28 junho 2026

Desejos reprimidos na adolescência: um ataque de cada vez

Na adolescência, a gente costuma ouvir muitos "não".

Não pode pintar o cabelo. Não pode fazer piercing. Não pode usar essa roupa. Não pode cortar o cabelo desse jeito. Não pode ouvir determinada música. Não pode pensar diferente.

Alguns desses "nãos" fazem sentido. Pais existem para proteger, orientar e impor limites. Mas outros acabam proibindo justamente aquilo que faz parte de uma fase muito importante da vida: a construção da identidade.

A adolescência é o período em que a pessoa começa a responder uma das perguntas mais difíceis da existência: quem sou eu além dos meus pais?

Os valores ensinados em casa continuam sendo uma base importante, mas agora eles passam a ser confrontados, testados e assimilados. Não por rebeldia, necessariamente, mas porque ninguém constrói uma identidade apenas repetindo tudo o que recebeu. É preciso experimentar, questionar e escolher.

É por isso que mudanças no cabelo, nas roupas, nos gostos musicais, nas opiniões e até na decoração do quarto costumam ser tão marcantes nessa fase. Muitas dessas mudanças não são o destino final. São um caminho para descobrir quem se é.

E é curioso como certos desejos não desaparecem.

Eles ficam guardados em algum lugar, esperando a primeira oportunidade.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Na pandemia, já adulta, resolvi fazer tudo aquilo que nunca pude quando era adolescente. Pintei o cabelo de várias cores. Descolori. Cortei de jeitos diferentes. Experimentei estilos que antes eram proibidos.

Hoje percebo que nem era porque eu sonhava em ter um cabelo colorido pelo resto da vida.

Era porque eu precisava descobrir se eu realmente gostava daquilo ou se só queria viver uma experiência que me foi negada.

No fim das contas, algumas coisas ficaram. Outras perderam completamente a graça depois que deixaram de ser proibidas.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando uma experiência faz parte da identidade da pessoa, ela tende a permanecer. A proibição pode atrasar sua expressão, pode fazê-la esperar dez, vinte ou trinta anos, mas dificilmente a elimina.

Por outro lado, quando aquilo era apenas uma fase de experimentação, costuma ir embora naturalmente. O adolescente pinta o cabelo, coloca um piercing, muda o estilo, enjoa e segue a vida. E está tudo bem. Era exatamente isso que ele precisava fazer para descobrir que aquele não era o seu caminho.

A experiência responde perguntas que a proibição nunca consegue responder.

Por isso, muitos adultos acabam vivendo uma "segunda adolescência". Não porque sejam imaturos, mas porque finalmente têm liberdade para experimentar tudo aquilo que lhes foi negado. Só então conseguem separar o que era curiosidade do que realmente faz parte de quem são.

No meu caso, algumas experiências ficaram apenas como uma boa lembrança. Outras me ajudaram a conhecer melhor quem eu era.

Talvez crescer também seja isso.

Perceber que construir uma identidade não significa rejeitar tudo o que os pais ensinaram, mas também não significa viver apenas como uma extensão deles. Significa receber um legado, experimentá-lo à luz da própria vida e, então, fazer escolhas conscientes.

Porque identidade não nasce da imposição.

Ela nasce do encontro entre aquilo que recebemos e aquilo que, livremente, escolhemos manter.

Cabelo cresce. Piercing pode ser retirado. A roupa volta para o armário. O estilo muda. Na adolescência, aliás, muda o tempo todo. É justamente experimentando que muitos adolescentes descobrem que aquilo era apenas uma fase. E tudo bem.

Às vezes, o medo dos pais é que uma escolha temporária se torne permanente. Mas, curiosamente, quando ela é apenas uma fase, o próprio adolescente a abandona. Não porque foi proibido, mas porque descobriu, por experiência, que aquilo não fazia parte de quem ele era.

A identidade não se forma na ausência de limites, mas também não amadurece na ausência de liberdade.

27 junho 2026

Transsexualidade e identidade de gênero: uma análise psicológica baseada em depoimentos reais

Nos últimos anos, cresceram os relatos públicos de pessoas que passaram pela transição de gênero e, posteriormente, decidiram destransicionar. Esses depoimentos oferecem uma oportunidade importante para compreender a complexidade da identidade humana e os desafios enfrentados por quem busca respostas para um sofrimento profundo.

A ideia que alguém se identifica com um gênero diferente do que nasceu é algo perigoso e não científico. Mas não estou aqui para falar sobre isso, e sim sobre as consequências dessa situação que confunde e quebra a identidade de crianças e adolescentes, agredindo e mutilando seus corpos antes que tenham chegado a puberdade.

Um ponto recorrente nesses relatos é a presença de sofrimento emocional anterior à identificação como trans. Diversas pessoas descrevem históricos de ansiedade, depressão, traumas, abuso sexual, bullying, rejeição social, transtornos alimentares, autismo, dificuldades com a própria imagem corporal ou conflitos relacionados aos papéis sociais masculinos e femininos.

Em muitos depoimentos, a transição foi percebida inicialmente como uma resposta capaz de aliviar esse sofrimento. Algumas pessoas relatam melhora temporária, frequentemente associada ao sentimento de pertencimento, aceitação por novos grupos sociais ou esperança de finalmente encontrar paz interior.

Contudo, para parte delas, o sofrimento persistiu mesmo após intervenções hormonais e cirúrgicas. Foi nesse momento que algumas começaram a questionar se a origem da dor realmente estava no sexo biológico ou se havia outras questões psicológicas que permaneciam sem tratamento.

Outro tema frequente é a velocidade com que algumas pessoas sentiram que foram encaminhadas para tratamentos médicos. Em diversos relatos, há a percepção de que faltou uma investigação mais profunda sobre outras possíveis causas do desconforto com o próprio corpo. Algumas afirmam que gostariam de ter recebido acompanhamento psicológico prolongado antes de iniciar mudanças irreversíveis.

Os depoimentos também revelam o impacto do arrependimento. Pessoas que passaram por cirurgias irreversíveis frequentemente descrevem luto, culpa, tristeza e dificuldades para reconstruir sua identidade. Muitas relatam sentir que perderam características físicas que não podem ser recuperadas completamente.

Do ponto de vista psicológico, esses relatos reforçam que a identidade humana é multifatorial. Aspectos biológicos, familiares, culturais, sociais e emocionais interagem de maneiras complexas, tornando inadequadas explicações simplistas.

A Psicologia contemporânea reconhece a importância de acolher o sofrimento sem pressupor automaticamente qual será a melhor solução para cada indivíduo. Isso significa oferecer espaço para exploração da identidade, tratamento de possíveis transtornos associados e tomada de decisão cuidadosamente refletida.

Os depoimentos de pessoas destransicionadas também chamam atenção para a necessidade de pesquisas de longo prazo. Como a transição de gênero envolve intervenções que podem produzir efeitos permanentes, torna-se fundamental compreender tanto os benefícios quanto os riscos, incluindo os casos de arrependimento.

Ouvir essas pessoas não significa negar a existência ou a dignidade das pessoas trans. Da mesma forma, reconhecer que as pessoas trans merecem respeito a sua identidade não significa ignorar aqueles que se arrependeram. A ciência avança justamente quando considera todas as evidências, inclusive aquelas que desafiam as narrativas predominantes.

Conclui-se que a identidade de gênero permanece um dos temas mais complexos da Psicologia contemporânea. Os relatos de destransição demonstram que o sofrimento humano raramente possui uma única causa ou uma única solução. Por isso, decisões envolvendo mudanças corporais permanentes devem ser precedidas por avaliação psicológica cuidadosa, acompanhamento individualizado e informação completa sobre benefícios, limitações e possíveis consequências de longo prazo.

26 junho 2026

O amor transforma: mudança não brusca


Existe uma ideia equivocada de que, ao se casar, duas pessoas devem permanecer exatamente as mesmas para sempre, como se qualquer mudança fosse perda de identidade. Há também o extremo oposto: acreditar que o casamento é uma missão de reformar o outro. Nenhum dos dois reflete a beleza do amor.

O amor romântico dentro do casamento tem um poder transformador. Não porque impõe, exige ou controla, mas porque aproxima dois mundos diferentes e os convida a caminhar lado a lado.

A mulher que nunca gostou de filmes de ação aprende a se interessar por alguns porque gosta de passar tempo com o marido. O homem que jamais reparava nas pequenas coisas passa a perceber detalhes porque sabe que aquilo faz a esposa sorrir. Um aprende a falar mais, o outro aprende a ouvir melhor. Um se torna mais paciente, o outro mais leve. Sem perceber, ambos começam a carregar um pouco um do outro.

Essas mudanças não acontecem de forma brusca. Não são fruto de manipulação, medo ou obrigação. São resultado da convivência, da admiração, do desejo de servir e do prazer de amar. O amor saudável não apaga quem somos; ele nos lapida. Não nos prende; nos amplia. Continuamos sendo nós mesmos, mas nos tornamos versões mais maduras, mais sensíveis e mais capazes de amar.

No lar, pequenas adaptações diárias vão construindo algo maior. São renúncias voluntárias, gestos de consideração e aprendizados mútuos que, ao longo dos anos, transformam duas pessoas em uma equipe profundamente unida. Olhando para trás, muitos casais percebem que não são mais os mesmos de quando disseram "sim". E isso não é um fracasso do amor. É justamente uma das suas mais belas obras.

Talvez seja por isso que o amor no casamento também nos ensine algo sobre Deus. Cristo não nos transforma pela força nem nos arrasta para a santidade em um único dia. Ele nos ama, caminha conosco, trabalha em nós com paciência e graça. Sua obra acontece pouco a pouco, em um processo constante e cheio de misericórdia.

O amor de Cristo é como a aurora: primeiro uma claridade tímida, depois uma luz cada vez mais intensa, até que chega o dia perfeito. Assim também é a transformação produzida pelo amor verdadeiro: silenciosa, gradual e profundamente bela.