A vida inteira, disseram que eu vivia no “meu mundo”.
E talvez fosse verdade.
Eu era aquela criança estranha e introvertida. A que brincava sozinha. A que passava horas conversando consigo mesma. A menina que tinha amigos imaginários, histórias imaginárias, universos imaginários. Enquanto outras crianças pareciam pertencer naturalmente ao mundo real, eu existia meio distante dele, como se houvesse sempre um vidro invisível entre mim e o resto das pessoas.
Eu observava tudo de longe.
E no silêncio da minha cabeça, construía mundos inteiros.
Na adolescência, as coisas não mudaram muito. Eu vivia em cima do muro: entre Deus e os prazeres adolescentes, entre querer ser diferente e tentar desesperadamente ser igual. Era a época do “ficar”, da necessidade de aceitação, das modas, das máscaras sociais. Mas mesmo tentando acompanhar tudo aquilo, eu continuava vivendo metade aqui, metade em outro lugar.
Fantasia e realidade começaram a se misturar.
Minhas histórias deixaram de ser apenas histórias. Eu contava coisas do meu mundo como se fossem reais. Inventava versões melhores, mais suportáveis, menos dolorosas da vida. Hoje entendo que aquilo não era maldade nem manipulação. Era sobrevivência.
Porque às vezes a dor é tão grande que a mente cria universos paralelos pra pessoa conseguir continuar respirando.
E eu respirava assim.
Dormindo acordada.
Então minha vida virou de cabeça pra baixo.
Entre os 16 e os 20 anos, vivi uma sucessão de terremotos emocionais. Depressão. Anorexia. Leucemia. Conversão. Noivado. Saga Crepúsculo. Amor adolescente. Namoro. Gravidez. Casamento.
Foi uma volta de 180 graus tão rápida que meu mundo autista simplesmente não acompanhou.
Por fora, minha vida seguia. Por dentro, eu ainda estava perdida naquele lugar distante onde passei a vida inteira escondida.
Então veio a maternidade.
E a maternidade não bate na porta devagar.
Ela arromba.
A gestação mudou minha rotina. O casamento mudou minha rotina. O bebê mudou completamente meu universo.
E eu não estava preparada.
Passei um ano e meio afundada numa depressão pós-parto tão profunda que mal consigo explicar em palavras. Eu existia no automático. Como uma pessoa sonâmbula atravessando os dias.
Todos os dias eu ia pra casa da minha mãe.
Ela dava banho nele. Ela alimentava. Ela brincava. Ela cuidava.
Eu amamentava. Trocava fralda. Tentava manter uma rotina mínima. Fazia o básico do básico enquanto afundava dentro da minha própria mente.
Meu filho crescia diante dos meus olhos.
E eu não conseguia enxergar.
É difícil admitir isso. Dói escrever isso. Mas a verdade é que eu não estava presente. Meu corpo estava ali. Minha alma não.
Eu vivia submersa.
Como alguém dormindo no fundo de um oceano silencioso.
Até aquele dia.
Eu ainda lembro da luz entrando. Lembro dele brincando na minha frente. Lembro de estar olhando pra algum lugar inexistente dentro da minha cabeça, completamente distante dali mais uma vez.
Então, de repente, duas mãozinhas seguraram meu rosto.
Pequenas. Quentes. Reais.
Meu filho virou minha cabeça na direção dele, me obrigando a olhar.
E disse:
— Mãe.
Foi naquele instante.
Naquele segundo exato.
Como numa cena de filme, senti como se estivesse emergindo de dentro da água depois de anos submersa. Como se alguém tivesse me puxado pela mão para a superfície. O som voltou. A luz voltou. O mundo voltou.
Eu acordei.
De verdade.
Olhei pra ele como se estivesse vendo meu filho pela primeira vez.
E o choque me atravessou inteira.
Como ele cresceu tanto? Como ele já fala “mamãe”? Como eu perdi isso? Como eu não vi?
Meu bebê já não era mais um bebê.
E eu não tinha percebido o tempo passar.
Aquilo me destruiu. E ao mesmo tempo, me ressuscitou.
Foi o dia em que saí do meu mundo.
Pela primeira vez, entendi que precisava lutar contra aquele sono invisível que me acompanhou a vida inteira. Eu não sabia dar nome ao que vivia. Não entendia autismo, dissociação, hiperfoco, shutdown, depressão. Só sabia que não queria mais perder minha vida enquanto ela acontecia diante de mim.
Escolhi trabalhar.
Passei três meses tentando “ressuscitar” enquanto meu filho ficava na mesma escola em que eu trabalhava. Achei que aquilo talvez me salvasse.
Mas aprendi outra coisa.
Aprendi que eu não queria trocar meu filho pelo trabalho.
Fui demitida porque escolhi ele.
E escolheria mil vezes.
Depois comecei a faculdade. Outra tentativa de não afundar novamente. Outra tentativa de construir uma vida real.
E foi ali que Deus começou a me reconstruir de verdade.
Ele me ensinou sobre família. Sobre maternidade. Sobre feminilidade. Sobre masculinidade. Sobre filhos. Sobre amor sacrificial. Sobre identidade. Sobre verdade.
Tudo o que eu acreditava até então foi confrontado.
Percebi quantas ideias tinham sido colocadas dentro de mim sem que eu sequer percebesse. Quantas mentiras eu tinha engolido tentando encontrar liberdade, quando na verdade só estava mais perdida.
Então veio minha segunda gravidez.
E junto dela, uma crise enorme.
Mas também veio a resposta que eu carreguei a vida inteira.
Eu era autista.
Procurei CAPS, terapia, diagnóstico. Pela primeira vez, minha vida começou a fazer sentido. Eu não era apenas estranha, preguiçosa, desligada ou “viajando”. Meu cérebro simplesmente funcionava de outra forma.
Eu era uma autista. Uma mãe. Uma mulher grávida. Mas agora, uma mulher desperta.
Eu tinha saído do meu mundo.
Ou talvez… Deus tivesse entrado nele pra me buscar.
Desde então, decidi viver presente.
Me dediquei de corpo e alma aos meus filhos. Afterschool, devocional, tempo de qualidade, conversas, brincadeiras, ensino, colo, rotina, cuidado. Tudo o que eu posso fazer por eles, eu faço.
Porque hoje eu sei: o tempo passa.
E eu nunca mais quis perder a vida acontecendo diante dos meus olhos.
As pessoas dizem que autistas vivem no próprio mundo.
Talvez eu tenha vivido mesmo.
Mas meu mundo hoje tem nomes. Tem risadas. Tem bagunça. Tem cheiro de comida. Tem criança correndo pela casa. Tem oração antes de dormir. Tem abraço apertado. Tem “mamãe, olha isso”. Tem vida real.
A menina que criava mundos imaginários cresceu.
Hoje, ela cria filhos.
E às vezes eu olho pra trás e penso:
Eu sou um milagre.




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