05 dezembro 2020

Resenha: COMO SE TORNAR O PIOR ALUNO DA ESCOLA

O nome gerou polêmica. O autor gerou polêmica. A visão política gerou polêmica. Eu julguei.
O filme não é tão engraçado assim. Na verdade, lembra qualquer outro filme brasileiro (nenhum preconceito, amo alguns filmes brasileiros). Mas não tinha necessidade de qualquer polêmica ou "sabotagem".
A história é até meio "polêmica". Se trata de um aluno "ruim" que se tornou rico é procurado por adolescentes que querem aprender a ser "o pior aluno da escola". A mensagem parece ser que "quem apronta se dá bem", quando na verdade não se trata de algo contra a aprendizagem (ele lê e muito, e ensina os meninos a fazerem isso), e sim contra o SISTEMA ESCOLAR.
Sim, é um sistema ruim. A escola hoje continua sendo o que era há trinta anos. Maçante e cansativa, cercada de bullying e violência, profissionais que sequer tentam entender o lado do aluno (sem generalização), sem atrativos e nem mesmo com uma forma de aprendizagem (o normal é "ganhar nota", não aprender). 
É disso que fala. Desse sistema ruim. Não da aprendizagem, da educação e muito menos do aluno estudioso (que é o caso da personagem adolescente e adulto) se tornar ruim. Se trata de uma denúncia em forma de comédia.
Eu recomendo assistir, antes de julgar.

13 setembro 2020

A turma heterogênea


Por muito tempo ouvi, dos meus próprios professores, a crítica às turmas heterogêneas como algo que dificultava sobremaneira o trabalho do professor, em especial quando a turma era grande. Também já ouvi absurdos como "crianças assim não deveriam estudar junto com as outras crianças". Ouvia isso de professores formadores de outros professores. Graças a Deus que nunca repeti esse tipo de comportamento.
Estou no fim do curso de pedagogia, e hoje entendo que turma heterogênea não se trata apenas da turma inclusiva (ou com alunos com necessidades especiais). Trata-se de qualquer turma, desde o início dos tempos. 
Ninguém aprende da mesma forma, é avaliado da mesma forma, pensa da mesma forma, tem a mesma cultura ou mesmas crenças. Os professores sempre lidaram com as diferenças em sala de aula, desde os mais pequenos bebês aos mais velhos da EJA. Mas qual é então, o desafio de trabalhar com turmas assim?
Veja, por não lidarmos com turmas homogêneas, a ideia de tratamento igual para todos é antiquada e usa a meritocracia como desculpa para não lidar com os diferentes ritmos de aprendizagem. Escuto que é preciso esforço do aluno, que é preciso estudar mais, que todos tem que aprender a fazer trabalhos ou provas, porque um dia terão que prestar vestibular ou TCC. Mas não consigo enxergar a meritocracia como algo benéfico em sala de aula.
Eu nunca fiz trabalhos. Sério. Um lá que outro copiei direto da internet. E talvez lendo esse post agora você imagina que eu saberia escrever um. Mas a minha dificuldade era muito mais que isso. Já minha melhor amiga, tinha extrema dificuldade com provas. Suava frio e não lembrava de nada do conteúdo (que sabia) ao fazê-las. 
Então, se o objetivo da escola é a aprendizagem, por que motivo um aluno que sabe precisa provar isso através de uma prova? Ou de um trabalho se ele não gosta de ser avaliado dessa forma?
No Desenho Universal de Aprendizagem, a ideia é cada aluno escolher a forma que quer aprender e ser avaliado. Parece utopia, mas é algo que ainda sonho fazer um dia. Quem sabe?
Há ainda os ritmos de aprendizagem. Alguns professores, infelizmente, se preocupam apenas com as notas do aluno e sua aprovação. Muitos que sabem o conteúdo acabam reprovados ou os que não sabem acabam aprovados sem nunca aprender aquilo outra vez (já passei pelas duas situações). Se o objetivo é aprender, porque isso acontece? Infelizmente, porque tratam turmas como homogêneas.
Pensar o aluno como indivíduo faz com que entendamos suas necessidades de tempo diferente de aprendizagem, forma diferente de aprender e ser avaliado. E não só isso, mas também a forma como ser tratado, seus sentimentos, suas reações frente as adversidades da escola, seus problemas, sua vida familiar, seu trajeto a escola... Enfim.
Não pretendo aqui dissertar para um artigo ou mesmo um trabalho, apenas comentar um pouco sobre algo que alguns não gostam de pensar. 
Porque pensar causa mudanças, e mudanças não são bem vindas, infelizmente.
Mas não acham que em plena época da tecnologia desenfreada não está na hora de mudar de fato e não só no papel?

Fonte pesquisada:
Beck, C. (2017). Turma heterogênea: como trabalhar? Andragogia Brasil. Disponível em: https://andragogiabrasil.com.br/turma-heterogenea/

20 junho 2020

Esdras e a festa de aniversário

Era um dia triste. Eu estava fazendo dezoito anos, mataram meu amigo com um tiro em frente a minha casa por causa de droga, eu brigara com minha mãe e minha tão sonhada festa a fantasia tinha sido desmanchada porque eu estava triste. Usava um vestido cinza de senhora que comprei com pressa, trocado pelo vestido azul de Cinderela. Meus amigos estavam todos lá, mas eu me sentia sozinha como sempre. Meus pensamentos continuavam em números e calorias, e não estava feliz com aquela festa sem música nem dança. Eu precisava dançar para esquecer tudo. E beber. Mas isso também não tinha.
- Coloca as músicas do meu celular aí - eu disse me referindo aos funk's e companhia que eu tinha para dançar sozinha de vez em quando. 
Esdras fez que sim, ligando o cabo na caixa de som quase do tamanho dele que ele trouxera. Passou as músicas percebendo o estilo delas e riu, seu tom soou malioso, mas eu não via isso com maldade, porque quase todos meus amigos eram assim. 
- Curte dançar isso, é? - ele perguntou, seus olhos riram pra mim e o sorriso veio depois. Eu gostava daquele rosto. Pele escura, olhos pequenos, sorriso branco perfeito e não tinha nada que não me chamasse atenção ali.
Não era dele que eu gostava. O cara que eu gostava estava lá do lado de fora, dando conversa para uma das minhas amigas da escola, uma loira gostosa que os meninos sempre davam bola. Ela tinha catorze anos, ele dezesseis. Era justo, apesar de eu ainda pensar naquele rostinho de pele um pouco mais clara que Esdras, mais magro e menos bonito. Mas era dele que eu gostava.
- Posso te dizer que tu não parece bem? - ele perguntou quando eu não parecia estar com os pensamentos no lugar certo. Dei um sorrisinho sem graça para ele, que continuava rindo maliciosamente das minhas músicas enquanto as passava. Alguém fez algum comentário para colocar músicas "decentes". Me dignei a encarar com um "cala a boca" nos olhos.
- Então, tu gosta desse tipo de coisa? - ele perguntou, ninguém nos ouvia, a música estava alta.
- De dançar? Bem, gosto sim - respondi dando de ombros, ele gargalhou.
- Não é bem disso que eu tava perguntando, não - ele disse, eu não entendi que ele estava falando de outro tipo de coisa, das letras do funk. Então simplesmente fingi ter ignorado.
- E sobre essa questão aí, do sexo? Você gosta?
Nunca fui de me importar com esse tipo de assunto, fosse com menino ou menina. Eu era assim, gostava de falar de tudo, me sentir inteligente, apesar de não entender nada na prática.
- Não é minha praia - respondi simplesmente - Tenho essas paradas de casar virgem e tal. 
Ele gargalhou.
- Entendi. Mas nem brincando? Sei lá, sexo oral ou anal, sei lá? 
A cabeça dele fez um movimento para trás junto com a risada, entendi que era tudo uma brincadeira, mas não deixei ele me fazer rir daquilo.
- Acho nojento, normalmente quem gosta de sexo anal é gay ou gosta da coisa mas não admite - fui seca, agora, quase grossa. Ele parou de rir.
Houve silêncio por alguns minutos, ele continuou conversando comigo por bastante tempo, sobre assuntos aleatórios que não mais tinham a ver com sexo. Ache que ali tinha nascido uma boa amizade, dessas de verdade entre menino e menina. Ele parecia gostar de conversar comigo e eu gostava de conversar com ele também. E bem, ele era bonito no fim das contas.