicional que só uma mãe conhece. Foi ele quem me ensinou a sair de mim mesma para enxergar o outro.
Gabriel era diferente desde que me lembro. Um bebezinho que não me olhava enquanto mamava — ou talvez fosse eu quem não conseguia olhar para ele. Demorou a falar. Demorou a desfraldar. Foi cedo para a escola, mas não interagia com as outras crianças, não socializava. Fazia as atividades quando queria e quando se interessava.
No ensino fundamental, foi acolhido, mas ainda enfrentava suas dificuldades. Tentava fugir da escola, da sala de aula. Tinha crises em que subia nas mesas, arrancava cortinas e bagunçava tudo ao redor. Foi nessa época que finalmente recebemos um laudo: autismo e TDAH. Uma realidade com a qual convivemos até hoje.
Mas Gabriel não é o autismo.
Gabriel é um menino maravilhoso.
Tem dez anos. Gosta de desenhar, de conversar, de brincar e de fazer perguntas. Gosta de basquete. Não ama ler, nem futebol, e também não gosta de copiar do quadro. Mas, quando se interessa por algo, seu mundo inteiro passa a girar em torno disso.
É extremamente carinhoso. Gosta de abraço, de colo, de presença. É educado, quieto e obediente. Às vezes se irrita, principalmente com as irmãs. Mas tem um coração de ouro. Está sempre cuidando, sempre se importando, sempre agindo como irmão mais velho, mesmo nunca tendo tido essa obrigação.
Sua fé é admirável. Ele crê em Deus e O ama. Sabe o que é pecado e o que é dever. Tem sonhos enormes: morar no Nordeste, casar com uma nordestina, ter cem filhos, ser bombeiro, cientista e astronauta. E eu sei que ele pode. Sei que ele vai voar longe.
Gabriel é uma criança especial. E, às vezes, eu gostaria de ter feito mais por ele. Mais terapias, mais amor, mais paciência, mais presença.
Mas também sei que fiz o meu melhor.
Mesmo sem poder oferecer todas as terapias, eu fui a terapeuta. Quando ainda não havia atendimento especializado na escola, eu fui a professora particular que o alfabetizou. Fui amiga, mãe, presença e defensora dos seus direitos dentro das minhas possibilidades. Corri atrás do que ele precisava.
E hoje não me arrependo de não ter feito mais, porque eu dei o que eu tinha. Dei o meu tempo, minhas forças, meu coração.
Meu menino está crescendo.
E eu o vejo se tornando alguém incrível. Vai ser um pai incrível. Um marido incrível. Um profissional incrível. Um cristão verdadeiro.
Eu creio.
E eu amo meu filho.
Meu herói.


