Na adolescência, a gente costuma ouvir muitos "não".
Não pode pintar o cabelo. Não pode fazer piercing. Não pode usar essa roupa. Não pode cortar o cabelo desse jeito. Não pode ouvir determinada música. Não pode pensar diferente.
Alguns desses "nãos" fazem sentido. Pais existem para proteger, orientar e impor limites. Mas outros acabam proibindo justamente aquilo que faz parte de uma fase muito importante da vida: a construção da identidade.
A adolescência é o período em que a pessoa começa a responder uma das perguntas mais difíceis da existência: quem sou eu além dos meus pais?
Os valores ensinados em casa continuam sendo uma base importante, mas agora eles passam a ser confrontados, testados e assimilados. Não por rebeldia, necessariamente, mas porque ninguém constrói uma identidade apenas repetindo tudo o que recebeu. É preciso experimentar, questionar e escolher.
É por isso que mudanças no cabelo, nas roupas, nos gostos musicais, nas opiniões e até na decoração do quarto costumam ser tão marcantes nessa fase. Muitas dessas mudanças não são o destino final. São um caminho para descobrir quem se é.
E é curioso como certos desejos não desaparecem.
Eles ficam guardados em algum lugar, esperando a primeira oportunidade.
Foi exatamente o que aconteceu comigo.
Na pandemia, já adulta, resolvi fazer tudo aquilo que nunca pude quando era adolescente. Pintei o cabelo de várias cores. Descolori. Cortei de jeitos diferentes. Experimentei estilos que antes eram proibidos.
Hoje percebo que nem era porque eu sonhava em ter um cabelo colorido pelo resto da vida.
Era porque eu precisava descobrir se eu realmente gostava daquilo ou se só queria viver uma experiência que me foi negada.
No fim das contas, algumas coisas ficaram. Outras perderam completamente a graça depois que deixaram de ser proibidas.
E talvez seja justamente esse o ponto.
Quando uma experiência faz parte da identidade da pessoa, ela tende a permanecer. A proibição pode atrasar sua expressão, pode fazê-la esperar dez, vinte ou trinta anos, mas dificilmente a elimina.
Por outro lado, quando aquilo era apenas uma fase de experimentação, costuma ir embora naturalmente. O adolescente pinta o cabelo, coloca um piercing, muda o estilo, enjoa e segue a vida. E está tudo bem. Era exatamente isso que ele precisava fazer para descobrir que aquele não era o seu caminho.
A experiência responde perguntas que a proibição nunca consegue responder.
Por isso, muitos adultos acabam vivendo uma "segunda adolescência". Não porque sejam imaturos, mas porque finalmente têm liberdade para experimentar tudo aquilo que lhes foi negado. Só então conseguem separar o que era curiosidade do que realmente faz parte de quem são.
No meu caso, algumas experiências ficaram apenas como uma boa lembrança. Outras me ajudaram a conhecer melhor quem eu era.
Talvez crescer também seja isso.
Perceber que construir uma identidade não significa rejeitar tudo o que os pais ensinaram, mas também não significa viver apenas como uma extensão deles. Significa receber um legado, experimentá-lo à luz da própria vida e, então, fazer escolhas conscientes.
Porque identidade não nasce da imposição.
Ela nasce do encontro entre aquilo que recebemos e aquilo que, livremente, escolhemos manter.
Cabelo cresce. Piercing pode ser retirado. A roupa volta para o armário. O estilo muda. Na adolescência, aliás, muda o tempo todo. É justamente experimentando que muitos adolescentes descobrem que aquilo era apenas uma fase. E tudo bem.
Às vezes, o medo dos pais é que uma escolha temporária se torne permanente. Mas, curiosamente, quando ela é apenas uma fase, o próprio adolescente a abandona. Não porque foi proibido, mas porque descobriu, por experiência, que aquilo não fazia parte de quem ele era.
A identidade não se forma na ausência de limites, mas também não amadurece na ausência de liberdade.



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