06 junho 2026

A sinceridade do autista adulto


Durante a pandemia, quando minha turma discutia detalhes da formatura, aconteceu uma das brigas mais bobas da minha vida.

O assunto era a camiseta da turma. Algumas colegas queriam usar o símbolo clássico da pedagogia estampado nela. Eu apenas disse que achava o desenho feio.

Só isso.

Não fiz discurso. Não ataquei ninguém. Não disse que quem gostava tinha mau gosto. Apenas falei que achava feio.

A reação foi desproporcional. Fui acusada de ser grossa. Questionaram como uma estudante de pedagogia podia não gostar de um símbolo tão tradicional. Em poucos minutos, uma simples opinião parecia ter se transformado em uma ofensa pessoal.

Na tentativa de explicar o mal-entendido, disse que era autista. Expliquei que minha fala era direta, que eu não tinha intenção de ser rude.

A resposta veio rápida.

A colega disse que tinha um sobrinho autista e que ele não era assim. Disse também que já havia estudado sobre autismo e que ser grosseiro não era uma característica do transtorno.

E talvez seja exatamente aí que mora a questão.

A sinceridade do autista adulto incomoda.

Quando uma criança fala o que pensa, as pessoas costumam rir. Acham engraçado. Acham espontâneo. Uma criança pode dizer que o cabelo ficou estranho, que a comida está ruim ou que alguém está velho, e isso é recebido como inocência.

Mas quando um autista cresce, a mesma sinceridade deixa de ser vista como espontaneidade e passa a ser interpretada como falta de educação.

O que antes era considerado autenticidade vira defeito.

O famoso "sincericídio" do autista adulto não costuma ser aceito socialmente. Não é visto como uma diferença na forma de comunicação. É tratado como grosseria, arrogância ou insensibilidade.

Com o tempo, muitos de nós aprendemos a mascarar. Aprendemos a medir palavras, decorar regras sociais e calcular reações antes de abrir a boca. Não porque deixamos de ser sinceros, mas porque descobrimos que a sinceridade tem um preço.

Curiosamente, essa história teve um final feliz.

Anos depois, um dia antes de um evento da faculdade, encontrei justamente aquela colega na manicure. Conversamos. Lembramos da briga. Rimos da situação. Percebemos juntas o tamanho da besteira que aquilo tinha sido.

No dia seguinte, fomos juntas de Uber até o local de encontro do ônibus.

A vida seguiu.

Mas eu aprendi uma lição.

Desde então, evito colocar "autismo" e "sinceridade" na mesma frase.

Não porque uma não tenha relação com a outra, mas porque muitas pessoas escutam essa explicação como uma justificativa, quando na verdade ela é apenas uma tentativa de traduzir uma experiência que elas nunca viveram.

O autismo pode ser estudado.

Você pode ler livros, assistir palestras, fazer cursos. Pode ter um sobrinho autista, um neto autista, um aluno autista ou até um filho autista.

Tudo isso gera conhecimento.

Mas existe uma diferença entre conhecer o autismo e viver o autismo.

Só quem passa a vida inteira tentando decifrar regras sociais invisíveis, interpretando olhares, revisando conversas mentalmente e se perguntando onde errou numa frase aparentemente simples sabe o peso disso.

E essa parte, por mais que seja estudada, só o autista conhece por dentro.

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