12 junho 2026

Não tenha um filho

Sério.

Não tenha.

Durma tranquilo. Viaje quando quiser. Gaste seu dinheiro apenas com você. Assista seu futebol sem interrupções. Compre seus cremes. Faça seus cursos. Invista na carreira. Durma até tarde aos domingos.

Não tenha um filho.

Porque, quando ele chegar, alguma coisa vai mudar.

Aliás, muita coisa.

E se você está procurando alguém para dizer que é possível ter filhos sem mudar nada, sinto informar: não é.

Não tenha um filho se a sua prioridade absoluta é você mesmo.

Porque filhos têm um péssimo hábito de precisar da gente.

Precisam quando estamos cansados.

Precisam quando estamos ocupados.

Precisam quando estamos doentes.

Precisam quando não estamos com vontade.

Precisam justamente naqueles momentos em que sonhávamos em não precisar de ninguém.

E é aí que a mágica acontece.

Porque ser pai ou mãe é passar a colocar alguém na frente de si mesmo inúmeras vezes ao dia.

Não tenha um filho se você acredita que sua vida continuará exatamente igual.

Não vai.

As prioridades mudam.

Os horários mudam.

Os planos mudam.

Às vezes até os sonhos mudam.

E isso não é uma tragédia.

É o processo natural de amar alguém mais do que a si mesmo.

Não tenha um filho se você não suporta choro.

Se não aguenta birra.

Se não tem paciência para repetir a mesma coisa cinquenta vezes.

Se não consegue lidar com teimosia.

Se não suporta criança que não quer comer.

Se não aguenta noites mal dormidas.

Porque criança faz tudo isso.

E muito mais.

Não tenha um filho se você não está disposto a gastar dinheiro.

Porque crianças custam dinheiro.

Comida custa dinheiro.

Roupa custa dinheiro.

Material escolar custa dinheiro.

Dentista custa dinheiro.

Pediatra custa dinheiro.

Exame de sangue custa dinheiro.

Óculos custa dinheiro.

Terapia custa dinheiro.

E, às vezes, a vida entrega desafios que você nunca imaginou enfrentar.

Deficiências.

Transtornos.

Doenças.

Limitações.

Não tenha um filho se você acredita que só conseguiria amar uma criança perfeitamente saudável, perfeitamente obediente e perfeitamente parecida com a que você imaginou.

Porque filhos reais não vêm assim.

Filhos reais vêm como são.

E amá-los significa abraçar tudo o que eles são.

Não tenha um filho se você não suporta a ideia de vê-los crescer.

Porque aquele bebê cheiroso que cabe nos seus braços vai embora.

Em poucos anos.

A infância passa voando.

A adolescência chega sem pedir licença.

E, quando você perceber, estará conversando com um adulto.

Um adulto que talvez vote diferente de você.

Pense diferente de você.

Faça escolhas diferentes das suas.

E isso faz parte.

Porque filhos não foram feitos para permanecer crianças.

Foram feitos para crescer.

Não tenha um filho se você quer controle.

Porque filhos são pessoas.

E pessoas não pertencem a nós.

Nós apenas cuidamos delas por um tempo.

Também não tenha um filho se você acha que será fácil.

Não será.

Haverá dias maravilhosos.

Haverá dias terríveis.

Haverá momentos em que você vai chorar escondido no banheiro.

Momentos em que vai duvidar de si mesmo.

Momentos em que vai errar.

Momentos em que vai pedir perdão.

Momentos em que vai achar que não consegue continuar.

Mas continue.

Porque, apesar de tudo que eu disse até aqui, existe um detalhe importante.

Um detalhe enorme.

Talvez o mais importante de todos.

Ter filhos é a melhor coisa que existe.

É a aventura mais difícil.

A mais cansativa.

A mais cara.

A mais imprevisível.

E também a mais bonita.

Nada se compara a ouvir uma risada que existe por sua causa.

A receber um abraço que correu pela casa inteira para encontrar você.

A acompanhar um ser humano aprendendo a falar, ler, pensar, sonhar e amar.

Nada.

Então, sim.

Não tenha um filho.

Se você não está disposto a dar seu tempo.

Seu conforto.

Seu dinheiro.

Sua paciência.

Seu coração.

Mas, se estiver disposto, descubra o que milhões de pais e mães já sabem:

que filhos dão trabalho.

Muito trabalho.

E que, estranhamente, esse trabalho vale cada segundo.

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