09 junho 2026

Lives da pandemia

Quando penso na pandemia, não lembro primeiro das máscaras, do álcool em gel ou dos gráficos que ocupavam os noticiários. Curiosamente, lembro das lives.

Porque, em algum momento, o mundo inteiro resolveu ligar uma câmera e conversar.

Durante aqueles meses estranhos, todo mundo parecia ter inventado alguma forma nova de ocupar o tempo. Como se não existissem livros suficientes para ler, séries suficientes para assistir ou jogos suficientes para jogar. Ainda assim, havia uma necessidade quase desesperada de criar algo diferente.

E então vieram as lives.

Todo famoso que possuía seguidores resolveu fazer a sua. Alguns cantavam. Outros conversavam. Alguns bebiam além da conta e passavam horas falando coisas que provavelmente teriam sido melhores se tivessem permanecido em seus pensamentos. Mas também havia apresentações lindas, músicas que faziam chorar, campanhas beneficentes, histórias emocionantes e momentos genuínos de humanidade.

Até as crianças ganharam suas próprias lives. Cantores infantis, personagens, desenhos animados. Alguns programas chegaram ao ponto de fingir que os personagens também estavam vivendo a pandemia junto conosco. Hoje parece engraçado lembrar disso, mas, na época, havia algo reconfortante naquela companhia improvisada.

Eu poderia ter me distraído de muitas outras formas. Poderia ter lido mais livros, assistido séries ou jogado videogame.

Mas escolhi fazer exatamente o contrário do que qualquer pessoa sensata faria.

Assisti filmes de pandemia.

Todos.

Um por um.

Passei meses consumindo histórias sobre vírus mortais, colapsos sociais e cenários apocalípticos enquanto tentava sobreviver a uma pandemia real. O resultado foi previsível: ansiedade, medo e as primeiras crises que eu ainda não sabia nomear.

Foi então que comecei a buscar a Deus com ainda mais intensidade. Orei muito. Participei dos cultos online como talvez nunca tivesse participado antes.

E, quando finalmente abandonei os filmes de pandemia e passei a acompanhar as lives, algo mudou.

Parar de contar mortos e imaginar catástrofes fez bem para minha alma.

As lives me devolveram um pouco da leveza que eu havia perdido.

Algumas me fizeram rir. Outras me fizeram chorar. Algumas me fizeram refletir profundamente. Todas, de alguma forma, me lembraram que a vida continuava acontecendo.

Mas houve uma em especial que marcou aquele período.

Uma série de encontros conduzidos por uma psicóloga cristã — expressão que hoje em dia parece exigir explicações, como se fé e psicologia fossem inimigas naturais. Não eram. Pelo menos não ali.

Foram meses de descobertas.

Temperamentos. Relacionamentos. Casamento. Família. Personalidade.

Pela primeira vez, talvez, comecei a me enxergar com mais clareza. Aprendi a compreender melhor quem eu era, por que reagia da forma que reagia e como me relacionava com as pessoas que amava.

Olhando para trás, acho que nunca me conheci tanto quanto naqueles meses estranhos em que o mundo inteiro estava fechado dentro de casa.

Depois veio uma gravidez.

E aí tudo mudou de novo.

Mas essa já é outra história.

08 junho 2026

Fanfic: As aventuras de Emília no país das máquinas


Naquela tarde morna no Sítio do Picapau Amarelo, Dona Benta estava na varanda com seus óculos na ponta do nariz, enquanto Tia Nastácia descascava mandioca para o jantar.

O Visconde de Sabugosa caminhava de um lado para o outro, com as mãos para trás, em atitude de grande sábio.

— Hoje vou explicar uma das invenções mais curiosas dos tempos modernos! — anunciou ele.

— Outra? — suspirou Emília. — Desde que inventaram a eletricidade vocês, os sábios, nunca mais tiveram sossego.

Narizinho riu.

— O que é dessa vez, Visconde?

— Inteligência Artificial.

Pedrinho arregalou os olhos.

— Um robô?

— Nem sempre — respondeu o sabugo. — A Inteligência Artificial, ou IA, é um sistema criado pelos homens para realizar tarefas que normalmente exigiriam inteligência humana.

Emília cruzou os braços.

— Então fizeram uma imitação de gente?

— Em parte, sim.

— Coitados dos homens. Primeiro fizeram bonecas. Agora fazem inteligências. Daqui a pouco vão fabricar avós e economizar as verdadeiras.

Dona Benta sorriu.

— Continue, Visconde.

O sabugo ajeitou os óculos.

— Imaginem uma máquina que aprendeu observando milhões de exemplos. Ela pode reconhecer imagens, traduzir idiomas, responder perguntas, ajudar médicos, cientistas, professores e muitas outras pessoas.

— Igual um aluno muito estudioso? — perguntou Narizinho.

— Exatamente. Só que esse aluno consegue ler uma quantidade enorme de informações em pouco tempo.

— E ele entende tudo? — perguntou Tia Nastácia.

— Aí está uma questão importante — respondeu Visconde. — Nem sempre. Muitas vezes a IA identifica padrões sem compreender o significado profundo das coisas.

Emília deu um pulo.

— Ah! Então ela é como aquele papagaio da venda do Elias. Repetia tudo, mas nunca pagou uma conta.

Todos riram.

— Há certa semelhança — admitiu Visconde.

Pedrinho parecia fascinado.

— Mas ela pode ajudar cientistas?

— Muito. Pode analisar dados, ajudar a descobrir novos medicamentos, prever tempestades, auxiliar agricultores e até apoiar pessoas com deficiência em várias tarefas.

— Isso é ótimo! — disse Narizinho.

— Sim. Como toda ferramenta poderosa, ela possui grandes benefícios.

Emília ergueu o dedo.

— E os perigos? Toda história interessante tem perigos.

— Tem razão — respondeu Visconde. — Um dos problemas é que a IA pode errar.

— Igual gente.

— Sim, mas muitas pessoas acreditam que uma máquina não erra. Isso pode ser perigoso.

Dona Benta assentiu.

— É importante lembrar que tecnologia não substitui o julgamento humano.

— Outra coisa — continuou o Visconde — é que algumas pessoas podem usar a IA para espalhar informações falsas.

Pedrinho franziu a testa.

— Como?

— Criando imagens, vídeos ou textos que parecem verdadeiros, mas não são.

— Uma espécie de saci eletrônico! — exclamou Emília.

— Saci eletrônico? — perguntou Narizinho.

— Claro. Antigamente o saci fazia travessuras escondendo agulhas e confundindo viajantes. Agora os homens inventaram um saci que mora dentro dos fios e espalha confusão pelo mundo inteiro.

— A comparação é bastante criativa — admitiu Visconde.

— Como sempre sou.

Tia Nastácia observou:

— Então a gente precisa aprender a desconfiar um pouco?

— Exatamente — respondeu Dona Benta. — Verificar informações, procurar fontes confiáveis e não acreditar em tudo o que aparece diante dos olhos.

— Igual quando o pessoal da mata conta histórias de lobisomem — comentou Pedrinho.

— Perfeitamente.

Visconde continuou:

— Existe também a preocupação com empregos. Algumas tarefas podem ser automatizadas.

— Quer dizer que as máquinas vão trabalhar? — perguntou Narizinho.

— Algumas tarefas repetitivas, sim.

— Ótimo — disse Emília. — Que comecem lavando minhas roupas.

— Você não usa roupas — observou Pedrinho.

— Detalhes.

Todos riram novamente.

— Porém — continuou Visconde — surgem novas profissões e novas necessidades. O importante é que as pessoas aprendam continuamente.

Dona Benta fechou o livro que estava lendo.

— Isso vale para qualquer época. O conhecimento sempre foi o melhor companheiro do ser humano.

Emília pulou para o colo da avó.

— Então a inteligência artificial não é uma fada nem uma bruxa?

— Não — respondeu Dona Benta.

— Nem uma princesa encantada?

— Também não.

— Nem uma invenção do Doutor Caramujo?

— Muito menos.

— Então o que ela é?

Visconde sorriu.

— Uma ferramenta.

Emília ficou pensativa por alguns segundos, algo raro.

— Ferramentas podem construir casas ou quebrar janelas.

— Exatamente — disse Dona Benta.

— Então o mais importante continua sendo quem está segurando a ferramenta.

Por um instante, todos ficaram em silêncio.

Até que Tia Nastácia falou:

— Muito bonito isso. Agora quem vai segurar a colher sou eu, porque o jantar não se faz sozinho.

— Ainda não — disse Emília. — Mas pelo jeito os homens já estão trabalhando nisso.

A boneca saiu correndo pela varanda.

— Vou inventar uma inteligência artificial para escrever as minhas memórias!

— E quem vai ler? — gritou Pedrinho.

— O mundo inteiro! Afinal, se existe uma coisa mais inteligente que as máquinas, sou eu!

E desapareceu pelo terreiro, deixando atrás de si uma gargalhada geral — porque, no Sítio do Picapau Amarelo, até as maiores novidades do mundo acabavam virando assunto para aprender, imaginar e rir. 🌽📚✨

07 junho 2026

O conflito de gerações (na educação dos filhos)


Sou uma criança dos anos 90.

Cresci brincando na rua, na terra, correndo descalça, subindo em árvores e explorando o mundo. Minha introdução alimentar teve mel na chupeta, suco antes da água e papinhas de fruta e sopa depois. A televisão fazia parte da rotina da casa. Assistíamos novelas em família, BBB, Feiticeira, Tiazinha e até a famosa banheira do Gugu. A sexualização que hoje tanto preocupa muitos pais não entrou na minha vida pela escola. Entrou pela televisão ligada na sala de casa.

A leitura era incentivada, mas sem grandes preocupações. A alfabetização era responsabilidade da escola. A educação religiosa era responsabilidade da igreja. Os pais trabalhavam e as crianças brincavam. O principal dever dos filhos era tirar boas notas e, quando muito, ajudar em algumas tarefas domésticas ou cuidar dos irmãos mais novos.

Também fomos criados em uma cultura onde castigos físicos eram considerados normais. Muitas mães enfrentavam jornadas duplas, trabalhando fora e dentro de casa. Descansar não era uma prioridade. Na verdade, para muitas delas, descansar sequer era uma opção.

Era um mundo diferente.

Com coisas boas e coisas ruins.

Com acertos e erros.

Hoje somos nós que estamos criando filhos.

E fazemos isso de forma muito diferente.

Falamos sobre zero açúcar até os dois anos. Limitamos ou evitamos telas na primeira infância. Instalamos travas nas gavetas, protetores nas tomadas e grades nas escadas. Incentivamos a leitura desde cedo. Estudamos desenvolvimento infantil, regulação emocional, alfabetização, apego seguro e educação respeitosa.

Muitos de nós acreditamos que a principal educação acontece dentro de casa. A escola complementa. A igreja complementa. Mas a responsabilidade principal é da família.

E isso cria um conflito de gerações enorme.

Muitas vezes nossas mães e avós olham para nossas escolhas sem entender. Querem oferecer um doce ao bebê. Acham exagero limitar televisão. Estranham quando os pais se envolvem diretamente na alfabetização. Consideram excesso de zelo certas preocupações com segurança ou desenvolvimento infantil.

Mas talvez o conflito mais curioso nem seja sobre açúcar ou telas.

Talvez seja sobre descanso.

As mulheres das gerações anteriores foram ensinadas que uma boa mãe estava sempre trabalhando. Casa limpa. Roupa lavada. Comida pronta. Filhos cuidados. Serviço feito.

Sentar para descansar podia parecer preguiça.

Muitas delas usavam a televisão para conseguir fazer tudo o que precisava ser feito dentro de casa. E não porque eram negligentes. Porque simplesmente não existiam horas suficientes no dia para dar conta de tudo.

O descanso delas muitas vezes era apenas dormir quando o dia terminava.

Hoje muitas mães estão tentando construir uma relação diferente com a maternidade. Não apenas criando os filhos de outra forma, mas também entendendo que mães continuam sendo pessoas.

Pessoas que podem descansar.

Pessoas que podem ler um livro.

Pessoas que podem tomar um café em paz.

Pessoas que podem ter hobbies.

Pessoas que podem pedir ajuda.

Pessoas que não precisam provar seu amor pela família através do esgotamento.

É claro que nem toda mãe de hoje pensa assim. Existem mães que trabalham fora, mães que ficam em casa, mães que usam telas livremente, mães que limitam telas, mães que oferecem doces cedo, mães que esperam mais tempo, famílias que terceirizam parte da educação e famílias que assumem quase tudo dentro de casa.

Assim como nem todas as mães dos anos 90 criavam os filhos da mesma maneira.

Estamos falando de tendências geracionais, não de indivíduos.

O que mudou foi a cultura.

A geração das nossas mães confiava mais nas instituições para ajudar a criar os filhos. A escola ensinava. A igreja discipulava. O médico orientava. A televisão entretinha.

A geração atual tende a trazer mais responsabilidades para dentro de casa. Pesquisamos, estudamos, questionamos, adaptamos e assumimos uma participação muito mais ativa em praticamente todos os aspectos da criação dos filhos.

Isso não significa que somos melhores pais.

Significa apenas que vivemos em uma época diferente.

Nossas mães criaram seus filhos com o conhecimento que possuíam. Nós criamos os nossos com o conhecimento que temos hoje.

Quando uma avó oferece um doce para o neto, ela não está necessariamente tentando desrespeitar os pais. Muitas vezes ela está repetindo algo que funcionou para ela.

Quando uma mãe recusa, ela também não está necessariamente julgando sua própria mãe. Ela está apenas tentando seguir aquilo que acredita ser o melhor para seu filho.

As duas estão tentando amar a mesma criança.

Apenas partiram de referências diferentes.

Por isso esse conflito é tão comum.

Não é uma guerra entre gerações.

É um encontro entre mulheres que foram ensinadas a ser mães de maneiras completamente diferentes.

E talvez a maior verdade seja esta: cada geração tenta oferecer aos filhos aquilo que acredita ser melhor.

Nossas mães fizeram isso.

Nós estamos tentando fazer isso.

E, provavelmente, nossos filhos também farão quando chegar a vez deles.

Graças a Deus o conhecimento avança. Graças a Deus aprendemos coisas novas. Graças a Deus podemos corrigir erros, preservar acertos e continuar construindo sobre o trabalho daqueles que vieram antes de nós.

Não porque as gerações anteriores falharam.

Mas porque cada geração recebe a oportunidade de aprender um pouco mais e fazer um pouco melhor.