Quando a "normalidade" custa a própria saúde mental
Existe uma ideia muito difundida de que a pessoa autista de nível 1 leva uma vida praticamente igual à de qualquer outra pessoa. Afinal, trabalha, faz faculdade, se casa, tem filhos, conversa, sorri e parece "dar conta". Para quem olha de fora, a conclusão parece óbvia: "Nem parece autista."
Mas quase ninguém se pergunta quanto custou parecer não ser.
Muitos autistas crescem aprendendo que seus interesses são exagerados, sua sinceridade é inadequada, sua forma de se comunicar é estranha e suas necessidades são inconvenientes. Então começam a estudar as pessoas ao redor. Aprendem expressões faciais, ensaiam respostas, reprimem movimentos que os regulam, escondem desconfortos e forçam contato social mesmo quando estão esgotados.
Esse esforço constante tem nome: masking, ou mascaramento.
Não é simplesmente ser educado ou tímido. É viver, por horas ou anos, representando uma versão mais aceitável de si mesmo para conseguir pertencer. É atuar o tempo todo, muitas vezes sem nem perceber que está fazendo isso.
E atuar sem pausas tem um preço.
Por trás da pessoa considerada "funcional", podem existir exaustão profunda, crises de ansiedade, sensação de inadequação, baixa autoestima, sobrecarga sensorial e depressão. Há autistas que passam anos acreditando que são defeituosos porque conseguem cumprir papéis sociais, mas nunca deixam de se sentir deslocados.
A faculdade concluída não mostra as crises depois das aulas. O casamento não revela o esforço para interpretar sinais sociais e administrar estímulos. A maternidade ou a paternidade não eliminam as dificuldades de regulação emocional e sensorial. O emprego não conta quantas vezes a pessoa chegou em casa completamente sem energia.
Ser autista e ter conquistas não significa sofrer menos.
Muitos autistas de nível 1, e também de outros níveis de suporte, tornam-se especialistas em sobreviver em um mundo que frequentemente os considera "esquisitos". Aprendem a esconder partes de si mesmos para serem aceitos. E ninguém deveria precisar se apagar para merecer pertencimento.
Por isso, a depressão no autismo muitas vezes passa despercebida. A pessoa está trabalhando, estudando, cuidando da família e até sorrindo. Então os outros concluem que ela está bem. Mas continuar funcionando não é a mesma coisa que estar saudável.
Talvez uma das maiores necessidades das pessoas autistas não seja aprender a parecer mais neurotípicas. Talvez seja encontrar espaços onde possam abaixar a máscara, respirar e descobrir que não há nada de errado em existir exatamente como são. 🤍



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