04 outubro 2026

Não sou menos autista porque sobrevivi

Estou revoltada.

E talvez eu precise começar assim mesmo, sem suavizar, porque estou cansada de explicar.

Sou autista nível 2 de suporte.

E escuto, repetidamente, que não sou autista — ou que certamente não sou nível 2 — porque eu falo.

Porque me casei.

Porque tenho filhos.

Porque me formei.

Porque falo em público.

Porque vou a festas.

Porque vou a shows.

Porque ando sozinha em algumas situações.

Porque tenho projetos.

Porque prego na igreja.

Porque faço coisas que, na cabeça de algumas pessoas, um autista nível 2 jamais poderia fazer.

E eu queria entender uma coisa:

Se eu tivesse morrido em 2012, aos 20 anos, essas pessoas diriam que eu precisava de suporte?

Porque eu quase morri.

Eu não construí o casamento que tenho hoje. Não construí a família que tenho hoje. Não tive meus filhos. Não terminei minha formação. Não vivi os projetos que vivo hoje.

Eu não teria feito nada disso.

Na minha fé, eu sei exatamente por que estou aqui: Jesus me salvou.

E não digo isso como uma frase bonita.

Digo porque, para mim, é a realidade.

Se eu tivesse morrido naquela época, talvez hoje as pessoas olhassem para a minha história e dissessem:

“Ela precisava de ajuda.”

Mas eu sobrevivi.

E parece que, porque sobrevivi, agora preciso provar que ainda precisava.

Essa lógica não faz sentido.

Eu preciso muito de suporte.

Não consigo trabalhar.

Não suporto andar sozinha em determinadas situações.

Há dias em que preciso de pausas para conseguir continuar funcionando.

Quando entro em uma crise, às vezes não consigo sequer tomar banho sozinha.

Já tive crises em que perdi completamente o controle do meu corpo e me machuquei sem conseguir simplesmente “escolher parar”.

Durante a enchente, eu desliguei completamente. E isso aconteceu enquanto eu tinha quatro filhos para cuidar.

Minha socialização não é uma constante.

Há dias em que consigo conversar, falar em público, ensinar, pregar, liderar projetos.

E há outros em que abrir a boca para responder alguém parece uma tarefa gigantesca.

Eu também lido com depressão e ansiedade. Minha fé é uma parte fundamental da maneira como continuo de pé. Sem ela, eu sei que minha história poderia ter sido muito diferente.

Também enfrentei transtornos alimentares que quase me mataram.

Mas as pessoas não veem nada disso quando me encontram falando em uma igreja.

Elas veem a mulher que prega.

Veem a professora.

Veem a mãe.

Veem a mulher que teve coragem de criar projetos.

Veem alguém conversando, sorrindo, saindo, participando.

E concluem:

“Ela não pode ser nível 2.”

Mas vocês estão vendo o resultado. Não estão vendo o custo.

E essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de explicar sobre deficiência.

Uma pessoa pode fazer alguma coisa e ainda assim precisar de suporte.

Pode aprender a fazer algo e continuar precisando de ajuda.

Pode ter autonomia em determinada área e precisar de muito suporte em outra.

Pode ter um dia excelente e, no dia seguinte, mal conseguir funcionar.

Pode falar fluentemente e não conseguir se comunicar em determinadas situações.

Pode ter uma profissão — ou não ter condições de trabalhar.

Pode casar.

Pode ter filhos.

Pode liderar.

Pode estudar.

Pode subir num palco.

E ainda ser autista.

Falar não me faz menos autista.

Ter filhos não me faz menos autista.

Ser casada não me faz menos autista.

Ter me formado não me faz menos autista.

Ter projetos não me faz menos autista.

Conseguir fazer alguma coisa não significa que eu consiga fazer todas as coisas.

E, principalmente:

ser funcional em alguns momentos não significa não precisar de suporte.

Nesta semana, perdemos uma jovem autista.

Ela tinha uma filha.

Ela falava.

Fazia vídeos para a internet.

Fazia festas.

Tinha uma vida que, para algumas pessoas, aparentemente “não combinaria” com a imagem que elas construíram de um autista nível 2.

E mesmo assim ela era.

Ela existia.

Ela precisava de suporte.

E ela morreu.

Isso me atravessou de uma maneira muito difícil de explicar.

Porque novamente aparece aquela pergunta:

Quantas vezes uma pessoa precisa chegar ao limite para que finalmente acreditem que ela precisava de ajuda?

Por que algumas pessoas só reconhecem a necessidade de suporte quando o sofrimento fica visível demais?

Por que é tão difícil acreditar em alguém antes da tragédia?

Por que precisamos transformar sofrimento em prova?

E talvez o que mais me revolte seja perceber que muitas dessas falas não vêm de pessoas que nunca tiveram contato com o autismo.

Às vezes vêm de pais e mães de autistas.

Pais de crianças que precisam de suporte muito intenso.

E eu entendo que cada família conhece profundamente a própria realidade.

Mas a realidade do seu filho não é a régua pela qual você mede todos os outros autistas.

Um autista que não fala não é menos autista do que eu.

E eu não sou menos autista porque falo.

Uma pessoa que precisa de suporte 24 horas não invalida quem precisa de suporte em outras circunstâncias.

E quem consegue fazer mais coisas não invalida quem consegue fazer menos.

Autismo não é uma competição de sofrimento.

Não precisamos decidir quem é “autista o suficiente”.

Não precisamos escolher entre acreditar na criança que não fala e acreditar no adulto que fala.

Não precisamos transformar diferentes manifestações do mesmo transtorno em uma guerra.

E isso me leva à minha filha.

Ela é uma criança autista nível 2 de suporte.

E recentemente ouvi que ela não estava em crise.

Que ela “só precisava apanhar”.

O argumento?

Ela não fazia aquilo na escola.

Como se uma criança tivesse obrigação de apresentar exatamente o mesmo comportamento em todos os ambientes.

Como se masking não existisse.

Como se contexto, segurança, demandas, estímulos e exaustão não importassem.

Como se uma criança não pudesse passar o dia inteiro segurando tudo e desmoronar justamente onde se sente segura.

E, sinceramente?

Isso precisa parar.

Não é porque uma criança consegue se comportar na escola que ela não está sofrendo em casa.

Não é porque um adulto consegue falar numa igreja que ele não passou o dia inteiro lutando para conseguir chegar ali.

Não é porque alguém sorriu numa festa que aquela pessoa não teve uma crise antes ou depois.

Não é porque eu consegui escrever este texto que eu consigo trabalhar.

Não é porque eu consigo cuidar dos meus filhos que nunca preciso ser cuidada.

Não é porque eu sobrevivi que eu nunca precisei de ajuda.

Eu sobrevivi.

Essa é a diferença.

E sobreviver não apaga aquilo que quase me matou.

Eu não quero que a minha história seja usada como prova de que “autistas podem fazer tudo”.

Eu quero que ela seja usada para mostrar que autistas são pessoas inteiras, complexas e diferentes entre si.

Não espere a tragédia para entender que alguém precise de ajuda.

E lembre-se: dançar em uma festa barulhenta e cheia de estímulos não significa que não custe uma semana de cansaço mental depois...

Apenas acredite: autismo não é o que você vê. Autismo é real e trás prejuízo. Em qualquer nível. De qualquer jeito.

29 junho 2026

A entrega para adoção (uma alternativa ao ao aborto)

Há diversos motivos para não desejar uma gravidez. O medo. A falta de recursos. A idade precoce. O estupro. Uma deficiência inesperada. Mas nenhum motivo justifica o assassinato de um bebê. 

Em momentos de medo, insegurança, falta de apoio ou dificuldades financeiras, muitas mulheres podem sentir que não há saída. Mas é importante lembrar que existe uma alternativa legal, segura e protegida pela legislação brasileira: a entrega voluntária do bebê para adoção.

A Lei nº 13.509/2017, que alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), garante à gestante o direito de entregar o filho para adoção de forma sigilosa, acompanhada pela Justiça e por equipes especializadas. Esse procedimento não é crime, não gera punição à mãe e busca proteger tanto a mulher quanto a criança.

Muitas vezes, o aborto é apresentado como a única solução. No entanto, além de envolver a interrupção de uma vida que está em crescimento, ele pode deixar marcas emocionais profundas. A entrega para adoção oferece outro caminho: preservar a vida da criança e permitir que ela seja acolhida por uma família preparada para recebê-la.

Ao procurar uma Vara da Infância e Juventude, um Conselho Tutelar, uma Unidade Básica de Saúde ou um hospital, a gestante pode receber orientação, apoio psicológico e acompanhamento durante todo o processo. A identidade da mãe é preservada, e o bebê é encaminhado de forma legal para o sistema de adoção, evitando situações de abandono ou adoções irregulares.

Escolher a vida nem sempre é a decisão mais fácil, mas pode ser um ato profundo de amor e responsabilidade. Quando uma mãe percebe que não tem condições de criar o filho naquele momento, a entrega legal para adoção pode representar a oportunidade de oferecer à criança um futuro seguro, cercado de cuidado e afeto.

Toda vida tem valor. E toda mulher merece apoio, acolhimento e informação para fazer uma escolha consciente e protegida pela lei.

O aborto pode parecer a solução fácil. As vezes evita uma gestação difícil, julgamentos, problemas com a família e até com o genitor do feto. Mas não evita a dor de ter assassinado alguém que tinha seu sangue. Não evita a culpa.  remorso. O eterno desespero por uma escolha que não dá para voltar atrás 

Escolha a vida. Mesmo que não queira escolher a maternidade. 

Procure a Vara da Infância e da Juventude. O Conselho Tutelar. Ou uma Unidade de Saúde. Não tem crime. Tem lei. Tem escolha. Tem vida. Tem oportunidade de um bebê ser acolhido por uma família que quer muito esse bebê que você não deseja.

28 junho 2026

Desejos reprimidos na adolescência: um ataque de cada vez

Na adolescência, a gente costuma ouvir muitos "não".

Não pode pintar o cabelo. Não pode fazer piercing. Não pode usar essa roupa. Não pode cortar o cabelo desse jeito. Não pode ouvir determinada música. Não pode pensar diferente.

Alguns desses "nãos" fazem sentido. Pais existem para proteger, orientar e impor limites. Mas outros acabam proibindo justamente aquilo que faz parte de uma fase muito importante da vida: a construção da identidade.

A adolescência é o período em que a pessoa começa a responder uma das perguntas mais difíceis da existência: quem sou eu além dos meus pais?

Os valores ensinados em casa continuam sendo uma base importante, mas agora eles passam a ser confrontados, testados e assimilados. Não por rebeldia, necessariamente, mas porque ninguém constrói uma identidade apenas repetindo tudo o que recebeu. É preciso experimentar, questionar e escolher.

É por isso que mudanças no cabelo, nas roupas, nos gostos musicais, nas opiniões e até na decoração do quarto costumam ser tão marcantes nessa fase. Muitas dessas mudanças não são o destino final. São um caminho para descobrir quem se é.

E é curioso como certos desejos não desaparecem.

Eles ficam guardados em algum lugar, esperando a primeira oportunidade.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Na pandemia, já adulta, resolvi fazer tudo aquilo que nunca pude quando era adolescente. Pintei o cabelo de várias cores. Descolori. Cortei de jeitos diferentes. Experimentei estilos que antes eram proibidos.

Hoje percebo que nem era porque eu sonhava em ter um cabelo colorido pelo resto da vida.

Era porque eu precisava descobrir se eu realmente gostava daquilo ou se só queria viver uma experiência que me foi negada.

No fim das contas, algumas coisas ficaram. Outras perderam completamente a graça depois que deixaram de ser proibidas.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando uma experiência faz parte da identidade da pessoa, ela tende a permanecer. A proibição pode atrasar sua expressão, pode fazê-la esperar dez, vinte ou trinta anos, mas dificilmente a elimina.

Por outro lado, quando aquilo era apenas uma fase de experimentação, costuma ir embora naturalmente. O adolescente pinta o cabelo, coloca um piercing, muda o estilo, enjoa e segue a vida. E está tudo bem. Era exatamente isso que ele precisava fazer para descobrir que aquele não era o seu caminho.

A experiência responde perguntas que a proibição nunca consegue responder.

Por isso, muitos adultos acabam vivendo uma "segunda adolescência". Não porque sejam imaturos, mas porque finalmente têm liberdade para experimentar tudo aquilo que lhes foi negado. Só então conseguem separar o que era curiosidade do que realmente faz parte de quem são.

No meu caso, algumas experiências ficaram apenas como uma boa lembrança. Outras me ajudaram a conhecer melhor quem eu era.

Talvez crescer também seja isso.

Perceber que construir uma identidade não significa rejeitar tudo o que os pais ensinaram, mas também não significa viver apenas como uma extensão deles. Significa receber um legado, experimentá-lo à luz da própria vida e, então, fazer escolhas conscientes.

Porque identidade não nasce da imposição.

Ela nasce do encontro entre aquilo que recebemos e aquilo que, livremente, escolhemos manter.

Cabelo cresce. Piercing pode ser retirado. A roupa volta para o armário. O estilo muda. Na adolescência, aliás, muda o tempo todo. É justamente experimentando que muitos adolescentes descobrem que aquilo era apenas uma fase. E tudo bem.

Às vezes, o medo dos pais é que uma escolha temporária se torne permanente. Mas, curiosamente, quando ela é apenas uma fase, o próprio adolescente a abandona. Não porque foi proibido, mas porque descobriu, por experiência, que aquilo não fazia parte de quem ele era.

A identidade não se forma na ausência de limites, mas também não amadurece na ausência de liberdade.