03 junho 2026

A mágica da arrumação (não é sobre resenha)

A Mágica da Arrumação não é sobre um livro ou uma resenha. É sobre um estilo de vida.

Claro que não precisa ser seguida de forma rígida. Mas o simples fato de entender que guardar coisas sem utilidade — ou coisas que você sequer ama, como a autora sugere — já muda muita coisa.

Muitas vezes guardamos objetos simplesmente pelo ato de guardar. Achamos que algum dia eles serão úteis. Só que, na maioria das vezes, quando esse dia finalmente chega, estamos perfeitamente dispostos a comprar aquilo novamente em algum lugar.

Com roupas acontece muito. "Talvez um dia eu use." Mas não usa. E os armários vão se enchendo.

Desconfio que parte do problema da acumulação tenha relação com um excesso ou uma falta de algo mais precioso dentro de nós. Mas também acho que, no Brasil, existem outros fatores.

O primeiro é o descontentamento. Comprar traz uma sensação momentânea de prazer. Acabamos adquirindo coisas que não precisamos simplesmente pela satisfação da compra.

O segundo é a memória de tempos difíceis. A crise econômica e a inflação fizeram com que muitas pessoas crescessem ouvindo que não se joga nada fora. Afinal, e se precisar depois? E se não houver dinheiro para comprar de novo? Para quem viveu isso, a ideia de descartar algo que ainda funciona parece quase um desperdício.

Recentemente, minha mãe e minhas tias foram organizar a casa de uma tia que faleceu. Ficaram impressionadas com a quantidade de coisas acumuladas.

O engraçado é que elas próprias também são acumuladoras.

Todas têm certa tendência a guardar objetos sem uso, sem função real, porque "talvez algum dia" precisem deles.

Eu sempre fui bastante desapegada. Mas, depois da enchente, aconteceu algo curioso. Talvez por causa do trauma, comecei a acumular coisas como se tudo pudesse desaparecer de novo.

Graças a Deus — e ao livro também — percebi a tempo que aquele mecanismo de proteção poderia transformar minha casa em um caos.

Me desfiz da maior parte das minhas roupas. E, sinceramente, ainda acho que tenho mais do que preciso.

Não sou a pessoa mais organizada do mundo. Quem dera. Mas percebi uma coisa: quanto mais coisas acumulamos, mais bagunça criamos. Inclusive com as crianças.

Aliás, as crianças também se tornaram fruto dessa cultura do acúmulo.

Brinquedos de todos os tipos, com todas as funções imagináveis, se transformam em caixas e mais caixas dentro de um quarto.

Agora existe até a moda de guardar brinquedos em locais altos e fazer rodízio entre eles para que a criança tenha brinquedos "novos" de tempos em tempos. Como se ela não fosse continuar tendo todos eles mesmo assim.

É um acúmulo enorme de itens sem necessidade real.

Eu acredito que criança precisa de brinquedos. Claro que precisa.

Mas também acho lindo observar uma criança sem brinquedos por perto. A criatividade reina.

Na minha opinião, um Lego, alguns brinquedos de faz de conta — como uma cozinha ou um kit de ferramentas —, massinha e tinta já oferecem possibilidades quase infinitas.

E ainda existem os brinquedos rotativos: alguns favoritos que são usados por um tempo e depois cedem espaço para outros.

Com os adultos, é ainda mais simples.

Nossos brinquedos costumam estar nas nossas mãos o tempo todo.

Precisamos de pouco.

Alguns utensílios de cozinha, alguns cosméticos, alguns livros.

Ah, os livros.

Eis algo de que desapeguei.

Ainda amo bibliotecas. Ainda amo entrar em uma livraria e passear entre as estantes.

Mas já não sinto necessidade de ter uma biblioteca em casa.

A enchente levou embora uma coleção construída durante anos. E, junto dela, foi embora também meu desejo de colecionar livros.

Hoje mantenho apenas os que comprei para as crianças. E, às vezes, confesso que até me arrependo um pouco.

No fim das contas, A Mágica da Arrumação não é sobre arrumar.

É sobre guardar apenas o que importa.

É sobre dar valor ao que você possui.

Eu aprendi isso da pior maneira possível.

Mas aprendi.

Hoje guardo aquilo que amo.

E amo aquilo que guardo.

E talvez essa seja a maior lição.

Porque, no final, o que realmente importa são as pessoas que estão aqui.

As coisas, mais cedo ou mais tarde, deixam de ser nossas.

As pessoas também.

Por isso aproveitamos enquanto estão presentes.

E as coisas?

Usamos aquilo de que precisamos.

E doamos aquilo que sobra.

01 junho 2026

Violência aumenta nas crises?

Em períodos de crise econômica, desastres naturais, guerras, deslocamentos forçados, epidemias ou situações de grande estresse social, costuma haver aumento dos registros e dos relatos de violência doméstica. Isso é observado por pesquisadores, órgãos públicos e organizações que trabalham com proteção de mulheres e crianças.

Jair Bolsonaro falou sobre isso na pandemia, quando era presidente no Brasil. Foi criticado pela sua fala polêmica... Que não estava errada, mas... Isso se justifica?

O estresse, a insegurança financeira, o luto, a perda de bens, a sobrecarga emocional e a sensação de falta de controle podem aumentar conflitos dentro de casa. Isso é um fato.

Mas existe uma diferença fundamental entre explicação e justificativa.

Entender os fatores que contribuem para o aumento da violência não significa aceitá-la. O estresse pode explicar por que algumas pessoas se tornam mais irritadiças, impacientes ou agressivas. Não explica nem justifica a decisão de agredir.

Milhões de pessoas enfrentam crises profundas sem levantar a mão contra seus companheiros, seus filhos ou qualquer outra pessoa.

A violência doméstica não deixa de ser violência porque o agressor estava cansado, desempregado, endividado, frustrado ou sofrendo. O sofrimento pode ser real. A agressão também é. E uma não anula a outra.

Mulheres e crianças não são válvulas de escape para a dor alheia. Não são objetos destinados a absorver a raiva, a frustração ou o desespero de ninguém. São pessoas, portadoras de dignidade, direitos e proteção legal.

Por isso, sociedades sérias reconhecem duas verdades ao mesmo tempo: crises podem aumentar os fatores de risco para a violência doméstica, e nenhuma crise transforma a violência em algo aceitável.

A primeira verdade ajuda a prevenir.

A segunda protege as vítimas.

Quando se confundem essas duas coisas, corre-se o risco de transformar uma explicação em desculpa. E a violência não precisa de desculpas. Precisa de responsabilização, prevenção, apoio às vítimas e acesso à justiça.

Toda pessoa pode sofrer. Nem toda pessoa escolhe ferir os outros por causa desse sofrimento.

Essa distinção é essencial.

Porque dificuldades econômicas passam. Desastres acabam. Crises terminam.

Mas as marcas deixadas pela violência podem permanecer por muitos anos na vida de mulheres e crianças que deveriam ter encontrado, dentro de casa, o lugar mais seguro do mundo. 🌿

Fim de relacionamento

Há despedidas que chegam como tempestades. Outras chegam em silêncio, quase sem que a gente perceba. Um dia você olha para trás e entende que algo terminou.

Pode ser um casamento, uma amizade de anos, uma relação familiar que mudou para sempre. Pode ser uma rotina, uma fase da vida, uma versão de quem você era.

A verdade é que crescemos ouvindo histórias sobre "para sempre". E, por isso, quando algo acaba, sentimos como se houvesse um erro. Como se tivéssemos falhado. Como se o fim fosse sempre uma tragédia.

Mas nem todo fim nasce de uma briga, de uma traição ou de um desastre.

Às vezes, simplesmente chegou a hora.

Pessoas mudam. Caminhos se separam. Sonhos tomam direções diferentes. Algumas relações cumprem exatamente o papel que precisavam cumprir e, depois disso, não encontram mais espaço para continuar existindo da mesma forma.

Isso não apaga o amor que existiu.

Não apaga as conversas que salvaram dias difíceis, os abraços, as risadas, os anos compartilhados ou as memórias construídas.

O valor de uma história não é medido apenas pela sua duração.

Existem amizades de poucos anos que marcam uma vida inteira. Existem casamentos que terminam, mas deixam filhos amados e aprendizados profundos. Existem familiares que se afastam, mas que fizeram parte de quem nos tornamos.

A dor do encerramento é real porque o vínculo era real.

E talvez seja justamente por isso que precisamos aprender a olhar para alguns fins com menos revolta e mais gratidão.

Nem tudo que termina foi um fracasso.

Algumas histórias terminam porque cumpriram seu propósito.

Algumas portas se fecham porque já atravessamos tudo o que havia atrás delas.

Alguns ciclos acabam porque continuar seria impedir o nascimento de algo novo.

A tristeza continua existindo. A saudade também. Afinal, somos feitos de afetos.

Mas, com o tempo, entendemos que a vida inteira é uma sucessão de encontros e despedidas. E que amadurecer não é aprender a não sofrer quando algo acaba.

É aprender que o fim também faz parte da beleza das coisas.

Porque justamente por não serem eternos, certos momentos se tornam preciosos.

E quando chega a hora de deixar partir, talvez o melhor que possamos fazer seja guardar o que foi bom, honrar o que existiu e seguir em frente.

Nem com amargura.

Nem fingindo que não doeu.

Mas com a serenidade de quem entende que algumas pessoas vieram para caminhar conosco por toda a estrada, e outras apenas por um trecho dela.

E ambos os presentes têm seu valor. 🌷