11 junho 2026

Do poço a sala de espera (testemunho)

Minha história pode ser resumida em dois lugares.

O poço.

E a sala de espera.

Tudo o que vivi aconteceu entre esses dois lugares.

Minha infância foi solitária. Eu demorei para falar, mas aprendi a ler cedo. Enquanto outras crianças encontravam refúgio nas pessoas, eu encontrava nos livros. Eles eram meus amigos mais fiéis, minhas janelas para outros mundos e meu esconderijo quando a realidade se tornava pesada demais.

A escola era um lugar difícil. Sofri bullying, ameaças e agressões. Nunca parecia me encaixar. Minha socialização acontecia principalmente na igreja, e mesmo ali eu nem sempre me sentia compreendida. Eu gostava de brincar na rua porque significava não estar presa dentro de casa. E quando não podia estar na rua, mergulhava nos livros para fugir de um mundo que já parecia doloroso demais para uma criança.

Aos nove anos, comecei a desejar morrer.

Hoje, olhando para trás, isso parte meu coração.

Eu era apenas uma menina.

Uma menina que precisava de proteção.

Uma menina que precisava de ajuda.

Mas eu não sabia disso.

Achava que havia algo errado comigo.

Foi também nessa época que a morte entrou na minha vida pela primeira vez. Meu tio foi assassinado. Minha bisavó morreu. Eu ainda era criança tentando entender coisas grandes demais para mim.

Os anos passaram.

Vieram amizades intensas.

Vieram paixões adolescentes.

Vieram tentativas desesperadas de pertencer.

Mas aos treze anos minha vida virou um terremoto.

Passei a matar aulas, fumar, frequentar lugares estranhos, adotar identidades que pareciam combinar com a dor que eu carregava. Escrevi cartas de despedida. Tentei chamar atenção para um sofrimento que eu mesma não sabia explicar.

Hoje entendo que não era rebeldia.

Era um pedido de socorro.

Mas ninguém ouviu.

Ou ninguém entendeu.

A fase passou.

A dor não.

Continuei tentando me encaixar.

Tentando ser quem os outros eram.

Tentando encontrar em pessoas, relacionamentos e grupos aquilo que faltava dentro de mim.

Aos dezesseis anos mudei de escola para cursar magistério. Achei que seria um novo começo.

Não foi.

A solidão me acompanhou.

Passei a faltar aulas.

Passava horas sozinha no centro da cidade lendo revistas, observando as pessoas e tentando descobrir por que viver parecia tão fácil para elas e tão difícil para mim.

Foi ali que entrei em uma depressão profunda.

Uma depressão que duraria anos.

Uma depressão que me roubaria quase tudo.

Comecei a me machucar.

Desenvolvi bulimia.

Depois anorexia.

Quase morri.

Minha vida passou a girar em torno de calorias, números e culpa.

E então aconteceu a pior dor que já experimentei.

Uma dor da qual ainda hoje não gosto de falar.

Uma dor que a Bíblia compara à morte.

Para mim, foi exatamente isso.

Eu morri.

Não fisicamente.

Mas por dentro.

A pessoa que eu era desapareceu.

Eu continuava andando.

Continuava respirando.

Continuava existindo.

Mas era apenas uma casca.

Um corpo vazio carregando uma tristeza sem fundo.

Eu havia chegado ao poço.

O verdadeiro poço.

Não aquele das dificuldades comuns da vida.

Mas o poço onde a esperança não consegue mais entrar.

O poço onde você acredita que ninguém pode ajudar.

O poço onde até Deus parece distante.

Eu me sentia completamente perdida.

Carregava uma culpa que me esmagava.

Carregava dores que não conseguia dividir com ninguém.

Carregava a certeza de que eu era um peso para todos ao meu redor.

Nessa época eu estava repetindo o primeiro ano do ensino médio pela quinta vez.

Não porque fosse incapaz.

Não porque não aprendesse.

Mas porque sobreviver já consumia toda a minha energia.

Algumas pessoas tentavam se aproximar.

Tentavam conversar.

Tentavam me fazer comer.

Tentavam me ajudar.

Hoje reconheço o amor delas.

Mas naquela época eu estava tão afundada que parecia ouvir tudo de muito longe.

Como alguém preso no fundo de um poço ouvindo vozes vindas da superfície.

Eu escutava.

Mas não conseguia subir.

E então chegou o dia.

O dia que eu acreditava ser o último.

Eu tinha vinte anos.

A chuva caía como nunca vi cair antes.

Era meu terceiro dia em mais uma turma nova.

Eu havia prometido a mim mesma que não faria amigos.

Que não criaria vínculos.

Que não me permitiria sentir nada.

Mas a chuva mudou meus planos.

Não consegui ir embora.

Fiquei esperando a tempestade passar ao lado de uma menina de quatorze anos.

Quando a chuva deu uma trégua, nós saímos.

E ela me abraçou.

Foi só isso.

Um abraço.

Nenhum sermão.

Nenhuma pregação.

Nenhum discurso.

Apenas um abraço.

Mas naquele instante aconteceu algo impossível de explicar.

Eu não sabia que ela servia a Jesus.

Ela não sabia o que acontecia dentro de mim.

Mas naquele momento eu senti.

Senti que não era ela.

Era Ele.

Era Jesus me alcançando dentro do poço.

Era Jesus me abraçando.

Era Jesus me dizendo que me amava.

Que me queria.

Que me queria viva.

Que ainda tinha planos para mim.

Naquele instante uma pequena semente de fé, enterrada sob anos de dor, começou a germinar.

Quando cheguei em casa, algo havia mudado.

Pela primeira vez em anos eu queria viver.

Caí de joelhos ao lado da cama e chorei.

Chorei como não chorava havia muito tempo.

E pedi a Deus que aquele dia não fosse lembrado como o dia da minha morte.

Mas como o dia da minha ressurreição.

Meu segundo aniversário.

O dia em que voltei à vida.

E junto comigo ressuscitaram os sonhos.

O sonho do casamento.

O sonho dos filhos.

O sonho de uma família.

O sonho de uma casa cheia de vida.

Tudo aquilo que a depressão havia enterrado começou a respirar novamente.

Eu havia saído do poço.

Mas Deus não me colocou em um palco.

Não me colocou em um pódio.

Não me colocou em uma vida perfeita.

Ele me colocou na sala de espera.

Voltei para a igreja.

Não porque precisasse de religião.

Eu já tinha encontrado Jesus.

Mas porque precisava de comunhão.

Precisava caminhar com meus irmãos.

Logo veio uma prova.

Meu melhor amigo me obrigou a escolher entre Deus e tudo aquilo que eu sabia ser errado.

Escolhi Deus.

Escolhi a verdade.

Escolhi permanecer fiel.

Isso me custou caro.

Fui julgada.

Fui acusada.

Fui rejeitada por pessoas que deveriam me apoiar.

Meu passado foi usado contra mim.

Mas permaneci firme.

Foi então que Deus começou a me ensinar uma das maiores lições da minha vida.

Identidade.

Durante anos eu havia tentado descobrir quem era.

A leitora.

A estranha.

A gótica.

A emo.

A deprimida.

A problemática.

A rebelde.

Mas Deus foi arrancando cada um desses rótulos.

Um por um.

Até restar apenas a verdade.

Eu era filha.

Filha de Deus.

Filha do Rei.

E essa descoberta mudou tudo.

Foi ela que me ensinou a procurar não alguém parecido comigo.

Mas alguém disposto a caminhar para Deus ao meu lado.

E eu encontrei esse homem.

Meu amigo.

Aquele que se tornou meu marido.

Nós nos casamos.

E Deus nos deu quatro filhos.

Quatro vidas que enchem minha casa de alegria, barulho, desafios e amor.

Mas a sala de espera continuou sendo uma sala de espera.

Porque a sala de espera de Deus não é confortável.

Ela se parece mais com a sala de espera de um hospital.

É o lugar onde você aguarda enquanto algo importante acontece atrás de uma porta que não pode abrir.

É o lugar das lágrimas.

Das perguntas.

Da ansiedade.

Da esperança.

Das madrugadas em oração.

Dos joelhos dobrados.

Das promessas que ainda não se cumpriram.

É o lugar onde você vê outras pessoas recebendo respostas enquanto continua esperando pela sua.

É o lugar onde existem enchentes.

Desemprego.

Falta de dinheiro.

Preocupações.

Palavras que machucam.

Lutas que parecem não terminar.

Mas existe uma diferença fundamental entre o poço e a sala de espera.

O poço fui eu quem cavou.

A sala de espera foi Deus quem escolheu.

No poço eu estava sozinha.

Na sala de espera Ele está comigo.

Todos os dias.

Ele cuida da minha família.

Ele cuida da provisão.

Ele cuida do pão sobre a mesa.

Ele cuida dos detalhes que ninguém vê.

Ele continua me abraçando.

O mesmo Deus que me encontrou no fundo do poço é o Deus que se senta ao meu lado na sala de espera.

Por isso nunca quero voltar.

A sala de espera dói.

Mas nela existe vida.

Existe esperança.

Existe comunhão.

Existe propósito.

Existe amor.

Existe fé.

Hoje entendo que minha história nunca foi sobre depressão.

Nunca foi sobre transtornos alimentares.

Nunca foi sobre fracassos.

Nunca foi sobre dor.

Minha história sempre foi sobre resgate.

Sobre um Deus que entrou no fundo do poço para buscar uma menina que já tinha desistido de si mesma.

E que depois a conduziu, não para um palco, mas para uma sala de espera onde ela aprenderia, dia após dia, a confiar.

Do poço à sala de espera.

Esse é o meu testemunho.

E enquanto Deus continua trabalhando do outro lado da porta, eu continuo aqui.

Esperando.

Confiando.

Vivendo.

Porque eu sei que estou segura nas mãos dAquele que me tirou do poço e prometeu nunca mais me deixar sozinha.

10 junho 2026

Sobre respeito (na educação dos filhos alheios)

Uma das coisas mais difíceis da maternidade e da paternidade é aceitar que nem todas as famílias farão as mesmas escolhas que nós.

Cada pai e cada mãe carregam histórias, valores, experiências, medos e esperanças diferentes. Aquilo que parece óbvio para uma família pode não fazer sentido para outra. E tudo bem.

Respeitar não significa concordar. Respeitar significa reconhecer que o outro também ama seus filhos e, na maioria das vezes, está tentando fazer o melhor que consegue com os recursos, conhecimentos e convicções que possui.

Vivemos tempos em que é muito fácil julgar. Julgamos quem amamenta e quem não amamenta. Quem faz homeschooling e quem escolhe a escola tradicional. Quem limita telas e quem permite mais tempo de tecnologia. Quem tem muitos filhos e quem decide ter apenas um. Quem segue uma religião e quem não segue nenhuma.

Mas crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelos discursos. Quando nos veem tratando outras famílias com respeito, mesmo diante das diferenças, aprendem tolerância, humildade e empatia. Aprendem que pessoas podem pensar diferente sem se tornarem inimigas.

Isso não significa abrir mão das próprias convicções. Podemos ensinar nossos valores com firmeza e, ao mesmo tempo, mostrar que o mundo é formado por pessoas que fazem escolhas diferentes das nossas.

Nossos filhos não precisam aprender a vencer todas as discussões. Precisam aprender a conviver com pessoas diferentes. Precisam entender que o respeito não é uma recompensa para quem concorda conosco, mas uma demonstração de dignidade humana.

Talvez uma das maiores lições que possamos deixar para nossos filhos seja esta: defender aquilo em que acreditamos sem desprezar quem acredita diferente.

Porque educar não é apenas formar opiniões. É formar caráter. E o respeito sempre será uma das mais belas marcas de um bom caráter. 🌷❤️

09 junho 2026

Lives da pandemia

Quando penso na pandemia, não lembro primeiro das máscaras, do álcool em gel ou dos gráficos que ocupavam os noticiários. Curiosamente, lembro das lives.

Porque, em algum momento, o mundo inteiro resolveu ligar uma câmera e conversar.

Durante aqueles meses estranhos, todo mundo parecia ter inventado alguma forma nova de ocupar o tempo. Como se não existissem livros suficientes para ler, séries suficientes para assistir ou jogos suficientes para jogar. Ainda assim, havia uma necessidade quase desesperada de criar algo diferente.

E então vieram as lives.

Todo famoso que possuía seguidores resolveu fazer a sua. Alguns cantavam. Outros conversavam. Alguns bebiam além da conta e passavam horas falando coisas que provavelmente teriam sido melhores se tivessem permanecido em seus pensamentos. Mas também havia apresentações lindas, músicas que faziam chorar, campanhas beneficentes, histórias emocionantes e momentos genuínos de humanidade.

Até as crianças ganharam suas próprias lives. Cantores infantis, personagens, desenhos animados. Alguns programas chegaram ao ponto de fingir que os personagens também estavam vivendo a pandemia junto conosco. Hoje parece engraçado lembrar disso, mas, na época, havia algo reconfortante naquela companhia improvisada.

Eu poderia ter me distraído de muitas outras formas. Poderia ter lido mais livros, assistido séries ou jogado videogame.

Mas escolhi fazer exatamente o contrário do que qualquer pessoa sensata faria.

Assisti filmes de pandemia.

Todos.

Um por um.

Passei meses consumindo histórias sobre vírus mortais, colapsos sociais e cenários apocalípticos enquanto tentava sobreviver a uma pandemia real. O resultado foi previsível: ansiedade, medo e as primeiras crises que eu ainda não sabia nomear.

Foi então que comecei a buscar a Deus com ainda mais intensidade. Orei muito. Participei dos cultos online como talvez nunca tivesse participado antes.

E, quando finalmente abandonei os filmes de pandemia e passei a acompanhar as lives, algo mudou.

Parar de contar mortos e imaginar catástrofes fez bem para minha alma.

As lives me devolveram um pouco da leveza que eu havia perdido.

Algumas me fizeram rir. Outras me fizeram chorar. Algumas me fizeram refletir profundamente. Todas, de alguma forma, me lembraram que a vida continuava acontecendo.

Mas houve uma em especial que marcou aquele período.

Uma série de encontros conduzidos por uma psicóloga cristã — expressão que hoje em dia parece exigir explicações, como se fé e psicologia fossem inimigas naturais. Não eram. Pelo menos não ali.

Foram meses de descobertas.

Temperamentos. Relacionamentos. Casamento. Família. Personalidade.

Pela primeira vez, talvez, comecei a me enxergar com mais clareza. Aprendi a compreender melhor quem eu era, por que reagia da forma que reagia e como me relacionava com as pessoas que amava.

Olhando para trás, acho que nunca me conheci tanto quanto naqueles meses estranhos em que o mundo inteiro estava fechado dentro de casa.

Depois veio uma gravidez.

E aí tudo mudou de novo.

Mas essa já é outra história.