07 junho 2026

O conflito de gerações (na educação dos filhos)


Sou uma criança dos anos 90.

Cresci brincando na rua, na terra, correndo descalça, subindo em árvores e explorando o mundo. Minha introdução alimentar teve mel na chupeta, suco antes da água e papinhas de fruta e sopa depois. A televisão fazia parte da rotina da casa. Assistíamos novelas em família, BBB, Feiticeira, Tiazinha e até a famosa banheira do Gugu. A sexualização que hoje tanto preocupa muitos pais não entrou na minha vida pela escola. Entrou pela televisão ligada na sala de casa.

A leitura era incentivada, mas sem grandes preocupações. A alfabetização era responsabilidade da escola. A educação religiosa era responsabilidade da igreja. Os pais trabalhavam e as crianças brincavam. O principal dever dos filhos era tirar boas notas e, quando muito, ajudar em algumas tarefas domésticas ou cuidar dos irmãos mais novos.

Também fomos criados em uma cultura onde castigos físicos eram considerados normais. Muitas mães enfrentavam jornadas duplas, trabalhando fora e dentro de casa. Descansar não era uma prioridade. Na verdade, para muitas delas, descansar sequer era uma opção.

Era um mundo diferente.

Com coisas boas e coisas ruins.

Com acertos e erros.

Hoje somos nós que estamos criando filhos.

E fazemos isso de forma muito diferente.

Falamos sobre zero açúcar até os dois anos. Limitamos ou evitamos telas na primeira infância. Instalamos travas nas gavetas, protetores nas tomadas e grades nas escadas. Incentivamos a leitura desde cedo. Estudamos desenvolvimento infantil, regulação emocional, alfabetização, apego seguro e educação respeitosa.

Muitos de nós acreditamos que a principal educação acontece dentro de casa. A escola complementa. A igreja complementa. Mas a responsabilidade principal é da família.

E isso cria um conflito de gerações enorme.

Muitas vezes nossas mães e avós olham para nossas escolhas sem entender. Querem oferecer um doce ao bebê. Acham exagero limitar televisão. Estranham quando os pais se envolvem diretamente na alfabetização. Consideram excesso de zelo certas preocupações com segurança ou desenvolvimento infantil.

Mas talvez o conflito mais curioso nem seja sobre açúcar ou telas.

Talvez seja sobre descanso.

As mulheres das gerações anteriores foram ensinadas que uma boa mãe estava sempre trabalhando. Casa limpa. Roupa lavada. Comida pronta. Filhos cuidados. Serviço feito.

Sentar para descansar podia parecer preguiça.

Muitas delas usavam a televisão para conseguir fazer tudo o que precisava ser feito dentro de casa. E não porque eram negligentes. Porque simplesmente não existiam horas suficientes no dia para dar conta de tudo.

O descanso delas muitas vezes era apenas dormir quando o dia terminava.

Hoje muitas mães estão tentando construir uma relação diferente com a maternidade. Não apenas criando os filhos de outra forma, mas também entendendo que mães continuam sendo pessoas.

Pessoas que podem descansar.

Pessoas que podem ler um livro.

Pessoas que podem tomar um café em paz.

Pessoas que podem ter hobbies.

Pessoas que podem pedir ajuda.

Pessoas que não precisam provar seu amor pela família através do esgotamento.

É claro que nem toda mãe de hoje pensa assim. Existem mães que trabalham fora, mães que ficam em casa, mães que usam telas livremente, mães que limitam telas, mães que oferecem doces cedo, mães que esperam mais tempo, famílias que terceirizam parte da educação e famílias que assumem quase tudo dentro de casa.

Assim como nem todas as mães dos anos 90 criavam os filhos da mesma maneira.

Estamos falando de tendências geracionais, não de indivíduos.

O que mudou foi a cultura.

A geração das nossas mães confiava mais nas instituições para ajudar a criar os filhos. A escola ensinava. A igreja discipulava. O médico orientava. A televisão entretinha.

A geração atual tende a trazer mais responsabilidades para dentro de casa. Pesquisamos, estudamos, questionamos, adaptamos e assumimos uma participação muito mais ativa em praticamente todos os aspectos da criação dos filhos.

Isso não significa que somos melhores pais.

Significa apenas que vivemos em uma época diferente.

Nossas mães criaram seus filhos com o conhecimento que possuíam. Nós criamos os nossos com o conhecimento que temos hoje.

Quando uma avó oferece um doce para o neto, ela não está necessariamente tentando desrespeitar os pais. Muitas vezes ela está repetindo algo que funcionou para ela.

Quando uma mãe recusa, ela também não está necessariamente julgando sua própria mãe. Ela está apenas tentando seguir aquilo que acredita ser o melhor para seu filho.

As duas estão tentando amar a mesma criança.

Apenas partiram de referências diferentes.

Por isso esse conflito é tão comum.

Não é uma guerra entre gerações.

É um encontro entre mulheres que foram ensinadas a ser mães de maneiras completamente diferentes.

E talvez a maior verdade seja esta: cada geração tenta oferecer aos filhos aquilo que acredita ser melhor.

Nossas mães fizeram isso.

Nós estamos tentando fazer isso.

E, provavelmente, nossos filhos também farão quando chegar a vez deles.

Graças a Deus o conhecimento avança. Graças a Deus aprendemos coisas novas. Graças a Deus podemos corrigir erros, preservar acertos e continuar construindo sobre o trabalho daqueles que vieram antes de nós.

Não porque as gerações anteriores falharam.

Mas porque cada geração recebe a oportunidade de aprender um pouco mais e fazer um pouco melhor.

06 junho 2026

A sinceridade do autista adulto


Durante a pandemia, quando minha turma discutia detalhes da formatura, aconteceu uma das brigas mais bobas da minha vida.

O assunto era a camiseta da turma. Algumas colegas queriam usar o símbolo clássico da pedagogia estampado nela. Eu apenas disse que achava o desenho feio.

Só isso.

Não fiz discurso. Não ataquei ninguém. Não disse que quem gostava tinha mau gosto. Apenas falei que achava feio.

A reação foi desproporcional. Fui acusada de ser grossa. Questionaram como uma estudante de pedagogia podia não gostar de um símbolo tão tradicional. Em poucos minutos, uma simples opinião parecia ter se transformado em uma ofensa pessoal.

Na tentativa de explicar o mal-entendido, disse que era autista. Expliquei que minha fala era direta, que eu não tinha intenção de ser rude.

A resposta veio rápida.

A colega disse que tinha um sobrinho autista e que ele não era assim. Disse também que já havia estudado sobre autismo e que ser grosseiro não era uma característica do transtorno.

E talvez seja exatamente aí que mora a questão.

A sinceridade do autista adulto incomoda.

Quando uma criança fala o que pensa, as pessoas costumam rir. Acham engraçado. Acham espontâneo. Uma criança pode dizer que o cabelo ficou estranho, que a comida está ruim ou que alguém está velho, e isso é recebido como inocência.

Mas quando um autista cresce, a mesma sinceridade deixa de ser vista como espontaneidade e passa a ser interpretada como falta de educação.

O que antes era considerado autenticidade vira defeito.

O famoso "sincericídio" do autista adulto não costuma ser aceito socialmente. Não é visto como uma diferença na forma de comunicação. É tratado como grosseria, arrogância ou insensibilidade.

Com o tempo, muitos de nós aprendemos a mascarar. Aprendemos a medir palavras, decorar regras sociais e calcular reações antes de abrir a boca. Não porque deixamos de ser sinceros, mas porque descobrimos que a sinceridade tem um preço.

Curiosamente, essa história teve um final feliz.

Anos depois, um dia antes de um evento da faculdade, encontrei justamente aquela colega na manicure. Conversamos. Lembramos da briga. Rimos da situação. Percebemos juntas o tamanho da besteira que aquilo tinha sido.

No dia seguinte, fomos juntas de Uber até o local de encontro do ônibus.

A vida seguiu.

Mas eu aprendi uma lição.

Desde então, evito colocar "autismo" e "sinceridade" na mesma frase.

Não porque uma não tenha relação com a outra, mas porque muitas pessoas escutam essa explicação como uma justificativa, quando na verdade ela é apenas uma tentativa de traduzir uma experiência que elas nunca viveram.

O autismo pode ser estudado.

Você pode ler livros, assistir palestras, fazer cursos. Pode ter um sobrinho autista, um neto autista, um aluno autista ou até um filho autista.

Tudo isso gera conhecimento.

Mas existe uma diferença entre conhecer o autismo e viver o autismo.

Só quem passa a vida inteira tentando decifrar regras sociais invisíveis, interpretando olhares, revisando conversas mentalmente e se perguntando onde errou numa frase aparentemente simples sabe o peso disso.

E essa parte, por mais que seja estudada, só o autista conhece por dentro.

A mágica da arrumação (versão digital)

Se Marie Kondo tivesse acesso ao meu celular, provavelmente faria um chá, respiraria fundo e pediria reforços.

Eu sou uma acumuladora digital.

Tenho pastas cheias de artesanatos que talvez eu faça um dia. Atividades para crianças que talvez eu use um dia. Materiais de homeschool para assuntos que talvez eu ensine um dia. Receitas que talvez eu cozinhe um dia. Imagens para colorir, inspirações, moldes, textos, PDFs, e-books e capturas de tela de coisas que pareciam extremamente importantes naquele exato momento.

O problema é que esse "um dia" é um lugar muito movimentado.

Milhares de ideias moram lá.

Quase nenhuma vem visitar o presente.

Durante muito tempo, achei que estava guardando possibilidades. Hoje percebo que estava acumulando decisões adiadas.

Porque cada arquivo salvo é uma pequena conversa interrompida:

"Vou olhar depois."

"Vou organizar depois."

"Vou usar depois."

E o depois vai se empilhando até virar uma espécie de sótão digital.

Se esses arquivos ocupassem espaço físico, provavelmente eu apareceria em algum daqueles programas sobre acumuladores. Haveria pilhas de apostilas encostadas no teto, caixas de artesanato bloqueando corredores e uma montanha de desenhos para colorir ameaçando desabar sobre a sala.

Mas como tudo cabe na nuvem, a bagunça parece invisível.

Só parece.

Porque a desordem digital também ocupa espaço. Não no armário, mas na mente.

Cada arquivo guardado carrega uma expectativa. Uma possibilidade. Um "e se eu precisar?". E quando milhares de "e se" se acumulam, eles começam a pesar.

Por isso comecei a olhar meus arquivos um por um.

Não para perguntar se eles me trazem alegria.

A resposta, na maioria das vezes, é não.

Um PDF de matemática do quarto ano não desperta emoções profundas. Uma atividade de coordenação motora dificilmente mudará minha vida.

A pergunta que estou aprendendo a fazer é outra:

"Eu realmente pretendo usar isso?"

E, principalmente:

"Se eu precisasse disso daqui a cinco anos, eu não conseguiria encontrar algo semelhante em cinco minutos na internet?"

A resposta costuma ser constrangedoramente simples.

Sim.

Eu conseguiria.

A verdade é que muitas vezes não estamos guardando arquivos. Estamos guardando o medo de perder oportunidades.

Mas oportunidades não moram em pastas.

Moram no tempo que temos para viver, criar e realizar.

Enquanto isso, as empresas de armazenamento em nuvem assistem à cena com um sorriso discreto. Afinal, eu sou exatamente o tipo de cliente que elas sonham em ter: alguém que guarda tudo porque talvez um dia precise.

Talvez a mágica da arrumação digital seja perceber que conhecimento não é o que armazenamos.

É o que usamos.

Ideias não têm valor porque estão salvas.

Têm valor porque saem da pasta e entram na vida.

E talvez seja hora de aceitar que eu não preciso ser a guardiã oficial de todos os PDFs, moldes, atividades e inspirações da internet.

Posso agradecer pelos arquivos que me serviram, apagar os que nunca servirão e confiar que, se um dia eu realmente precisar de algo, o mundo continuará produzindo novas ideias.

Porque uma nuvem cheia não significa uma vida mais rica.

Às vezes, significa apenas uma gaveta digital que ninguém teve coragem de esvaziar.