29 junho 2026

A entrega para adoção (uma alternativa ao ao aborto)

Há diversos motivos para não desejar uma gravidez. O medo. A falta de recursos. A idade precoce. O estupro. Uma deficiência inesperada. Mas nenhum motivo justifica o assassinato de um bebê. 

Em momentos de medo, insegurança, falta de apoio ou dificuldades financeiras, muitas mulheres podem sentir que não há saída. Mas é importante lembrar que existe uma alternativa legal, segura e protegida pela legislação brasileira: a entrega voluntária do bebê para adoção.

A Lei nº 13.509/2017, que alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), garante à gestante o direito de entregar o filho para adoção de forma sigilosa, acompanhada pela Justiça e por equipes especializadas. Esse procedimento não é crime, não gera punição à mãe e busca proteger tanto a mulher quanto a criança.

Muitas vezes, o aborto é apresentado como a única solução. No entanto, além de envolver a interrupção de uma vida que está em crescimento, ele pode deixar marcas emocionais profundas. A entrega para adoção oferece outro caminho: preservar a vida da criança e permitir que ela seja acolhida por uma família preparada para recebê-la.

Ao procurar uma Vara da Infância e Juventude, um Conselho Tutelar, uma Unidade Básica de Saúde ou um hospital, a gestante pode receber orientação, apoio psicológico e acompanhamento durante todo o processo. A identidade da mãe é preservada, e o bebê é encaminhado de forma legal para o sistema de adoção, evitando situações de abandono ou adoções irregulares.

Escolher a vida nem sempre é a decisão mais fácil, mas pode ser um ato profundo de amor e responsabilidade. Quando uma mãe percebe que não tem condições de criar o filho naquele momento, a entrega legal para adoção pode representar a oportunidade de oferecer à criança um futuro seguro, cercado de cuidado e afeto.

Toda vida tem valor. E toda mulher merece apoio, acolhimento e informação para fazer uma escolha consciente e protegida pela lei.

O aborto pode parecer a solução fácil. As vezes evita uma gestação difícil, julgamentos, problemas com a família e até com o genitor do feto. Mas não evita a dor de ter assassinado alguém que tinha seu sangue. Não evita a culpa.  remorso. O eterno desespero por uma escolha que não dá para voltar atrás 

Escolha a vida. Mesmo que não queira escolher a maternidade. 

Procure a Vara da Infância e da Juventude. O Conselho Tutelar. Ou uma Unidade de Saúde. Não tem crime. Tem lei. Tem escolha. Tem vida. Tem oportunidade de um bebê ser acolhido por uma família que quer muito esse bebê que você não deseja.

28 junho 2026

Desejos reprimidos na adolescência: um ataque de cada vez

Na adolescência, a gente costuma ouvir muitos "não".

Não pode pintar o cabelo. Não pode fazer piercing. Não pode usar essa roupa. Não pode cortar o cabelo desse jeito. Não pode ouvir determinada música. Não pode pensar diferente.

Alguns desses "nãos" fazem sentido. Pais existem para proteger, orientar e impor limites. Mas outros acabam proibindo justamente aquilo que faz parte de uma fase muito importante da vida: a construção da identidade.

A adolescência é o período em que a pessoa começa a responder uma das perguntas mais difíceis da existência: quem sou eu além dos meus pais?

Os valores ensinados em casa continuam sendo uma base importante, mas agora eles passam a ser confrontados, testados e assimilados. Não por rebeldia, necessariamente, mas porque ninguém constrói uma identidade apenas repetindo tudo o que recebeu. É preciso experimentar, questionar e escolher.

É por isso que mudanças no cabelo, nas roupas, nos gostos musicais, nas opiniões e até na decoração do quarto costumam ser tão marcantes nessa fase. Muitas dessas mudanças não são o destino final. São um caminho para descobrir quem se é.

E é curioso como certos desejos não desaparecem.

Eles ficam guardados em algum lugar, esperando a primeira oportunidade.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Na pandemia, já adulta, resolvi fazer tudo aquilo que nunca pude quando era adolescente. Pintei o cabelo de várias cores. Descolori. Cortei de jeitos diferentes. Experimentei estilos que antes eram proibidos.

Hoje percebo que nem era porque eu sonhava em ter um cabelo colorido pelo resto da vida.

Era porque eu precisava descobrir se eu realmente gostava daquilo ou se só queria viver uma experiência que me foi negada.

No fim das contas, algumas coisas ficaram. Outras perderam completamente a graça depois que deixaram de ser proibidas.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando uma experiência faz parte da identidade da pessoa, ela tende a permanecer. A proibição pode atrasar sua expressão, pode fazê-la esperar dez, vinte ou trinta anos, mas dificilmente a elimina.

Por outro lado, quando aquilo era apenas uma fase de experimentação, costuma ir embora naturalmente. O adolescente pinta o cabelo, coloca um piercing, muda o estilo, enjoa e segue a vida. E está tudo bem. Era exatamente isso que ele precisava fazer para descobrir que aquele não era o seu caminho.

A experiência responde perguntas que a proibição nunca consegue responder.

Por isso, muitos adultos acabam vivendo uma "segunda adolescência". Não porque sejam imaturos, mas porque finalmente têm liberdade para experimentar tudo aquilo que lhes foi negado. Só então conseguem separar o que era curiosidade do que realmente faz parte de quem são.

No meu caso, algumas experiências ficaram apenas como uma boa lembrança. Outras me ajudaram a conhecer melhor quem eu era.

Talvez crescer também seja isso.

Perceber que construir uma identidade não significa rejeitar tudo o que os pais ensinaram, mas também não significa viver apenas como uma extensão deles. Significa receber um legado, experimentá-lo à luz da própria vida e, então, fazer escolhas conscientes.

Porque identidade não nasce da imposição.

Ela nasce do encontro entre aquilo que recebemos e aquilo que, livremente, escolhemos manter.

Cabelo cresce. Piercing pode ser retirado. A roupa volta para o armário. O estilo muda. Na adolescência, aliás, muda o tempo todo. É justamente experimentando que muitos adolescentes descobrem que aquilo era apenas uma fase. E tudo bem.

Às vezes, o medo dos pais é que uma escolha temporária se torne permanente. Mas, curiosamente, quando ela é apenas uma fase, o próprio adolescente a abandona. Não porque foi proibido, mas porque descobriu, por experiência, que aquilo não fazia parte de quem ele era.

A identidade não se forma na ausência de limites, mas também não amadurece na ausência de liberdade.

27 junho 2026

Transsexualidade e identidade de gênero: uma análise psicológica baseada em depoimentos reais

Nos últimos anos, cresceram os relatos públicos de pessoas que passaram pela transição de gênero e, posteriormente, decidiram destransicionar. Esses depoimentos oferecem uma oportunidade importante para compreender a complexidade da identidade humana e os desafios enfrentados por quem busca respostas para um sofrimento profundo.

A ideia que alguém se identifica com um gênero diferente do que nasceu é algo perigoso e não científico. Mas não estou aqui para falar sobre isso, e sim sobre as consequências dessa situação que confunde e quebra a identidade de crianças e adolescentes, agredindo e mutilando seus corpos antes que tenham chegado a puberdade.

Um ponto recorrente nesses relatos é a presença de sofrimento emocional anterior à identificação como trans. Diversas pessoas descrevem históricos de ansiedade, depressão, traumas, abuso sexual, bullying, rejeição social, transtornos alimentares, autismo, dificuldades com a própria imagem corporal ou conflitos relacionados aos papéis sociais masculinos e femininos.

Em muitos depoimentos, a transição foi percebida inicialmente como uma resposta capaz de aliviar esse sofrimento. Algumas pessoas relatam melhora temporária, frequentemente associada ao sentimento de pertencimento, aceitação por novos grupos sociais ou esperança de finalmente encontrar paz interior.

Contudo, para parte delas, o sofrimento persistiu mesmo após intervenções hormonais e cirúrgicas. Foi nesse momento que algumas começaram a questionar se a origem da dor realmente estava no sexo biológico ou se havia outras questões psicológicas que permaneciam sem tratamento.

Outro tema frequente é a velocidade com que algumas pessoas sentiram que foram encaminhadas para tratamentos médicos. Em diversos relatos, há a percepção de que faltou uma investigação mais profunda sobre outras possíveis causas do desconforto com o próprio corpo. Algumas afirmam que gostariam de ter recebido acompanhamento psicológico prolongado antes de iniciar mudanças irreversíveis.

Os depoimentos também revelam o impacto do arrependimento. Pessoas que passaram por cirurgias irreversíveis frequentemente descrevem luto, culpa, tristeza e dificuldades para reconstruir sua identidade. Muitas relatam sentir que perderam características físicas que não podem ser recuperadas completamente.

Do ponto de vista psicológico, esses relatos reforçam que a identidade humana é multifatorial. Aspectos biológicos, familiares, culturais, sociais e emocionais interagem de maneiras complexas, tornando inadequadas explicações simplistas.

A Psicologia contemporânea reconhece a importância de acolher o sofrimento sem pressupor automaticamente qual será a melhor solução para cada indivíduo. Isso significa oferecer espaço para exploração da identidade, tratamento de possíveis transtornos associados e tomada de decisão cuidadosamente refletida.

Os depoimentos de pessoas destransicionadas também chamam atenção para a necessidade de pesquisas de longo prazo. Como a transição de gênero envolve intervenções que podem produzir efeitos permanentes, torna-se fundamental compreender tanto os benefícios quanto os riscos, incluindo os casos de arrependimento.

Ouvir essas pessoas não significa negar a existência ou a dignidade das pessoas trans. Da mesma forma, reconhecer que as pessoas trans merecem respeito a sua identidade não significa ignorar aqueles que se arrependeram. A ciência avança justamente quando considera todas as evidências, inclusive aquelas que desafiam as narrativas predominantes.

Conclui-se que a identidade de gênero permanece um dos temas mais complexos da Psicologia contemporânea. Os relatos de destransição demonstram que o sofrimento humano raramente possui uma única causa ou uma única solução. Por isso, decisões envolvendo mudanças corporais permanentes devem ser precedidas por avaliação psicológica cuidadosa, acompanhamento individualizado e informação completa sobre benefícios, limitações e possíveis consequências de longo prazo.