Sou uma criança dos anos 90.
Cresci brincando na rua, na terra, correndo descalça, subindo em árvores e explorando o mundo. Minha introdução alimentar teve mel na chupeta, suco antes da água e papinhas de fruta e sopa depois. A televisão fazia parte da rotina da casa. Assistíamos novelas em família, BBB, Feiticeira, Tiazinha e até a famosa banheira do Gugu. A sexualização que hoje tanto preocupa muitos pais não entrou na minha vida pela escola. Entrou pela televisão ligada na sala de casa.
A leitura era incentivada, mas sem grandes preocupações. A alfabetização era responsabilidade da escola. A educação religiosa era responsabilidade da igreja. Os pais trabalhavam e as crianças brincavam. O principal dever dos filhos era tirar boas notas e, quando muito, ajudar em algumas tarefas domésticas ou cuidar dos irmãos mais novos.
Também fomos criados em uma cultura onde castigos físicos eram considerados normais. Muitas mães enfrentavam jornadas duplas, trabalhando fora e dentro de casa. Descansar não era uma prioridade. Na verdade, para muitas delas, descansar sequer era uma opção.
Era um mundo diferente.
Com coisas boas e coisas ruins.
Com acertos e erros.
Hoje somos nós que estamos criando filhos.
E fazemos isso de forma muito diferente.
Falamos sobre zero açúcar até os dois anos. Limitamos ou evitamos telas na primeira infância. Instalamos travas nas gavetas, protetores nas tomadas e grades nas escadas. Incentivamos a leitura desde cedo. Estudamos desenvolvimento infantil, regulação emocional, alfabetização, apego seguro e educação respeitosa.
Muitos de nós acreditamos que a principal educação acontece dentro de casa. A escola complementa. A igreja complementa. Mas a responsabilidade principal é da família.
E isso cria um conflito de gerações enorme.
Muitas vezes nossas mães e avós olham para nossas escolhas sem entender. Querem oferecer um doce ao bebê. Acham exagero limitar televisão. Estranham quando os pais se envolvem diretamente na alfabetização. Consideram excesso de zelo certas preocupações com segurança ou desenvolvimento infantil.
Mas talvez o conflito mais curioso nem seja sobre açúcar ou telas.
Talvez seja sobre descanso.
As mulheres das gerações anteriores foram ensinadas que uma boa mãe estava sempre trabalhando. Casa limpa. Roupa lavada. Comida pronta. Filhos cuidados. Serviço feito.
Sentar para descansar podia parecer preguiça.
Muitas delas usavam a televisão para conseguir fazer tudo o que precisava ser feito dentro de casa. E não porque eram negligentes. Porque simplesmente não existiam horas suficientes no dia para dar conta de tudo.
O descanso delas muitas vezes era apenas dormir quando o dia terminava.
Hoje muitas mães estão tentando construir uma relação diferente com a maternidade. Não apenas criando os filhos de outra forma, mas também entendendo que mães continuam sendo pessoas.
Pessoas que podem descansar.
Pessoas que podem ler um livro.
Pessoas que podem tomar um café em paz.
Pessoas que podem ter hobbies.
Pessoas que podem pedir ajuda.
Pessoas que não precisam provar seu amor pela família através do esgotamento.
É claro que nem toda mãe de hoje pensa assim. Existem mães que trabalham fora, mães que ficam em casa, mães que usam telas livremente, mães que limitam telas, mães que oferecem doces cedo, mães que esperam mais tempo, famílias que terceirizam parte da educação e famílias que assumem quase tudo dentro de casa.
Assim como nem todas as mães dos anos 90 criavam os filhos da mesma maneira.
Estamos falando de tendências geracionais, não de indivíduos.
O que mudou foi a cultura.
A geração das nossas mães confiava mais nas instituições para ajudar a criar os filhos. A escola ensinava. A igreja discipulava. O médico orientava. A televisão entretinha.
A geração atual tende a trazer mais responsabilidades para dentro de casa. Pesquisamos, estudamos, questionamos, adaptamos e assumimos uma participação muito mais ativa em praticamente todos os aspectos da criação dos filhos.
Isso não significa que somos melhores pais.
Significa apenas que vivemos em uma época diferente.
Nossas mães criaram seus filhos com o conhecimento que possuíam. Nós criamos os nossos com o conhecimento que temos hoje.
Quando uma avó oferece um doce para o neto, ela não está necessariamente tentando desrespeitar os pais. Muitas vezes ela está repetindo algo que funcionou para ela.
Quando uma mãe recusa, ela também não está necessariamente julgando sua própria mãe. Ela está apenas tentando seguir aquilo que acredita ser o melhor para seu filho.
As duas estão tentando amar a mesma criança.
Apenas partiram de referências diferentes.
Por isso esse conflito é tão comum.
Não é uma guerra entre gerações.
É um encontro entre mulheres que foram ensinadas a ser mães de maneiras completamente diferentes.
E talvez a maior verdade seja esta: cada geração tenta oferecer aos filhos aquilo que acredita ser melhor.
Nossas mães fizeram isso.
Nós estamos tentando fazer isso.
E, provavelmente, nossos filhos também farão quando chegar a vez deles.
Graças a Deus o conhecimento avança. Graças a Deus aprendemos coisas novas. Graças a Deus podemos corrigir erros, preservar acertos e continuar construindo sobre o trabalho daqueles que vieram antes de nós.
Não porque as gerações anteriores falharam.
Mas porque cada geração recebe a oportunidade de aprender um pouco mais e fazer um pouco melhor.


