25 junho 2026

Não se submeta a um homem pão duro

Não se submeta a um homem pão duro

As pessoas adoram julgar mulheres que ficam em casa. Dizem que depender financeiramente de alguém é ridículo para um adulto. Que toda mulher precisa ter seu próprio dinheiro, suas próprias conquistas, estudos e carreira. Que não faz sentido ter que pedir dinheiro para comprar uma calcinha.

Mas, sinceramente? Eu acho que a discussão já começa errada.

Porque não é sobre "depender" de alguém.

Casamento é uma sociedade.

Numa sociedade, os sócios trabalham pelo mesmo patrimônio, mesmo quando desempenham funções diferentes. Um administra as finanças, outro cuida do operacional. Um atende clientes, outro organiza os bastidores. O dinheiro continua sendo da sociedade.

No meu casamento, eu não tenho um salário porque o trabalho que faço em casa não é remunerado pelo mercado. Mas ele tem valor. E muito valor. Eu cuido da casa, dos filhos, da rotina, do emocional de todo mundo e de uma infinidade de coisas invisíveis que permitem que meu marido faça bem o trabalho dele.

Nós dois trabalhamos.

Nós dois produzimos.

Nós dois construímos.

Então eu nunca precisei implorar por dinheiro para comprar alguma coisa. Não porque eu tenha uma conta separada ou uma renda própria, mas porque meu marido entende que o que entra em casa é nosso. Da mesma forma que o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos também são nossos, ainda que estejamos dividindo as tarefas de maneiras diferentes.

Uma vez, estávamos numa farmácia e havia um casal na nossa frente. A mulher viu uma cestinha de pinças de sobrancelha no balcão e comentou que precisava fazer as dela. A pinça custava dois reais.

Dois reais.

O marido respondeu de forma grosseira que não tinha dinheiro para gastar com futilidades.

Ela ficou constrangida.

Eu e meu marido nos olhamos naquele silêncio de quem pensou a mesma coisa ao mesmo tempo.

Não era sobre os dois reais.

Nós também já passamos e ainda passamos por momentos em que cada moeda precisa ser calculada. Se realmente não tivéssemos dinheiro, meu marido simplesmente diria: "Amor, agora não dá." E eu entenderia perfeitamente.

Mas pobreza não é grosseria.

E necessidade não é futilidade.

Quando alguém que divide a vida com você diz que precisa de algo, ainda que seja uma simples pinça de sobrancelha, o mínimo é ouvir com respeito e responder com consideração.

Porque o problema nunca foi uma mulher ficar em casa.

O problema nunca foi administrar o dinheiro de forma responsável.

O problema é usar o dinheiro como ferramenta de poder. É agir como se apenas quem recebe um salário estivesse produzindo algo. É tratar o outro como alguém que precisa pedir permissão para existir.

Não se submeta a um homem pão duro.

E não estou falando apenas de dinheiro. Estou falando de mesquinharia de coração. Da incapacidade de reconhecer o valor do trabalho invisível do outro e de compreender que casamento não é uma relação entre patrão e dependente.

É uma sociedade.

E sócios não imploram pelo que é da sociedade. Eles administram juntos aquilo que ambos ajudam a construir.

24 junho 2026

Quando me vesti de menino: relatos de sentimento e quebra de identidade

Eu tinha 20 anos e estava em uma festa de quinze anos. Minha irmã mais nova estava lá, rodeada pelas amigas, e eu me adaptei ao grupo delas. Não me sentia adulta o suficiente para ficar com os pais conversando sobre trabalho e contas. Ainda existia em mim algo muito adolescente.

Eu não conhecia aquelas meninas, mas ri com elas, dancei, conversei e até ajudei algumas a se maquiar. Era natural. Eu sempre me senti à vontade entre meninas. Não havia segundas intenções, maldade ou qualquer coisa além disso. Eu era uma delas.

Mas eu estava vestida do jeito que me fazia sentir segura: boné, moletom largo, calça jeans. Roupas masculinas. Não porque eu 1 sentisse um homem. Eram apenas roupas. Um escudo.

Naquela época, eu carregava traumas de abuso e violência sexual. Aprendi cedo demais que, para algumas pessoas, ser mulher significava se tornar alvo. Então fui me escondendo. Quanto menos eu chamasse atenção, melhor. Quanto mais larga a roupa, quanto mais eu apagasse os traços do meu corpo, mais protegida eu me sentia.

Minha identidade nunca esteve nas minhas roupas.

Porque, apesar de tudo, eu sempre fui muito feminina. Gostava de combinar cores, de uma maquiagem aqui e ali. Sonhava em ser mãe em tempo integral. Havia delicadezas em mim que ninguém via. Minha feminilidade não tinha desaparecido. Estava apenas escondida atrás de uma armadura.

Mas os adultos daquela festa não sabiam de nada disso.

Em algum momento, ouvi alguém dizer:

"Aquele menino seguindo elas para todo lado."

Depois vieram outros comentários. Risadas. Uma expressão horrível para falar de homossexualidade. Preconceito puro.

E, curiosamente, o que me destruiu não foi o preconceito.

Foi outra coisa.

Foi ouvir que eu era um menino.

Parece exagero dizer isso tantos anos depois. Mas eu me lembro exatamente da sensação. Foi como levar uma facada nas costas. Como se alguém tivesse arrancado algo de mim e jogado no chão.

Porque aquelas pessoas não estavam vendo a verdadeira eu.

Elas não viam a menina que tinha aprendido a se esconder para sobreviver. Não viam a mulher que existia por trás do moletom largo. Não viam os sonhos, as dores, os medos.

Só viam um estereótipo.

Depois disso, eu não consegui mais voltar para junto das meninas. Me sentei em um canto e fiquei esperando a hora de ir embora. Minha irmã não percebeu. Ninguém percebeu.

Mas eu estava quebrada.

Hoje penso em como é curioso o fato de que, às vezes, descobrimos quem somos justamente quando alguém nos diz quem não somos.

Foi naquele canto, naquela festa, ouvindo comentários de pessoas que nem sabiam meu nome, que entendi algo sobre mim.

Eu não queria ser um menino.

Eu não era um menino.

Eu amava ser mulher.

E talvez a maior ironia de todas seja essa: passei anos tentando esconder minha feminilidade para me proteger do mundo e, naquele dia, quando o mundo acreditou que eu realmente não era uma mulher, doeu mais do que eu poderia imaginar.

Porque uma armadura nunca deixa de ser uma armadura.

Debaixo dela, eu continuava sendo eu.

23 junho 2026

Palpites na educação: criança apronta?

Uma das coisas mais curiosas sobre a maternidade e a paternidade é a quantidade de palpites que recebemos.

Se a criança faz birra no mercado, ouvimos: "Ah, deixa. Criança apronta mesmo." Se desobedece, dizem: "É só uma fase." Como se o fato de ser criança fosse justificativa para não educar.

Mas criança apronta mesmo. E é justamente por isso que precisa de educação.

Crianças são pequenas, inexperientes e vulneráveis. Ainda estão aprendendo sobre limites, segurança, respeito e convivência. Elas não sabem todas as consequências das próprias escolhas e nem sempre conseguem regular suas emoções. Precisam de alguém que as guie.

E isso exige autoridade.

Não estou falando de violência, humilhação ou medo. Autoridade não é gritar, bater ou controlar pela força. Autoridade é assumir a responsabilidade de conduzir alguém que ainda não consegue conduzir a si mesmo.

A autoridade existe para proteger.

É a autoridade que impede a criança de correr para a rua, de machucar outra pessoa, de fazer algo perigoso para si mesma. É a autoridade que ensina que nem todo desejo precisa ser realizado imediatamente, que existem limites e que a vida em sociedade tem regras.

Não podemos exercer esse papel sendo apenas amigos ou nos colocando como iguais. A amizade é importante, mas a criança precisa, antes de tudo, de adultos que sejam porto seguro e direção.

Ela precisa de alguém que diga, com amor e firmeza: "Por aqui não. Vamos por este caminho."

Porque, no fim das contas, educar não é dominar uma criança. É usar a autoridade que temos para proteger alguém que ainda está aprendendo a caminhar pelo mundo. ❤️