29 maio 2026

Como mudei meu time do coração (e sobrevivi para contar)


Existem algumas confissões que parecem mais difíceis de fazer do que deveriam.
Esta é uma delas.
Eu mudei de time.
E, sendo gaúcha, sei que para muita gente isso soa quase como uma heresia.
Quando eu era criança, era gremista. Não por convicção. Não por amor. Não por entender de futebol. Eu simplesmente era. Meus pais eram gremistas, apesar de nem ligarem muito para futebol, então foi o time que herdei.
Mas isso mudou quando eu tinha cerca de 11 anos.
Eu admirava profundamente minha irmã mais velha. Daquelas admirações infantis que fazem a gente querer gostar das mesmas coisas, ouvir as mesmas músicas, seguir os mesmos caminhos. Ela era meu espelho.
E ela era colorada.
Não sei exatamente por quê. Nunca soube. Mas bastou isso para que eu também me tornasse colorada.
Foi uma escolha simples, quase sem perceber.
Por alguns anos, foi assim.
Teve até uma fase, lá pelos 13 anos, em que me decepcionei um pouco com meu time adotado e comecei a dizer que torcia para o Juventude. Adolescente tem dessas coisas.
Mas então veio 2006.
E tudo mudou.
O Brasil tinha acabado de nos deixar de coração partido na Copa do Mundo. Para quem cresceu vendo o penta de 2002, aquela eliminação doeu.
Só que, naquele mesmo ano, aconteceu algo especial.
Veio a Libertadores.
Depois veio o Mundial.
E, de repente, o Internacional conquistou o mundo.
Eu não era uma menina apaixonada por futebol. Mas aquilo parecia uma segunda Copa do Mundo acontecendo diante dos meus olhos.
E eu vivi cada pedaço dela.
Vi o time chegar à Base Aérea, a poucos minutos de onde eu morava.
Vi a multidão.
Vi uma cidade inteira vestida de vermelho e branco.
Vi ruas que pintadas para receber campeões.
E chorei.
Chorei de emoção junto com milhares de pessoas.
Gritei junto com elas.
Celebrei junto com elas.
Foi uma experiência tão intensa que até hoje tenho dificuldade para explicar.
Não foi apenas um título.
Foi um momento.
Um daqueles momentos raros que ficam guardados para sempre.
Um daqueles momentos que um dia vou contar aos meus filhos — especialmente ao meu filho colorado — porque fazem parte da minha história.
E fazem mesmo.
O tempo passou.
Muito tempo.
Mais de quinze anos.
Eu cresci.
Casei.
Virei mãe.
E foi aí que a vida resolveu pregar outra peça.
Meu marido é gremista.
Mas não apenas gremista.
Ele é daqueles gremistas que carregam o time no coração de verdade.
Daqueles que gostam de assistir futebol.
Gostam de conversar sobre futebol.
Gostam de jogar futebol.
Gostam de analisar futebol.
Daqueles que conseguem enxergar estratégias, movimentações e possibilidades que passam despercebidas para a maioria das pessoas.
E, sem que eu percebesse, fui entrando naquele universo.
Não porque ele me puxou para dentro.
Mas porque eu amava ouvir alguém falar com tanta paixão sobre algo.
Quando nosso filho mais velho tinha apenas 30 dias de vida, dei a ele um presente.
Uma visita à Arena do Grêmio.
A Arena ainda era nova.
Imponente.
Bonita.
E eu fui junto.
Com ele.
Com o bebê.
E com a absoluta certeza de que continuava sendo colorada.
Pelo menos era isso que eu pensava.
Até hoje não sei explicar exatamente o que aconteceu naquele passeio.
Talvez tenha sido o corredor dos campeões.
Talvez tenham sido as imagens.
Talvez tenha sido o gramado.
Talvez tenha sido o vídeo mostrando o Grêmio conquistando o mundo — uma emoção que eu tinha vivido com meu próprio time.
Talvez tenha sido tudo isso junto.
Só sei que alguma coisa mudou.
De verdade.
Não foi naquele instante.
Não foi como apertar um interruptor.
Foi como uma semente.
Algo foi plantado dentro de mim naquele dia.
E eu saí da Arena diferente.
Durante muito tempo tentei ignorar isso.
Porque mudar de time não é algo que as pessoas simplesmente fazem.
Ainda mais por aqui.
Ainda mais no Rio Grande do Sul.
Ainda mais entre Grêmio e Inter.
Mas quanto mais o tempo passava, mais eu percebia que algo tinha acontecido.
Eu continuava guardando com carinho todas as lembranças de 2006.
Continuava me emocionando ao lembrar daquela multidão vermelha.
Continuava amando aquela memória.
Mas havia outra coisa agora.
Algo que nunca tinha sentido antes.
Eu finalmente entendia o que era amar um time.
E o time que me fez sentir isso foi o Grêmio.
Não foi meu marido.
Por mais que ele goste de dizer que sabia que isso aconteceria um dia.
O que, aliás, me deu uma certa raivinha quando ouvi pela primeira vez.
Foi meu coração.
Foi algo completamente inesperado.
Talvez porque, lá no fundo, ele tenha apenas voltado para o primeiro time que escolheu sem pensar.
Talvez porque eu tenha encontrado ali um sentimento que nunca tinha experimentado antes.
Não sei.
O que sei é que, depois de muita teimosia, muita negação e algumas discussões internas, eu aceitei.
E depois de mais algum tempo, contei para o marido.
Infelizmente, ele ficou feliz demais com a notícia.
Hoje consigo olhar para toda essa história sem apagar nenhuma parte dela.
Não preciso renegar a menina colorada que chorou em 2006.
Ela faz parte de quem eu sou.
Aquela emoção foi real.
Aquela felicidade foi real.
Aquelas lembranças são reais.
Mas também é real o fato de que foi o Grêmio que me ensinou o que significa amar um clube.
E talvez seja justamente isso que torne essa história tão polêmica.
Porque, no fim das contas, eu não escolhi mudar de time.
Foi o coração que escolheu por mim.
E, dez anos depois, acho que finalmente chegou a hora de admitir isso publicamente.
Podem me julgar.
Mas esta é a verdade.
Sou gremista.
E sobrevivi para contar a história.

28 maio 2026

Como me tornei mãe

Eu me tornei mãe antes de ter filhos.

Não no papel. Não biologicamente. Não na maternidade de hospital, com pulseirinha no braço e bebê enrolado numa manta.

Eu me tornei mãe quando tinha 21 anos e meu coração começou a doer de um jeito estranho. Eu não namorava. Não tinha planos concretos. Mas, de repente, comecei a chorar “do nada” com vontade de ter um bebê, como se alguma coisa dentro de mim estivesse gritando que o tempo estava acabando.

Talvez fosse medo. Talvez o eco dos anos de transtorno alimentar, da anemia profunda, do receio de nunca conseguir gerar uma vida. Talvez fosse só o relógio biológico enlouquecendo cedo demais.

Ou talvez Deus já estivesse preparando meu coração.

Naqueles mesmos dias, apareceu um bebê na minha casa.

Um primo pequeno, quase esquecido pelas dores da vida adulta ao redor dele. Um bebê que estava completando um ano exatamente no dia em que chegou lá em casa.

E, sem perceber, eu virei mãe.

Não é exagero. Não é emoção inventada pela memória. É a verdade mais crua que existe dentro de mim.

Eu cuidei dele até os quatro anos.

Troquei fraldas. Fiz comida. Dei colo. Passei noites cansadas. Organizei rotina. Me preocupei. Protegi. Amei.

Cheguei a largar um emprego por causa dele. E sinceramente? Só uma mãe faz esse tipo de escolha sem pensar duas vezes.

Quando aquele ciclo terminou, doeu como arrancar um pedaço do meu corpo. Mas ao mesmo tempo existia alegria. Porque eu estava entregando aquele menino para uma mãe biológica transformada. Recuperada. Pronta para amar o próprio filho.

E só uma mãe entende a mistura impossível entre sofrimento e paz naquele tipo de despedida.

Dois anos depois, nasceu meu filho.

Meu primeiro bebê.

Mas a maternidade já morava em mim havia muito tempo.

O primeiro ano dele foi difícil. A depressão pós-parto roubou partes inteiras da minha memória. Às vezes sinto como se tivesse perdido meu filho bebê no meio daquela névoa escura.

Mas eu lembro do momento em que ele me salvou.

Porque foi isso que aconteceu.

Quando eu o vi, alguma coisa em mim abriu de vez. Como um leão preso numa jaula que finalmente arrebentou as grades.

A maternidade me tomou inteira.

E desde então tudo na minha vida passou a ser atravessado por esse amor.

O afterschool. O culto doméstico. Os devocionais. A alimentação saudável. As horas ensinando. O cuidado com as telas. O cansaço. A presença. A entrega diária.

Tudo isso nasce do mesmo lugar.

Acho que muita mulher foi convencida de que, se a maternidade dói, então ela só pode ser prisão. Mas não é tão simples assim. Tem coisas na vida que cansam justamente porque são grandes. Porque exigem tudo da gente.

Eu não sou do tipo que diz “amo meus filhos, mas odeio ser mãe”.

Eu amo meus filhos profundamente.

Mas também amo a maternidade com toda a força da minha alma.

Porque ser mãe é muito maior do que gerar filhos.

Ser mãe é se abrir para a vida.

É permitir que o amor ocupe todos os cômodos do coração até não existir mais espaço vazio.

É viver um sentimento que parece ter sido soprado pelo próprio Deus dentro da gente.

Uma forma de amor sacrificial, feroz, doce e santa ao mesmo tempo.

E desde aquele bebê que chegou inesperadamente na minha casa catorze anos atrás, eu nunca mais deixei de ser mãe.

26 maio 2026

Eu sou um milagre: como saí do meu mundo

A vida inteira, disseram que eu vivia no “meu mundo”.

E talvez fosse verdade.

Eu era aquela criança estranha e introvertida. A que brincava sozinha. A que passava horas conversando consigo mesma. A menina que tinha amigos imaginários, histórias imaginárias, universos imaginários. Enquanto outras crianças pareciam pertencer naturalmente ao mundo real, eu existia meio distante dele, como se houvesse sempre um vidro invisível entre mim e o resto das pessoas.

Eu observava tudo de longe.

E no silêncio da minha cabeça, construía mundos inteiros.

Na adolescência, as coisas não mudaram muito. Eu vivia em cima do muro: entre Deus e os prazeres adolescentes, entre querer ser diferente e tentar desesperadamente ser igual. Era a época do “ficar”, da necessidade de aceitação, das modas, das máscaras sociais. Mas mesmo tentando acompanhar tudo aquilo, eu continuava vivendo metade aqui, metade em outro lugar.

Fantasia e realidade começaram a se misturar.

Minhas histórias deixaram de ser apenas histórias. Eu contava coisas do meu mundo como se fossem reais. Inventava versões melhores, mais suportáveis, menos dolorosas da vida. Hoje entendo que aquilo não era maldade nem manipulação. Era sobrevivência.

Porque às vezes a dor é tão grande que a mente cria universos paralelos pra pessoa conseguir continuar respirando.

E eu respirava assim.

Dormindo acordada.

Então minha vida virou de cabeça pra baixo.

Entre os 16 e os 20 anos, vivi uma sucessão de terremotos emocionais. Depressão. Anorexia. Leucemia. Conversão. Noivado. Saga Crepúsculo. Amor adolescente. Namoro. Gravidez. Casamento.

Foi uma volta de 180 graus tão rápida que meu mundo autista simplesmente não acompanhou.

Por fora, minha vida seguia. Por dentro, eu ainda estava perdida naquele lugar distante onde passei a vida inteira escondida.

Então veio a maternidade.

E a maternidade não bate na porta devagar.

Ela arromba.

A gestação mudou minha rotina. O casamento mudou minha rotina. O bebê mudou completamente meu universo.

E eu não estava preparada.

Passei um ano e meio afundada numa depressão pós-parto tão profunda que mal consigo explicar em palavras. Eu existia no automático. Como uma pessoa sonâmbula atravessando os dias.

Todos os dias eu ia pra casa da minha mãe.

Ela dava banho nele. Ela alimentava. Ela brincava. Ela cuidava.

Eu amamentava. Trocava fralda. Tentava manter uma rotina mínima. Fazia o básico do básico enquanto afundava dentro da minha própria mente.

Meu filho crescia diante dos meus olhos.

E eu não conseguia enxergar.

É difícil admitir isso. Dói escrever isso. Mas a verdade é que eu não estava presente. Meu corpo estava ali. Minha alma não.

Eu vivia submersa.

Como alguém dormindo no fundo de um oceano silencioso.

Até aquele dia.

Eu ainda lembro da luz entrando. Lembro dele brincando na minha frente. Lembro de estar olhando pra algum lugar inexistente dentro da minha cabeça, completamente distante dali mais uma vez.

Então, de repente, duas mãozinhas seguraram meu rosto.

Pequenas. Quentes. Reais.

Meu filho virou minha cabeça na direção dele, me obrigando a olhar.

E disse:

— Mãe.

Foi naquele instante.

Naquele segundo exato.

Como numa cena de filme, senti como se estivesse emergindo de dentro da água depois de anos submersa. Como se alguém tivesse me puxado pela mão para a superfície. O som voltou. A luz voltou. O mundo voltou.

Eu acordei.

De verdade.

Olhei pra ele como se estivesse vendo meu filho pela primeira vez.

E o choque me atravessou inteira.

Como ele cresceu tanto? Como ele já fala “mamãe”? Como eu perdi isso? Como eu não vi?

Meu bebê já não era mais um bebê.

E eu não tinha percebido o tempo passar.

Aquilo me destruiu. E ao mesmo tempo, me ressuscitou.

Foi o dia em que saí do meu mundo.

Pela primeira vez, entendi que precisava lutar contra aquele sono invisível que me acompanhou a vida inteira. Eu não sabia dar nome ao que vivia. Não entendia autismo, dissociação, hiperfoco, shutdown, depressão. Só sabia que não queria mais perder minha vida enquanto ela acontecia diante de mim.

Escolhi trabalhar.

Passei três meses tentando “ressuscitar” enquanto meu filho ficava na mesma escola em que eu trabalhava. Achei que aquilo talvez me salvasse.

Mas aprendi outra coisa.

Aprendi que eu não queria trocar meu filho pelo trabalho.

Fui demitida porque escolhi ele.

E escolheria mil vezes.

Depois comecei a faculdade. Outra tentativa de não afundar novamente. Outra tentativa de construir uma vida real.

E foi ali que Deus começou a me reconstruir de verdade.

Ele me ensinou sobre família. Sobre maternidade. Sobre feminilidade. Sobre masculinidade. Sobre filhos. Sobre amor sacrificial. Sobre identidade. Sobre verdade.

Tudo o que eu acreditava até então foi confrontado.

Percebi quantas ideias tinham sido colocadas dentro de mim sem que eu sequer percebesse. Quantas mentiras eu tinha engolido tentando encontrar liberdade, quando na verdade só estava mais perdida.

Então veio minha segunda gravidez.

E junto dela, uma crise enorme.

Mas também veio a resposta que eu carreguei a vida inteira.

Eu era autista.

Procurei CAPS, terapia, diagnóstico. Pela primeira vez, minha vida começou a fazer sentido. Eu não era apenas estranha, preguiçosa, desligada ou “viajando”. Meu cérebro simplesmente funcionava de outra forma.

Eu era uma autista. Uma mãe. Uma mulher grávida. Mas agora, uma mulher desperta.

Eu tinha saído do meu mundo.

Ou talvez… Deus tivesse entrado nele pra me buscar.

Desde então, decidi viver presente.

Me dediquei de corpo e alma aos meus filhos. Afterschool, devocional, tempo de qualidade, conversas, brincadeiras, ensino, colo, rotina, cuidado. Tudo o que eu posso fazer por eles, eu faço.

Porque hoje eu sei: o tempo passa.

E eu nunca mais quis perder a vida acontecendo diante dos meus olhos.

As pessoas dizem que autistas vivem no próprio mundo.

Talvez eu tenha vivido mesmo.

Mas meu mundo hoje tem nomes. Tem risadas. Tem bagunça. Tem cheiro de comida. Tem criança correndo pela casa. Tem oração antes de dormir. Tem abraço apertado. Tem “mamãe, olha isso”. Tem vida real.

A menina que criava mundos imaginários cresceu.

Hoje, ela cria filhos.

E às vezes eu olho pra trás e penso:

Eu sou um milagre.