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28 junho 2026

Desejos reprimidos na adolescência: um ataque de cada vez

Na adolescência, a gente costuma ouvir muitos "não".

Não pode pintar o cabelo. Não pode fazer piercing. Não pode usar essa roupa. Não pode cortar o cabelo desse jeito. Não pode ouvir determinada música. Não pode pensar diferente.

Alguns desses "nãos" fazem sentido. Pais existem para proteger, orientar e impor limites. Mas outros acabam proibindo justamente aquilo que faz parte de uma fase muito importante da vida: a construção da identidade.

A adolescência é o período em que a pessoa começa a responder uma das perguntas mais difíceis da existência: quem sou eu além dos meus pais?

Os valores ensinados em casa continuam sendo uma base importante, mas agora eles passam a ser confrontados, testados e assimilados. Não por rebeldia, necessariamente, mas porque ninguém constrói uma identidade apenas repetindo tudo o que recebeu. É preciso experimentar, questionar e escolher.

É por isso que mudanças no cabelo, nas roupas, nos gostos musicais, nas opiniões e até na decoração do quarto costumam ser tão marcantes nessa fase. Muitas dessas mudanças não são o destino final. São um caminho para descobrir quem se é.

E é curioso como certos desejos não desaparecem.

Eles ficam guardados em algum lugar, esperando a primeira oportunidade.

Foi exatamente o que aconteceu comigo.

Na pandemia, já adulta, resolvi fazer tudo aquilo que nunca pude quando era adolescente. Pintei o cabelo de várias cores. Descolori. Cortei de jeitos diferentes. Experimentei estilos que antes eram proibidos.

Hoje percebo que nem era porque eu sonhava em ter um cabelo colorido pelo resto da vida.

Era porque eu precisava descobrir se eu realmente gostava daquilo ou se só queria viver uma experiência que me foi negada.

No fim das contas, algumas coisas ficaram. Outras perderam completamente a graça depois que deixaram de ser proibidas.

E talvez seja justamente esse o ponto.

Quando uma experiência faz parte da identidade da pessoa, ela tende a permanecer. A proibição pode atrasar sua expressão, pode fazê-la esperar dez, vinte ou trinta anos, mas dificilmente a elimina.

Por outro lado, quando aquilo era apenas uma fase de experimentação, costuma ir embora naturalmente. O adolescente pinta o cabelo, coloca um piercing, muda o estilo, enjoa e segue a vida. E está tudo bem. Era exatamente isso que ele precisava fazer para descobrir que aquele não era o seu caminho.

A experiência responde perguntas que a proibição nunca consegue responder.

Por isso, muitos adultos acabam vivendo uma "segunda adolescência". Não porque sejam imaturos, mas porque finalmente têm liberdade para experimentar tudo aquilo que lhes foi negado. Só então conseguem separar o que era curiosidade do que realmente faz parte de quem são.

No meu caso, algumas experiências ficaram apenas como uma boa lembrança. Outras me ajudaram a conhecer melhor quem eu era.

Talvez crescer também seja isso.

Perceber que construir uma identidade não significa rejeitar tudo o que os pais ensinaram, mas também não significa viver apenas como uma extensão deles. Significa receber um legado, experimentá-lo à luz da própria vida e, então, fazer escolhas conscientes.

Porque identidade não nasce da imposição.

Ela nasce do encontro entre aquilo que recebemos e aquilo que, livremente, escolhemos manter.

Cabelo cresce. Piercing pode ser retirado. A roupa volta para o armário. O estilo muda. Na adolescência, aliás, muda o tempo todo. É justamente experimentando que muitos adolescentes descobrem que aquilo era apenas uma fase. E tudo bem.

Às vezes, o medo dos pais é que uma escolha temporária se torne permanente. Mas, curiosamente, quando ela é apenas uma fase, o próprio adolescente a abandona. Não porque foi proibido, mas porque descobriu, por experiência, que aquilo não fazia parte de quem ele era.

A identidade não se forma na ausência de limites, mas também não amadurece na ausência de liberdade.

22 junho 2026

Marjorie

Eu sonhei com a Marjorie desde que tinha 11 anos. Antes mesmo de existir, ela já tinha um lugar reservado no meu coração.

Sua gravidez foi planejada, mas também trouxe uma crise. Eu tinha medo. Medo de tudo acontecer de novo: as mudanças, a depressão pós-parto, a sensação de não ser uma boa mãe. Ao mesmo tempo, eu via aquela gestação como uma oportunidade de fazer diferente.

Mas a Marjorie não era uma nova oportunidade. Era uma pessoa. Uma pessoa inteira, única, que chegava para escrever a própria história.

Ela nasceu de parto normal e isso, por si só, já foi um presente para mim. Veio linda, pequena e menina. Minha Marjorie. Minha princesa.

Foi um bebê muito tranquilo. Calma, pouco chorona e tão esperta que às vezes eu me perguntava se ela não era um mini adulto. Com apenas um ano e meio, já dormia sozinha no berço, no próprio quarto. Falava todas as palavras corretamente e inventava histórias como ninguém. Falava tanto que chegava a me deixar tonta.

Então veio a pandemia. E ela foi forte. Mais do que isso, foi a melhor companhia que nós e o Gabriel poderíamos ter naquele período tão estranho.

Depois veio a mudança de casa. Depois vieram as irmãs.

Ela sentiu tudo intensamente. Foi muito ciumenta quando a primeira irmã nasceu e continuou sendo quando a outra chegou. Tornou-se mais carente, com uma necessidade enorme de atenção. E tudo bem. Eu sempre dei. Porque algumas crianças pedem amor com palavras; outras pedem com presença. A Marjorie sempre pediu presença.

Ela sempre quis ir para a escola. Tanto que escolheu a própria escola. E, por incrível que pareça, acertou. No dia em que completou quatro anos, foi chamada para a escolinha que havia escolhido. E logo encantou as professoras com sua inteligência fora do comum — embora sua raiva, igualmente fora do comum, também se fizesse notar.

Marjorie é sociável. Sua linguagem de amor é tempo de qualidade. É inteligente e criativa de um jeito que me surpreende todos os dias. É carinhosa, colaborativa e gosta de cuidar das irmãs. Às vezes preciso lembrá-la de que isso não é sua obrigação, mas ela simplesmente gosta de cuidar. Existe nela uma ternura que naturalmente se transforma em serviço.

Quando soube que ela era superdotada e tinha TOD, não me surpreendi. Nem uma coisa, nem outra. Eram características que eu já enxergava desde que ela era um bebê.

A Marjorie me trouxe a realidade de ser mãe de menina. Também me trouxe a experiência, ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, de conviver diariamente com uma criança mais inteligente do que eu.

E talvez esse seja um dos maiores presentes que ela me deu: a oportunidade de aprender, todos os dias, que os filhos não chegam para caber nos nossos planos. Eles chegam para nos expandir.

A menina que eu sonhei aos onze anos não veio para me dar uma segunda chance. Veio para ser ela mesma. E que privilégio imenso é poder ser a mãe da Marjorie.

21 junho 2026

Gabriel

Meu herói

Gabriel nasceu há dez anos, quando eu tinha apenas seis meses de casamento. Foi um começo difícil. Muitas mudanças aconteceram em pouco tempo e a depressão pós-parto me afundou a ponto de eu mal perceber seu crescimento. Olhando para trás, dói lembrar disso.

Mas, com apenas um ano e meio de idade, Gabriel me salvou.

Ele virou meu herói. Foi ele quem me fez mãe de verdade. Foi com ele que aprendi o que era atenção, presença, carinho e amor. Aquele amor incondicional que só uma mãe conhece. Foi ele quem me ensinou a sair de mim mesma para enxergar o outro.

Gabriel era diferente desde que me lembro. Um bebezinho que não me olhava enquanto mamava — ou talvez fosse eu quem não conseguia olhar para ele. Demorou a falar. Demorou a desfraldar. Foi cedo para a escola, mas não interagia com as outras crianças, não socializava. Fazia as atividades quando queria e quando se interessava.

No ensino fundamental, foi acolhido, mas ainda enfrentava suas dificuldades. Tentava fugir da escola, da sala de aula. Tinha crises em que subia nas mesas, arrancava cortinas e bagunçava tudo ao redor. Foi nessa época que finalmente recebemos um laudo: autismo e TDAH. Uma realidade com a qual convivemos até hoje.

Mas Gabriel não é o autismo.

Gabriel é um menino maravilhoso.

Tem dez anos. Gosta de desenhar, de conversar, de brincar e de fazer perguntas. Gosta de basquete. Não ama ler, nem futebol, e também não gosta de copiar do quadro. Mas, quando se interessa por algo, seu mundo inteiro passa a girar em torno disso.

É extremamente carinhoso. Gosta de abraço, de colo, de presença. É educado, quieto e obediente. Às vezes se irrita, principalmente com as irmãs. Mas tem um coração de ouro. Está sempre cuidando, sempre se importando, sempre agindo como irmão mais velho, mesmo nunca tendo tido essa obrigação.

Sua fé é admirável. Ele crê em Deus e O ama. Sabe o que é pecado e o que é dever. Tem sonhos enormes: morar no Nordeste, casar com uma nordestina, ter cem filhos, ser bombeiro, cientista e astronauta. E eu sei que ele pode. Sei que ele vai voar longe.

Gabriel é uma criança especial. E, às vezes, eu gostaria de ter feito mais por ele. Mais terapias, mais amor, mais paciência, mais presença.

Mas também sei que fiz o meu melhor.

Mesmo sem poder oferecer todas as terapias, eu fui a terapeuta. Quando ainda não havia atendimento especializado na escola, eu fui a professora particular que o alfabetizou. Fui amiga, mãe, presença e defensora dos seus direitos dentro das minhas possibilidades. Corri atrás do que ele precisava.

E hoje não me arrependo de não ter feito mais, porque eu dei o que eu tinha. Dei o meu tempo, minhas forças, meu coração.

Meu menino está crescendo.

E eu o vejo se tornando alguém incrível. Vai ser um pai incrível. Um marido incrível. Um profissional incrível. Um cristão verdadeiro.

Eu creio.

E eu amo meu filho.

Meu herói.



12 junho 2026

Não tenha um filho

Sério.

Não tenha.

Durma tranquilo. Viaje quando quiser. Gaste seu dinheiro apenas com você. Assista seu futebol sem interrupções. Compre seus cremes. Faça seus cursos. Invista na carreira. Durma até tarde aos domingos.

Não tenha um filho.

Porque, quando ele chegar, alguma coisa vai mudar.

Aliás, muita coisa.

E se você está procurando alguém para dizer que é possível ter filhos sem mudar nada, sinto informar: não é.

Não tenha um filho se a sua prioridade absoluta é você mesmo.

Porque filhos têm um péssimo hábito de precisar da gente.

Precisam quando estamos cansados.

Precisam quando estamos ocupados.

Precisam quando estamos doentes.

Precisam quando não estamos com vontade.

Precisam justamente naqueles momentos em que sonhávamos em não precisar de ninguém.

E é aí que a mágica acontece.

Porque ser pai ou mãe é passar a colocar alguém na frente de si mesmo inúmeras vezes ao dia.

Não tenha um filho se você acredita que sua vida continuará exatamente igual.

Não vai.

As prioridades mudam.

Os horários mudam.

Os planos mudam.

Às vezes até os sonhos mudam.

E isso não é uma tragédia.

É o processo natural de amar alguém mais do que a si mesmo.

Não tenha um filho se você não suporta choro.

Se não aguenta birra.

Se não tem paciência para repetir a mesma coisa cinquenta vezes.

Se não consegue lidar com teimosia.

Se não suporta criança que não quer comer.

Se não aguenta noites mal dormidas.

Porque criança faz tudo isso.

E muito mais.

Não tenha um filho se você não está disposto a gastar dinheiro.

Porque crianças custam dinheiro.

Comida custa dinheiro.

Roupa custa dinheiro.

Material escolar custa dinheiro.

Dentista custa dinheiro.

Pediatra custa dinheiro.

Exame de sangue custa dinheiro.

Óculos custa dinheiro.

Terapia custa dinheiro.

E, às vezes, a vida entrega desafios que você nunca imaginou enfrentar.

Deficiências.

Transtornos.

Doenças.

Limitações.

Não tenha um filho se você acredita que só conseguiria amar uma criança perfeitamente saudável, perfeitamente obediente e perfeitamente parecida com a que você imaginou.

Porque filhos reais não vêm assim.

Filhos reais vêm como são.

E amá-los significa abraçar tudo o que eles são.

Não tenha um filho se você não suporta a ideia de vê-los crescer.

Porque aquele bebê cheiroso que cabe nos seus braços vai embora.

Em poucos anos.

A infância passa voando.

A adolescência chega sem pedir licença.

E, quando você perceber, estará conversando com um adulto.

Um adulto que talvez vote diferente de você.

Pense diferente de você.

Faça escolhas diferentes das suas.

E isso faz parte.

Porque filhos não foram feitos para permanecer crianças.

Foram feitos para crescer.

Não tenha um filho se você quer controle.

Porque filhos são pessoas.

E pessoas não pertencem a nós.

Nós apenas cuidamos delas por um tempo.

Também não tenha um filho se você acha que será fácil.

Não será.

Haverá dias maravilhosos.

Haverá dias terríveis.

Haverá momentos em que você vai chorar escondido no banheiro.

Momentos em que vai duvidar de si mesmo.

Momentos em que vai errar.

Momentos em que vai pedir perdão.

Momentos em que vai achar que não consegue continuar.

Mas continue.

Porque, apesar de tudo que eu disse até aqui, existe um detalhe importante.

Um detalhe enorme.

Talvez o mais importante de todos.

Ter filhos é a melhor coisa que existe.

É a aventura mais difícil.

A mais cansativa.

A mais cara.

A mais imprevisível.

E também a mais bonita.

Nada se compara a ouvir uma risada que existe por sua causa.

A receber um abraço que correu pela casa inteira para encontrar você.

A acompanhar um ser humano aprendendo a falar, ler, pensar, sonhar e amar.

Nada.

Então, sim.

Não tenha um filho.

Se você não está disposto a dar seu tempo.

Seu conforto.

Seu dinheiro.

Sua paciência.

Seu coração.

Mas, se estiver disposto, descubra o que milhões de pais e mães já sabem:

que filhos dão trabalho.

Muito trabalho.

E que, estranhamente, esse trabalho vale cada segundo.

10 junho 2026

Sobre respeito (na educação dos filhos alheios)

Uma das coisas mais difíceis da maternidade e da paternidade é aceitar que nem todas as famílias farão as mesmas escolhas que nós.

Cada pai e cada mãe carregam histórias, valores, experiências, medos e esperanças diferentes. Aquilo que parece óbvio para uma família pode não fazer sentido para outra. E tudo bem.

Respeitar não significa concordar. Respeitar significa reconhecer que o outro também ama seus filhos e, na maioria das vezes, está tentando fazer o melhor que consegue com os recursos, conhecimentos e convicções que possui.

Vivemos tempos em que é muito fácil julgar. Julgamos quem amamenta e quem não amamenta. Quem faz homeschooling e quem escolhe a escola tradicional. Quem limita telas e quem permite mais tempo de tecnologia. Quem tem muitos filhos e quem decide ter apenas um. Quem segue uma religião e quem não segue nenhuma.

Mas crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelos discursos. Quando nos veem tratando outras famílias com respeito, mesmo diante das diferenças, aprendem tolerância, humildade e empatia. Aprendem que pessoas podem pensar diferente sem se tornarem inimigas.

Isso não significa abrir mão das próprias convicções. Podemos ensinar nossos valores com firmeza e, ao mesmo tempo, mostrar que o mundo é formado por pessoas que fazem escolhas diferentes das nossas.

Nossos filhos não precisam aprender a vencer todas as discussões. Precisam aprender a conviver com pessoas diferentes. Precisam entender que o respeito não é uma recompensa para quem concorda conosco, mas uma demonstração de dignidade humana.

Talvez uma das maiores lições que possamos deixar para nossos filhos seja esta: defender aquilo em que acreditamos sem desprezar quem acredita diferente.

Porque educar não é apenas formar opiniões. É formar caráter. E o respeito sempre será uma das mais belas marcas de um bom caráter. 🌷❤️

28 maio 2026

Como me tornei mãe

Eu me tornei mãe antes de ter filhos.

Não no papel. Não biologicamente. Não na maternidade de hospital, com pulseirinha no braço e bebê enrolado numa manta.

Eu me tornei mãe quando tinha 21 anos e meu coração começou a doer de um jeito estranho. Eu não namorava. Não tinha planos concretos. Mas, de repente, comecei a chorar “do nada” com vontade de ter um bebê, como se alguma coisa dentro de mim estivesse gritando que o tempo estava acabando.

Talvez fosse medo. Talvez o eco dos anos de transtorno alimentar, da anemia profunda, do receio de nunca conseguir gerar uma vida. Talvez fosse só o relógio biológico enlouquecendo cedo demais.

Ou talvez Deus já estivesse preparando meu coração.

Naqueles mesmos dias, apareceu um bebê na minha casa.

Um primo pequeno, quase esquecido pelas dores da vida adulta ao redor dele. Um bebê que estava completando um ano exatamente no dia em que chegou lá em casa.

E, sem perceber, eu virei mãe.

Não é exagero. Não é emoção inventada pela memória. É a verdade mais crua que existe dentro de mim.

Eu cuidei dele até os quatro anos.

Troquei fraldas. Fiz comida. Dei colo. Passei noites cansadas. Organizei rotina. Me preocupei. Protegi. Amei.

Cheguei a largar um emprego por causa dele. E sinceramente? Só uma mãe faz esse tipo de escolha sem pensar duas vezes.

Quando aquele ciclo terminou, doeu como arrancar um pedaço do meu corpo. Mas ao mesmo tempo existia alegria. Porque eu estava entregando aquele menino para uma mãe biológica transformada. Recuperada. Pronta para amar o próprio filho.

E só uma mãe entende a mistura impossível entre sofrimento e paz naquele tipo de despedida.

Dois anos depois, nasceu meu filho.

Meu primeiro bebê.

Mas a maternidade já morava em mim havia muito tempo.

O primeiro ano dele foi difícil. A depressão pós-parto roubou partes inteiras da minha memória. Às vezes sinto como se tivesse perdido meu filho bebê no meio daquela névoa escura.

Mas eu lembro do momento em que ele me salvou.

Porque foi isso que aconteceu.

Quando eu o vi, alguma coisa em mim abriu de vez. Como um leão preso numa jaula que finalmente arrebentou as grades.

A maternidade me tomou inteira.

E desde então tudo na minha vida passou a ser atravessado por esse amor.

O afterschool. O culto doméstico. Os devocionais. A alimentação saudável. As horas ensinando. O cuidado com as telas. O cansaço. A presença. A entrega diária.

Tudo isso nasce do mesmo lugar.

Acho que muita mulher foi convencida de que, se a maternidade dói, então ela só pode ser prisão. Mas não é tão simples assim. Tem coisas na vida que cansam justamente porque são grandes. Porque exigem tudo da gente.

Eu não sou do tipo que diz “amo meus filhos, mas odeio ser mãe”.

Eu amo meus filhos profundamente.

Mas também amo a maternidade com toda a força da minha alma.

Porque ser mãe é muito maior do que gerar filhos.

Ser mãe é se abrir para a vida.

É permitir que o amor ocupe todos os cômodos do coração até não existir mais espaço vazio.

É viver um sentimento que parece ter sido soprado pelo próprio Deus dentro da gente.

Uma forma de amor sacrificial, feroz, doce e santa ao mesmo tempo.

E desde aquele bebê que chegou inesperadamente na minha casa catorze anos atrás, eu nunca mais deixei de ser mãe.

26 maio 2026

Eu sou um milagre: como saí do meu mundo

A vida inteira, disseram que eu vivia no “meu mundo”.

E talvez fosse verdade.

Eu era aquela criança estranha e introvertida. A que brincava sozinha. A que passava horas conversando consigo mesma. A menina que tinha amigos imaginários, histórias imaginárias, universos imaginários. Enquanto outras crianças pareciam pertencer naturalmente ao mundo real, eu existia meio distante dele, como se houvesse sempre um vidro invisível entre mim e o resto das pessoas.

Eu observava tudo de longe.

E no silêncio da minha cabeça, construía mundos inteiros.

Na adolescência, as coisas não mudaram muito. Eu vivia em cima do muro: entre Deus e os prazeres adolescentes, entre querer ser diferente e tentar desesperadamente ser igual. Era a época do “ficar”, da necessidade de aceitação, das modas, das máscaras sociais. Mas mesmo tentando acompanhar tudo aquilo, eu continuava vivendo metade aqui, metade em outro lugar.

Fantasia e realidade começaram a se misturar.

Minhas histórias deixaram de ser apenas histórias. Eu contava coisas do meu mundo como se fossem reais. Inventava versões melhores, mais suportáveis, menos dolorosas da vida. Hoje entendo que aquilo não era maldade nem manipulação. Era sobrevivência.

Porque às vezes a dor é tão grande que a mente cria universos paralelos pra pessoa conseguir continuar respirando.

E eu respirava assim.

Dormindo acordada.

Então minha vida virou de cabeça pra baixo.

Entre os 16 e os 20 anos, vivi uma sucessão de terremotos emocionais. Depressão. Anorexia. Leucemia. Conversão. Noivado. Saga Crepúsculo. Amor adolescente. Namoro. Gravidez. Casamento.

Foi uma volta de 180 graus tão rápida que meu mundo autista simplesmente não acompanhou.

Por fora, minha vida seguia. Por dentro, eu ainda estava perdida naquele lugar distante onde passei a vida inteira escondida.

Então veio a maternidade.

E a maternidade não bate na porta devagar.

Ela arromba.

A gestação mudou minha rotina. O casamento mudou minha rotina. O bebê mudou completamente meu universo.

E eu não estava preparada.

Passei um ano e meio afundada numa depressão pós-parto tão profunda que mal consigo explicar em palavras. Eu existia no automático. Como uma pessoa sonâmbula atravessando os dias.

Todos os dias eu ia pra casa da minha mãe.

Ela dava banho nele. Ela alimentava. Ela brincava. Ela cuidava.

Eu amamentava. Trocava fralda. Tentava manter uma rotina mínima. Fazia o básico do básico enquanto afundava dentro da minha própria mente.

Meu filho crescia diante dos meus olhos.

E eu não conseguia enxergar.

É difícil admitir isso. Dói escrever isso. Mas a verdade é que eu não estava presente. Meu corpo estava ali. Minha alma não.

Eu vivia submersa.

Como alguém dormindo no fundo de um oceano silencioso.

Até aquele dia.

Eu ainda lembro da luz entrando. Lembro dele brincando na minha frente. Lembro de estar olhando pra algum lugar inexistente dentro da minha cabeça, completamente distante dali mais uma vez.

Então, de repente, duas mãozinhas seguraram meu rosto.

Pequenas. Quentes. Reais.

Meu filho virou minha cabeça na direção dele, me obrigando a olhar.

E disse:

— Mãe.

Foi naquele instante.

Naquele segundo exato.

Como numa cena de filme, senti como se estivesse emergindo de dentro da água depois de anos submersa. Como se alguém tivesse me puxado pela mão para a superfície. O som voltou. A luz voltou. O mundo voltou.

Eu acordei.

De verdade.

Olhei pra ele como se estivesse vendo meu filho pela primeira vez.

E o choque me atravessou inteira.

Como ele cresceu tanto? Como ele já fala “mamãe”? Como eu perdi isso? Como eu não vi?

Meu bebê já não era mais um bebê.

E eu não tinha percebido o tempo passar.

Aquilo me destruiu. E ao mesmo tempo, me ressuscitou.

Foi o dia em que saí do meu mundo.

Pela primeira vez, entendi que precisava lutar contra aquele sono invisível que me acompanhou a vida inteira. Eu não sabia dar nome ao que vivia. Não entendia autismo, dissociação, hiperfoco, shutdown, depressão. Só sabia que não queria mais perder minha vida enquanto ela acontecia diante de mim.

Escolhi trabalhar.

Passei três meses tentando “ressuscitar” enquanto meu filho ficava na mesma escola em que eu trabalhava. Achei que aquilo talvez me salvasse.

Mas aprendi outra coisa.

Aprendi que eu não queria trocar meu filho pelo trabalho.

Fui demitida porque escolhi ele.

E escolheria mil vezes.

Depois comecei a faculdade. Outra tentativa de não afundar novamente. Outra tentativa de construir uma vida real.

E foi ali que Deus começou a me reconstruir de verdade.

Ele me ensinou sobre família. Sobre maternidade. Sobre feminilidade. Sobre masculinidade. Sobre filhos. Sobre amor sacrificial. Sobre identidade. Sobre verdade.

Tudo o que eu acreditava até então foi confrontado.

Percebi quantas ideias tinham sido colocadas dentro de mim sem que eu sequer percebesse. Quantas mentiras eu tinha engolido tentando encontrar liberdade, quando na verdade só estava mais perdida.

Então veio minha segunda gravidez.

E junto dela, uma crise enorme.

Mas também veio a resposta que eu carreguei a vida inteira.

Eu era autista.

Procurei CAPS, terapia, diagnóstico. Pela primeira vez, minha vida começou a fazer sentido. Eu não era apenas estranha, preguiçosa, desligada ou “viajando”. Meu cérebro simplesmente funcionava de outra forma.

Eu era uma autista. Uma mãe. Uma mulher grávida. Mas agora, uma mulher desperta.

Eu tinha saído do meu mundo.

Ou talvez… Deus tivesse entrado nele pra me buscar.

Desde então, decidi viver presente.

Me dediquei de corpo e alma aos meus filhos. Afterschool, devocional, tempo de qualidade, conversas, brincadeiras, ensino, colo, rotina, cuidado. Tudo o que eu posso fazer por eles, eu faço.

Porque hoje eu sei: o tempo passa.

E eu nunca mais quis perder a vida acontecendo diante dos meus olhos.

As pessoas dizem que autistas vivem no próprio mundo.

Talvez eu tenha vivido mesmo.

Mas meu mundo hoje tem nomes. Tem risadas. Tem bagunça. Tem cheiro de comida. Tem criança correndo pela casa. Tem oração antes de dormir. Tem abraço apertado. Tem “mamãe, olha isso”. Tem vida real.

A menina que criava mundos imaginários cresceu.

Hoje, ela cria filhos.

E às vezes eu olho pra trás e penso:

Eu sou um milagre.

08 novembro 2017

Sentimento de culpa de mãe

Dizem que mãe sente culpa não importa o que faça. Bom, é verdade.
Eu tinha um programa sobre filhos desde os 15 anos. O que eu iria fazer, como ia criar, como iria vestir, em qual curso matricular e em que período da vida ter cada um. Bom, eu não pensava em duas coisas nessa época: que existe outro adulto na equação, e que as vezes pode faltar grana para a programação.
Isso talvez seja a primeira das minhas 'culpas', a falta de dinheiro. Ter ficado grávida foi escolha minha, confesso, mas foi um impulso libriano, não uma de decisão consciente. Não tinha condições financeiras para ter um filho e pago isso hoje com o fato de ficar babando roupas para ele e não ter dinheiro para isso, ou mesmo de não poder levar ele para passear sempre que quero.
Outra grande culpa foi a de ter que trabalhar. É, eu sempre tive a ideia de ficar com meus filhos, ou no máximo, trabalhar meio turno, mas a necessidade me fez ter que trabalhar. Bom, foram só três meses, mas os meses que me fizeram ver que eu tinha um filho crescendo e que ele não estava sendo criado por mim. Foi torturante.
E eis que veio a atual grande culpa: o celular. Não gosto de contar como, mas o celular já foi caso de irresponsabilidade da minha parte em 3 ocasiões (só que eu me lembre). Digamos que me acostumei a mexer nele quando ele era pequeno é só dormia. Ele cresceu e nada mudou. Bom, na verdade mudou sim, desde que me toquei disso (na saída do emprego) que ando tentando dar atenção pra ele quando estamos em casa. E aos poucos vou mudar isso quanto a casa dos outros e até antes de dormir (mesmo que ele esteja dormindo porque não é certo perder sono por isso).
A culpa no meu caso não é tão sem sentido assim. Quem já me viu sabe porque. Mas agora já perdoei a mim mesma por saber que estava com uma grave DPP desde que ele nasceu e que só o emprego me fez melhorar, e por isso mesmo, melhorar o tempo com ele.
Culpa de mãe. Todas temos.