14 novembro 2017

As nove vezes que tentei morrer (Eis a minha história)

A maioria das pessoas, inclusive eu, não gosta de falar sobre esse tipo de coisa. É perturbador lembrar desses dias, eu não nego. Mas é minhas história, afinal de contas.
Por nove vezes tentei morrer, tentei tirar minha própria vida. É duro dizer que de todas só uma eu tinha razão, e esta última não foi exatamente uma tentativa, foi mais um planejamento.

1. A primeira vez foi aos nove anos. Eu sofria muito bullying quando criança. Os garotos me zoavam por eu ser magra e estranha, e meus amigos eram ainda mais zoados que eu (uma era autista, outra tinha piolho e o último gostava de mim, mas era isolado pelos outros garotos e por isso era taxado de gay), mas a pior parte era o garoto que eu gostava, que não só me roubava dinheiro como por vezes me batia e humilhava. Ele costumava me chamar de gorda nojenta, o que não se sabe por que me fazia muito mais mal que todos os outros quinze que me zoavam por ser magra demais. Foi assim que começou a bulimia e foi assim também que tentei me matar escondida dentro do banheiro da escola. Como era muito criança e ainda mais sem noção, eu tentei me enforcar e rasgar a garganta com as mãos, abrindo a boca. Acho que vi alguém mais velho brincando com isso.

2. Eu tinha 13 anos e tudo que mais queria na vida era matar aquele cara que ainda me roubava. Eu não mais gostava dele, ele não mais estudava comigo, mas sempre vinha buscar suas notas - antes era moedas - que sempre aumentavam de valor. Ele me ameaçava com promessas de arma de fogo e outras coisas e eu passei a roubar dinheiro da minha mãe. Ainda mais, na época passei a me sentir culpada por beijar ou querer beijar. E isso foi me atormentando até que eu escrevi uma carta de despedida e minhas amigas acharam, contaram a uma professora que levou o caso a direção, onde meus pais foram chamados. Eu fui diagnosticada com depressão pela orientadora mas ninguém quis me levar a um tratamento.

3. A partir de então, ainda com 13 anos, comecei a ser chamada 'nerd revoltada' até pelos professores. Apesar de minhas notas continuarem intactas, eu me tornei gótica, me juntei com um grupo de emos, góticos e darks e íamos fazer nada no cemitério quase todos os dias, enquanto filosofavamos sobre a morte e o que ela produz. Passei a matar muita aula, fumar, beber algo que era mais refrigerante que álcool e namorava com um menino na igreja e outro desse grupinho estranho (eu me via como duas pessoas diferentes, uma na igreja e em casa, outra na rua com a 'gang'). Também fiquei com outro garoto numa das vezes que matei aula. Até que meu primo me viu na praça, com aquela galera e aquele estilo. Contou tudo a meus pais (sim, eu me vestia escondida) e eu me senti a pior das criaturas por ver minha mãe chorando. E foi aí que trancada no quarto tentei tirar minha própria vida com o primeiro corte do pulso da minha vida (mas não o último, nem de longe), mas não sabia ainda fazer um corte profundo o suficiente, além de na hora ter lembrado de alguém falando que suicídio me levaria para o lado ruim da Bíblia.

4. Aos poucos fui tentando viver uma vida normal, entrei para um grupo de dança na igreja aos 14 anos, onde tivemos uma discussão em um dos ensaios sobre um aborto de uma menina de 9 anos abusada pelo padrasto. Por incrível que pareça, a maioria era contra menos eu. Não sei por que isso me deixou tão mal na época a ponto de chegar em casa e tentar me afogar.

5. Eu terminei o fundamental com mérito aos 16 anos.Me formei com um vestido rosa como querendo deixar para trás todo aquele preto que fez parte de mim dois anos antes. Meu pai conseguiu que eu ingressasse na tal escola que me formaria professora ao mesmo tempo que no ensino médio e eu tive muito medo. Como tímida e completamente diferente da garota que se daria bem em uma turma completamente nova, entrei na sala muda e saí calada. Foram bons 6 meses assim, até que o grupo que eu me identifiquei (não sei por que até hoje porque nada tinham de mim) me aceitasse. Mas antes disso, muita aula matei, muito fui para o centro com medo de entrar na sala de aula. Logo que tinha sido aceita no tal grupo, eu fui chamada de nojenta por outras meninas da turma. Cheguei em casa e fiz outra tentativa de cortar os pulsos. Ainda não fazia ideia de como fazer isso.

6. Com 17, tive uma amiga que era doce como morango (eu amo morango), na segunda vez que fiz o primeiro ano. Eu estava bem mal da anorexia nessa época, e eu a deixei ler meu diário, depois de um pedido dela. Eu a vi chorando enquanto lia. "Você gosta mais da ana que de mim?", ela perguntou ainda com a lágrima no rosto. Eu balancei a cabeça dizendo sim, e ela baixou a cabeça chorando baixinho. Não pude deixar de ficar mal com isso (até hoje fico). O dia terminou com eu tentando tirar minha vida mais uma vez.

7. Era meu aniversário de 18 anos, tinha feito outra burrada com minha mãe e um amigo tinha sido morto com um tiro na cabeça por dever droga. Minha festa que seria a fantasia foi cancelada e eu fiquei a festa toda com cara de bunda, ainda mais quando tentei dançar e burlaram meus planos. Naquela semana, com raiva e chorando, tomei suco com veneno para pulga. Mas como dizem, suicidas não querem matar a vida, querem matar a dor. Por isso mesmo liguei para uma amiga e pedi ajuda, ela falou com meu cunhado na época e ele me levou no hospital para fazer uma lavagem estomacal. Eu tive uma parada cardíaca de 3 ou 8 segundos, nunca me lembro bem. Ele ficou do meu lado. Não morri.

8. A penúltima vez eu já tinha 20 anos. Foi no fim do ano de 2011, e eu estava doente, muito doente e esperava a morte de braços abertos. Ver uma ex-amiga, ex-melhor amiga passar por um pombo morto e desviar, me fez lembrar que ela sabia de tudo, que só queria se proteger, que eu era o pombo morto que ela não queria ver. Não pude culpa-la. Ao chegar em casa, li a carta que me escrevera quando ainda eramos amigas: "Tu não sabe como dói ter que ver você pegando o ônibus e não saber se tu vai voltar. Te ver ficar na parada sem saber se vai se atirar na frente do ônibus. Eu sinto medo todos os dias, porque amo alguém que não se ama, alguém que quer morrer, que ficaria mais feliz se eu não a tivesse." e ao ler, chorei até molhar a carta, e sem pensar nas consequências, tentei tomar veneno de novo. Mas muito pouco dessa vez.

9. Essa foi a mais marcante, apesar de não ter sido uma tentativa de fato. Mas foi um planejamento longo, já que marquei uma data desde janeiro de 2011 para o dia da minha morte - 29/02/2012 - o dia em que, achava eu, minha mãe só lembraria a cada 4 anos. Eu estava morta quando decidi morrer, e continuei morta a cada dia, como um zumbi andando por aí sem conseguir paz. Foi um ano difícil, lembro com muita clareza de janeiro de 2012, quando na praia de Tramandaí com minha mãe e tia, elas falavam do garoto de 13 anos que tinha se suicidado no nosso bairro. Ela disse claramente que devia ser horrível perder um filho assim e que estava feliz por eu ter melhorado. Eu não consegui ficar, apenas levantei e sai pra rua, fiquei ali, sentada sozinha, chorando por dentro, porque minha mãe não sabia que a filha há muito já morrera. No dia marcado, uma chuva muito forte me impediu de ir embora do terceiro dia de aula em uma outra turma de primeiro ano. Fiquei com uma colega que mal conhecia, e na hora de ir embora ela me deu o abraço mais especial que já recebi, porque ali ela me devolveu a vida e a força que eu já não tinha. Na volta para casa, fui olhar minha gaveta, uma que tinha sido preparada por um ano inteiro, com todos os tipos de coisa para morrer, preparadas para aquele dia. Eu a fechei e comecei ali a ressuscitar. Meu melhor amigo na época (hoje meu marido), ao saber da gaveta da morte pediu que eu a transformasse na gaveta dele. Eu o fiz por 4 anos, até que depois de só 9 meses de namoro, disse sim para ele em frente ao pastor e com nosso filho na barriga.

08 novembro 2017

O que minha mãe diria

Nessas de Deus ter falado muito comigo no último mês, sobre diversos assuntos e de muitas formas, a última dEle foi me pedir para que eu comprisse meu voto de cinco anos atrás, a de testemunhar sobre meu maior milagre.
E nem era tão difícil assim, mas para isso precisava primeiro contar a história para minha mãe, que não sabia de nada, e seria injusto ficar sabendo junto com todo mundo.
Mas aí tinha aquele frase que sempre pensava enquanto passava por tudo aquilo: "O que minha mãe diria?".
Sempre que fazia exames, recebia sangue ou era medicada, ou mesmo quando ficava dias sem comer em meio aos leucócitos baixos e ferratina negativa, eu chorava e pensava o que minha mãe diria se soubesse de tudo aquilo.
E foi o que mais pensei quando percebi o que teria que fazer para cumprir meu voto com Deus. Eu precisava de um tempo (sem brigar) para conversar com minha mãe sobre tudo o que Deus tinha me ensinado e por tudo o que eu tinha passado de 2008 até agora. Era muita coisa que escondi dela, muito história triste e feliz, muita coisa que ela ouviu e viu sem entender o que se passava por trás de tudo. Mas foi algo absolutamente necessário para que quando fosse contar isso no púlpito (ou sabe-se lá onde que Deus me mandasse contar), ela não ficasse surpresa em nenhum momento.
Eu achei que fosse demorar, que eu ia ter que me preparar, que ia fazer ela sentar e me ouvir até o fim. Foi completamente diferente de tudo que imaginei.
Fomos levar o Gabriel na escola e voltamos enquanto eu contava sobre Deus e o que ele andava falando comigo no último mês e tudo o que eu precisei mudar em pouco tempo. Fui contando tudo o que tinha mudado desde 2012 e finalmente tudo o que tinha passado nos "anos das trevas" da minha vida, entre 2008 e 2012. Minha depressão profunda, quando fui um zumbi, quando fiquei realmente doente do TA e quando fiquei doente de verdade a ponto de quase morrer.
Foi natural, espontâneo e bem mais do que eu pensava. Deus estava ali o tempo todo comigo, me mostrando como falar sem assustar e de forma clara para não confundir ninguém.
No fim de tudo, não descobri o que minha mãe diria na época, mas descobri o que ela fez agora. Me abraçou com olhos cheios d'agua e pediu desculpas por não ter prestado atenção.
E agora o próximo passo: testemunhar tudo isso de verdade, da forma que Deus mandar.

Sentimento de culpa de mãe

Dizem que mãe sente culpa não importa o que faça. Bom, é verdade.
Eu tinha um programa sobre filhos desde os 15 anos. O que eu iria fazer, como ia criar, como iria vestir, em qual curso matricular e em que período da vida ter cada um. Bom, eu não pensava em duas coisas nessa época: que existe outro adulto na equação, e que as vezes pode faltar grana para a programação.
Isso talvez seja a primeira das minhas 'culpas', a falta de dinheiro. Ter ficado grávida foi escolha minha, confesso, mas foi um impulso libriano, não uma de decisão consciente. Não tinha condições financeiras para ter um filho e pago isso hoje com o fato de ficar babando roupas para ele e não ter dinheiro para isso, ou mesmo de não poder levar ele para passear sempre que quero.
Outra grande culpa foi a de ter que trabalhar. É, eu sempre tive a ideia de ficar com meus filhos, ou no máximo, trabalhar meio turno, mas a necessidade me fez ter que trabalhar. Bom, foram só três meses, mas os meses que me fizeram ver que eu tinha um filho crescendo e que ele não estava sendo criado por mim. Foi torturante.
E eis que veio a atual grande culpa: o celular. Não gosto de contar como, mas o celular já foi caso de irresponsabilidade da minha parte em 3 ocasiões (só que eu me lembre). Digamos que me acostumei a mexer nele quando ele era pequeno é só dormia. Ele cresceu e nada mudou. Bom, na verdade mudou sim, desde que me toquei disso (na saída do emprego) que ando tentando dar atenção pra ele quando estamos em casa. E aos poucos vou mudar isso quanto a casa dos outros e até antes de dormir (mesmo que ele esteja dormindo porque não é certo perder sono por isso).
A culpa no meu caso não é tão sem sentido assim. Quem já me viu sabe porque. Mas agora já perdoei a mim mesma por saber que estava com uma grave DPP desde que ele nasceu e que só o emprego me fez melhorar, e por isso mesmo, melhorar o tempo com ele.
Culpa de mãe. Todas temos.