07 maio 2026

A criação explica Deus


Desde o menor átomo até as galáxias mais distantes, a criação parece sussurrar que existe uma inteligência maior sustentando tudo. Há ordem onde poderia haver caos. Há beleza escondida em detalhes microscópicos que olhos humanos sequer conseguem enxergar sem ajuda. O universo é imenso demais, complexo demais, preciso demais. E ainda assim, no meio dessa vastidão impossível de medir, existe espaço para o bater de um coração dentro do ventre de uma mãe.
Talvez seja isso que mais impressiona: um Deus grande o suficiente para criar estrelas e delicado o suficiente para desenhar cílios em um bebê ainda não nascido.
A ciência revela mecanismos, processos, fórmulas, estruturas. E quanto mais revela, mais aumenta o espanto. O DNA carregando informações invisíveis. Ossos se formando silenciosamente no útero. Órgãos surgindo em perfeita harmonia. Átomos presentes em todas as coisas, como assinaturas espalhadas pela criação inteira. O universo parece gritar ordem, intenção e beleza.
Mas ao mesmo tempo, o mundo carrega rachaduras.
A maldade, a doença, a morte, o peso do sofrimento, a dor do parto, o cansaço da maternidade, os espinhos da existência. A criação ainda é bela, mas não intacta. Existe algo quebrado nela. Como uma obra-prima manchada pelo tempo. E é justamente aí que a teologia do pecado encontra sentido: o mundo não foi criado para a dor, mas foi atingido por ela.
Ainda assim, mesmo ferida, a criação continua apontando para Deus.
E talvez uma das marcas mais profundas disso esteja na própria humanidade. Deus não apenas criou seres vivos; criou criaturas capazes de criar. Não como Ele, em poder absoluto, mas à Sua semelhança. Por isso existem histórias, músicas, pinturas, invenções, literatura, cinema, descobertas científicas. Existe arte porque fomos feitos por um Artista. Existe imaginação porque fomos tocados pela criatividade do Criador.
E existe algo ainda mais profundo: participar da continuidade da vida.
Gerar um filho é um dos mistérios mais impressionantes da existência humana. Um corpo formando outro corpo. Um coração batendo dentro de outro coração. Uma nova pessoa surgindo silenciosamente no escuro do ventre, carregando traços, memórias genéticas, pedaços invisíveis de gerações inteiras.
Filhos são mais do que presença física. Eles carregam algo de nós pelo mundo. Podem crescer, atravessar oceanos, morar em outro país, construir outra vida. Ainda assim, levam nosso DNA, nossos traços, parte da nossa história vivendo neles. E talvez seja por isso que o amor de mãe parece tão próximo da eternidade: porque há algo de nós caminhando adiante mesmo quando não podemos mais segurar suas mãos.
No fim, toda criação — dos átomos às estrelas, da arte às crianças — parece ecoar a mesma verdade silenciosa: fomos feitos por um Deus imenso, mas profundamente atento aos detalhes. Um Deus cuja grandeza aparece tanto na vastidão do universo quanto na delicadeza de uma vida começando dentro de um ventre.

06 maio 2026

Deus no ordinário

Eu conheci Deus no meio do caos.

Antes, eu só tinha ouvido falar dEle.
Falavam de um Deus bom, fiel, presente… mas, dentro de mim, só existia dor. E foi nessa dor que eu me agarrei às palavras de Jó — não pela fé, mas pelo desespero. Eu não buscava entendimento, eu buscava sobrevivência. Eu lia e via ali alguém que também queria que tudo acabasse. E aquilo, de um jeito estranho, me acolhia.

Eu gritava por socorro.
Para as pessoas ao meu redor, para a vida… e, mesmo sem perceber direito, para Deus também.
Mas enquanto muitos não conseguiam me ver — ocupados demais com suas próprias dores — Ele estava lá. Sempre esteve.

E eu… eu não via.

O tempo passou. A dor mudou de forma. A vida me atravessou de outros jeitos.
E então, um dia, algo dentro de mim também mudou.

Hoje, quando leio Jó, eu não vejo mais só o sofrimento.
Eu vejo alguém que perdeu tudo… e ainda assim permaneceu.
Alguém que chorou, questionou, sentiu o peso do mundo — mas não soltou Deus.

E, de alguma forma, eu entendi:
eu também fui sustentada.

Na enchente, na perda, no cansaço, na rotina pesada, no silêncio que parecia vazio…
Ele estava ali.

Hoje eu O vejo em tudo.

No barulho da casa cheia,
na bagunça que nunca termina,
no prato simples que alimenta,
no trabalho que cansa, mas sustenta,
na escassez que, mesmo apertando, ainda carrega provisão.

Eu vejo Deus no extraordinário, sim.
Mas principalmente no ordinário.

Eu não preciso mais de sinais grandiosos para saber que Ele está aqui.
Eu reconheço Sua presença no pouco, no hoje, no suficiente.

Talvez digam que eu espiritualizo tudo.
Mas a verdade é que eu só não quero voltar a ser cega.

Porque um dia eu não vi…
e mesmo assim Ele ficou.

Hoje eu vejo.
E isso mudou tudo.

Antes, eu só tinha ouvido falar de Deus.
Agora… eu O conheço

09 abril 2026

Despedida (poesia)

Hoje eu sonhei com ela.

Não era um sonho comum.
Era silêncio. Era sagrado.
Era como se o tempo tivesse parado só para nós duas.

A capela estava vazia —
e, ao mesmo tempo, estranhamente cheia.
Eu sabia que todos estavam lá,
mas não nos viam.
Era como se aquele momento não pertencesse ao mundo,
mas só a nós.

O caixão estava aberto.
E então eu vi o que não fazia sentido —
até fazer.

Ela estava ali…
cuidando de si mesma.

Vestia o próprio corpo com delicadeza,
ajeitava os cabelos,
corrigia a maquiagem,
como quem cuida de alguém amado.

E cuidava com carinho.

Eu não entendi.
Meu coração estranhou aquela cena.
Mas então ela olhou para mim —
e sorriu.

E, como sempre,
resmungou.

— Que absurdo isso… não colocaram uma roupa decente.

Quase pude rir em meio às lágrimas.
Era ela.
Inteira.
Até no jeito de reclamar.

Ela ajeitou tudo.
Deixou como gostava.
Como era.
Como deveria ser.

E então eu olhei.

Não havia dor no rosto.
Não havia peso.
Nem marcas.

Só serenidade.

Como se dormisse.
Como se sorrisse baixinho.

E ali, naquele sonho, eu chorei.

E agora, acordada, eu choro também.

Mas é diferente.

Já não é a dor que rasga.
Não é o luto que pesa.

É a saudade que fica.
Mansa.
Viva.
Cheia de amor.

Hoje eu entendi —
sem palavras, sem explicação —
que o ciclo se fechou.

O luto já não mora mais aqui.
Ele passou por mim,
me atravessou,
e agora segue.

O que ficou…
foi o amor.

E uma esperança silenciosa,
quase como aquele sorriso sereno que vi:

de que, no fim,
ela encontrou paz.

E talvez —
só talvez —
tenha sido recebida
por Aquele que eu tanto espero.