Quando penso na pandemia, não lembro primeiro das máscaras, do álcool em gel ou dos gráficos que ocupavam os noticiários. Curiosamente, lembro das lives.
Porque, em algum momento, o mundo inteiro resolveu ligar uma câmera e conversar.
Durante aqueles meses estranhos, todo mundo parecia ter inventado alguma forma nova de ocupar o tempo. Como se não existissem livros suficientes para ler, séries suficientes para assistir ou jogos suficientes para jogar. Ainda assim, havia uma necessidade quase desesperada de criar algo diferente.
E então vieram as lives.
Todo famoso que possuía seguidores resolveu fazer a sua. Alguns cantavam. Outros conversavam. Alguns bebiam além da conta e passavam horas falando coisas que provavelmente teriam sido melhores se tivessem permanecido em seus pensamentos. Mas também havia apresentações lindas, músicas que faziam chorar, campanhas beneficentes, histórias emocionantes e momentos genuínos de humanidade.
Até as crianças ganharam suas próprias lives. Cantores infantis, personagens, desenhos animados. Alguns programas chegaram ao ponto de fingir que os personagens também estavam vivendo a pandemia junto conosco. Hoje parece engraçado lembrar disso, mas, na época, havia algo reconfortante naquela companhia improvisada.
Eu poderia ter me distraído de muitas outras formas. Poderia ter lido mais livros, assistido séries ou jogado videogame.
Mas escolhi fazer exatamente o contrário do que qualquer pessoa sensata faria.
Assisti filmes de pandemia.
Todos.
Um por um.
Passei meses consumindo histórias sobre vírus mortais, colapsos sociais e cenários apocalípticos enquanto tentava sobreviver a uma pandemia real. O resultado foi previsível: ansiedade, medo e as primeiras crises que eu ainda não sabia nomear.
Foi então que comecei a buscar a Deus com ainda mais intensidade. Orei muito. Participei dos cultos online como talvez nunca tivesse participado antes.
E, quando finalmente abandonei os filmes de pandemia e passei a acompanhar as lives, algo mudou.
Parar de contar mortos e imaginar catástrofes fez bem para minha alma.
As lives me devolveram um pouco da leveza que eu havia perdido.
Algumas me fizeram rir. Outras me fizeram chorar. Algumas me fizeram refletir profundamente. Todas, de alguma forma, me lembraram que a vida continuava acontecendo.
Mas houve uma em especial que marcou aquele período.
Uma série de encontros conduzidos por uma psicóloga cristã — expressão que hoje em dia parece exigir explicações, como se fé e psicologia fossem inimigas naturais. Não eram. Pelo menos não ali.
Foram meses de descobertas.
Temperamentos. Relacionamentos. Casamento. Família. Personalidade.
Pela primeira vez, talvez, comecei a me enxergar com mais clareza. Aprendi a compreender melhor quem eu era, por que reagia da forma que reagia e como me relacionava com as pessoas que amava.
Olhando para trás, acho que nunca me conheci tanto quanto naqueles meses estranhos em que o mundo inteiro estava fechado dentro de casa.
Depois veio uma gravidez.
E aí tudo mudou de novo.
Mas essa já é outra história.


