22 junho 2026

Marjorie

Eu sonhei com a Marjorie desde que tinha 11 anos. Antes mesmo de existir, ela já tinha um lugar reservado no meu coração.

Sua gravidez foi planejada, mas também trouxe uma crise. Eu tinha medo. Medo de tudo acontecer de novo: as mudanças, a depressão pós-parto, a sensação de não ser uma boa mãe. Ao mesmo tempo, eu via aquela gestação como uma oportunidade de fazer diferente.

Mas a Marjorie não era uma nova oportunidade. Era uma pessoa. Uma pessoa inteira, única, que chegava para escrever a própria história.

Ela nasceu de parto normal e isso, por si só, já foi um presente para mim. Veio linda, pequena e menina. Minha Marjorie. Minha princesa.

Foi um bebê muito tranquilo. Calma, pouco chorona e tão esperta que às vezes eu me perguntava se ela não era um mini adulto. Com apenas um ano e meio, já dormia sozinha no berço, no próprio quarto. Falava todas as palavras corretamente e inventava histórias como ninguém. Falava tanto que chegava a me deixar tonta.

Então veio a pandemia. E ela foi forte. Mais do que isso, foi a melhor companhia que nós e o Gabriel poderíamos ter naquele período tão estranho.

Depois veio a mudança de casa. Depois vieram as irmãs.

Ela sentiu tudo intensamente. Foi muito ciumenta quando a primeira irmã nasceu e continuou sendo quando a outra chegou. Tornou-se mais carente, com uma necessidade enorme de atenção. E tudo bem. Eu sempre dei. Porque algumas crianças pedem amor com palavras; outras pedem com presença. A Marjorie sempre pediu presença.

Ela sempre quis ir para a escola. Tanto que escolheu a própria escola. E, por incrível que pareça, acertou. No dia em que completou quatro anos, foi chamada para a escolinha que havia escolhido. E logo encantou as professoras com sua inteligência fora do comum — embora sua raiva, igualmente fora do comum, também se fizesse notar.

Marjorie é sociável. Sua linguagem de amor é tempo de qualidade. É inteligente e criativa de um jeito que me surpreende todos os dias. É carinhosa, colaborativa e gosta de cuidar das irmãs. Às vezes preciso lembrá-la de que isso não é sua obrigação, mas ela simplesmente gosta de cuidar. Existe nela uma ternura que naturalmente se transforma em serviço.

Quando soube que ela era superdotada e tinha TOD, não me surpreendi. Nem uma coisa, nem outra. Eram características que eu já enxergava desde que ela era um bebê.

A Marjorie me trouxe a realidade de ser mãe de menina. Também me trouxe a experiência, ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, de conviver diariamente com uma criança mais inteligente do que eu.

E talvez esse seja um dos maiores presentes que ela me deu: a oportunidade de aprender, todos os dias, que os filhos não chegam para caber nos nossos planos. Eles chegam para nos expandir.

A menina que eu sonhei aos onze anos não veio para me dar uma segunda chance. Veio para ser ela mesma. E que privilégio imenso é poder ser a mãe da Marjorie.

21 junho 2026

Gabriel

Meu herói

Gabriel nasceu há dez anos, quando eu tinha apenas seis meses de casamento. Foi um começo difícil. Muitas mudanças aconteceram em pouco tempo e a depressão pós-parto me afundou a ponto de eu mal perceber seu crescimento. Olhando para trás, dói lembrar disso.

Mas, com apenas um ano e meio de idade, Gabriel me salvou.

Ele virou meu herói. Foi ele quem me fez mãe de verdade. Foi com ele que aprendi o que era atenção, presença, carinho e amor. Aquele amor incondicional que só uma mãe conhece. Foi ele quem me ensinou a sair de mim mesma para enxergar o outro.

Gabriel era diferente desde que me lembro. Um bebezinho que não me olhava enquanto mamava — ou talvez fosse eu quem não conseguia olhar para ele. Demorou a falar. Demorou a desfraldar. Foi cedo para a escola, mas não interagia com as outras crianças, não socializava. Fazia as atividades quando queria e quando se interessava.

No ensino fundamental, foi acolhido, mas ainda enfrentava suas dificuldades. Tentava fugir da escola, da sala de aula. Tinha crises em que subia nas mesas, arrancava cortinas e bagunçava tudo ao redor. Foi nessa época que finalmente recebemos um laudo: autismo e TDAH. Uma realidade com a qual convivemos até hoje.

Mas Gabriel não é o autismo.

Gabriel é um menino maravilhoso.

Tem dez anos. Gosta de desenhar, de conversar, de brincar e de fazer perguntas. Gosta de basquete. Não ama ler, nem futebol, e também não gosta de copiar do quadro. Mas, quando se interessa por algo, seu mundo inteiro passa a girar em torno disso.

É extremamente carinhoso. Gosta de abraço, de colo, de presença. É educado, quieto e obediente. Às vezes se irrita, principalmente com as irmãs. Mas tem um coração de ouro. Está sempre cuidando, sempre se importando, sempre agindo como irmão mais velho, mesmo nunca tendo tido essa obrigação.

Sua fé é admirável. Ele crê em Deus e O ama. Sabe o que é pecado e o que é dever. Tem sonhos enormes: morar no Nordeste, casar com uma nordestina, ter cem filhos, ser bombeiro, cientista e astronauta. E eu sei que ele pode. Sei que ele vai voar longe.

Gabriel é uma criança especial. E, às vezes, eu gostaria de ter feito mais por ele. Mais terapias, mais amor, mais paciência, mais presença.

Mas também sei que fiz o meu melhor.

Mesmo sem poder oferecer todas as terapias, eu fui a terapeuta. Quando ainda não havia atendimento especializado na escola, eu fui a professora particular que o alfabetizou. Fui amiga, mãe, presença e defensora dos seus direitos dentro das minhas possibilidades. Corri atrás do que ele precisava.

E hoje não me arrependo de não ter feito mais, porque eu dei o que eu tinha. Dei o meu tempo, minhas forças, meu coração.

Meu menino está crescendo.

E eu o vejo se tornando alguém incrível. Vai ser um pai incrível. Um marido incrível. Um profissional incrível. Um cristão verdadeiro.

Eu creio.

E eu amo meu filho.

Meu herói.



20 junho 2026

Fui pedida em casamento... pelo meu marido

A enchente levou tudo o que tínhamos de material. Móveis, objetos, coisas que levamos anos para conquistar. Mas o mais difícil não foi perder as coisas.

O mais difícil foi o depois.

Foram meses vivendo fora de casa, em casas alheias, tentando sobreviver no meio do caos. Para quem vive de verdade e não de aparências, estar constantemente na casa dos outros é uma exaustão que não cabe em palavras. Foi viver de masking, de autocontrole permanente, de vigiar cada gesto, cada barulho, cada necessidade das crianças, cada emoção. Foi carregar a sensação constante de ser um incômodo, mesmo quando ninguém dizia isso em voz alta.

Meu marido também carregava um peso que parecia impossível de sustentar.

Apesar do atestado da Defesa Civil, ele foi obrigado a trabalhar. Durante o dia, vinha sozinho limpar uma casa destruída pela enchente porque não queria expor as crianças àquilo. À noite, trabalhava. Dormia pouco, carregava móveis, jogava fora pedaços da nossa vida e tentava continuar funcionando.

E ainda ouviu que não estava fazendo o suficiente.

Ouviu que dormir não era prioridade. Que não havia motivo para reclamar de cansaço.

Inclusive de mim.

Hoje eu consigo olhar para trás e perceber que ele estava no limite do emocional o tempo todo. O que eu enxergava como irritação era, na verdade, um homem quebrado, exausto, provavelmente enfrentando uma depressão que nenhum de nós havia percebido ainda. Na frente dos outros, ele se controlava porque precisava. Mas quando ficávamos sozinhos, toda a dor transbordava. Não em violência. Nunca nisso. Mas em um cansaço tão profundo que parecia não ter fim.

Então ele tomou uma decisão: dormir em casa e terminar tudo aos poucos.

Mas eu também estava no meu limite.

As brigas constantes consumiram meu psicológico. Eu não conseguia mais viver fingindo ser alguém que não sou, justamente quando minha vida estava em ruínas. Então eu vim embora. Com as crianças.

Ajudei a terminar a limpeza.

Voltamos para uma casa praticamente vazia. Tínhamos uma panela elétrica e muito cansaço.

Só isso.

E, ainda assim, não nos arrependemos.

Porque descobrimos uma verdade que a enchente não conseguiu levar: nossa família é muito melhor quando está junta.

Somos fortes demais para estarmos separados.

Somos casca dura.

E, quando parecia que finalmente respiraríamos um pouco, veio mais uma pancada.

As aulas voltaram. Meu sogro havia ido embora e meu marido começou a levar as crianças de ônibus. Em um desses dias, ao descer do ônibus, ele quebrou o pé.

Foram quatro meses sem receber salário. Quatro meses sem trabalhar. Quatro meses de espera, enquanto o INSS estava em greve.

Mais uma vez, sobrevivemos.

Mais uma vez, permanecemos de pé.

E vencemos.

Meu marido olhou para tudo o que havíamos atravessado e entendeu algo importante: sobreviver merecia uma celebração.

Então compramos alianças novas. A dele havia ficado na enchente.

E ele me pediu em casamento de novo.

Quase um ano depois da enchente, fizemos nossos dez anos de casados e renovamos nossos votos.

Foi a melhor escolha que fizemos.

Porque, em muitos sentidos, nós morremos naquela enchente.

E também nascemos nela.

Nasceu uma nova forma de olhar para a vida. Uma nova forma de amar. Uma nova forma de entender o casamento.

As águas levaram nossos bens, nossa segurança e nossas certezas.

Mas não levaram a nossa família.

Não levaram a nossa fé.

Não levaram o nosso amor.

Pelo contrário.

No meio da lama, da exaustão, das lágrimas e do medo, nós nos encontramos de novo.

E descobrimos que o nosso casamento não era feito de paredes, móveis ou estabilidade.

Era feito de duas pessoas imperfeitas que, apesar de tudo, continuam escolhendo uma à outra.

Nós renascemos.

E o nosso casamento também.