06 maio 2026
Deus no ordinário

09 abril 2026
Despedida (poesia)
Hoje eu sonhei com ela.
Não era um sonho comum.
Era silêncio. Era sagrado.
Era como se o tempo tivesse parado só para nós duas.
A capela estava vazia —
e, ao mesmo tempo, estranhamente cheia.
Eu sabia que todos estavam lá,
mas não nos viam.
Era como se aquele momento não pertencesse ao mundo,
mas só a nós.
O caixão estava aberto.
E então eu vi o que não fazia sentido —
até fazer.
Ela estava ali…
cuidando de si mesma.
Vestia o próprio corpo com delicadeza,
ajeitava os cabelos,
corrigia a maquiagem,
como quem cuida de alguém amado.
E cuidava com carinho.
Eu não entendi.
Meu coração estranhou aquela cena.
Mas então ela olhou para mim —
e sorriu.
E, como sempre,
resmungou.
— Que absurdo isso… não colocaram uma roupa decente.
Quase pude rir em meio às lágrimas.
Era ela.
Inteira.
Até no jeito de reclamar.
Ela ajeitou tudo.
Deixou como gostava.
Como era.
Como deveria ser.
E então eu olhei.
Não havia dor no rosto.
Não havia peso.
Nem marcas.
Só serenidade.
Como se dormisse.
Como se sorrisse baixinho.
E ali, naquele sonho, eu chorei.
E agora, acordada, eu choro também.
Mas é diferente.
Já não é a dor que rasga.
Não é o luto que pesa.
É a saudade que fica.
Mansa.
Viva.
Cheia de amor.
Hoje eu entendi —
sem palavras, sem explicação —
que o ciclo se fechou.
O luto já não mora mais aqui.
Ele passou por mim,
me atravessou,
e agora segue.
O que ficou…
foi o amor.
E uma esperança silenciosa,
quase como aquele sorriso sereno que vi:
de que, no fim,
ela encontrou paz.
E talvez —
só talvez —
tenha sido recebida
por Aquele que eu tanto espero.

10 março 2026
Nota de falecimento (do jeito que ela provavelmente comentaria):
Faleceu, há poucos dias, em uma tragédia que ainda nos deixa meio sem palavras, uma mulher que marcou a família de um jeito muito particular.
Não era famosa, não saiu nos grandes jornais, mas poderia facilmente ganhar uma manchete doméstica do tipo:
“Mulher mantém tradição familiar da melhor torta fria e da dobradinha mais disputada das reuniões.”
E quem conhecia sabe que não é exagero.
A torta fria dela não era apenas uma torta fria. Era uma instituição. A dobradinha também. Dessas comidas que aparecem na mesa e imediatamente fazem alguém dizer:
“Foi ela que fez?”
Mas reduzir a história dela à culinária seria injusto. Porque, na verdade, ela era especialista em outra coisa: cuidar.
Cuidou dos pais até eles partirem.
Cuidou dos irmãos mais novos.
Cuidou dos sobrinhos.
Sempre presente, sempre atenta, sempre com aquele jeito muito próprio de demonstrar preocupação — que muitas vezes vinha acompanhado de uma observação importante sobre o nível de barulho do ambiente.
Porque, sim, existe outra característica que merece registro histórico: a sensibilidade auditiva dela para barulhos.
Barulho de criança.
Barulho de conversa.
Barulho de qualquer coisa que, na avaliação técnica dela, ultrapassasse o aceitável.
E quando o assunto precisava ser devidamente esclarecido… vinha um áudio. Não um áudio qualquer. Um áudio de aproximadamente 17 minutos, cuidadosamente elaborado, explicando a situação.
Quem recebia sabia: era melhor sentar, dar play e escutar com atenção.
Hoje, depois da tragédia que nos pegou de surpresa, essas coisas todas voltam à memória de um jeito diferente.
A torta fria.
A dobradinha.
Os cuidados.
Os áudios.
As reclamações dos barulhos.
Tudo isso, que antes fazia parte do cotidiano da família, agora virou lembrança — daquelas que fazem a gente rir um pouco no meio da saudade.
Porque no fundo é assim que algumas pessoas permanecem:
nas histórias que a gente conta,
nas comidas que ninguém consegue reproduzir direito,
e na frase que inevitavelmente alguém vai dizer na próxima reunião de família:
“Imagina o áudio que ela mandaria agora.”
E talvez, se ela pudesse comentar essa própria notícia, diria duas coisas:
Primeiro, que a torta fria dela realmente era melhor que a de qualquer outra pessoa.
E segundo… que estava barulho demais.


