Sua gravidez foi planejada, mas também trouxe uma crise. Eu tinha medo. Medo de tudo acontecer de novo: as mudanças, a depressão pós-parto, a sensação de não ser uma boa mãe. Ao mesmo tempo, eu via aquela gestação como uma oportunidade de fazer diferente.
Mas a Marjorie não era uma nova oportunidade. Era uma pessoa. Uma pessoa inteira, única, que chegava para escrever a própria história.
Ela nasceu de parto normal e isso, por si só, já foi um presente para mim. Veio linda, pequena e menina. Minha Marjorie. Minha princesa.
Foi um bebê muito tranquilo. Calma, pouco chorona e tão esperta que às vezes eu me perguntava se ela não era um mini adulto. Com apenas um ano e meio, já dormia sozinha no berço, no próprio quarto. Falava todas as palavras corretamente e inventava histórias como ninguém. Falava tanto que chegava a me deixar tonta.
Então veio a pandemia. E ela foi forte. Mais do que isso, foi a melhor companhia que nós e o Gabriel poderíamos ter naquele período tão estranho.
Depois veio a mudança de casa. Depois vieram as irmãs.
Ela sentiu tudo intensamente. Foi muito ciumenta quando a primeira irmã nasceu e continuou sendo quando a outra chegou. Tornou-se mais carente, com uma necessidade enorme de atenção. E tudo bem. Eu sempre dei. Porque algumas crianças pedem amor com palavras; outras pedem com presença. A Marjorie sempre pediu presença.
Ela sempre quis ir para a escola. Tanto que escolheu a própria escola. E, por incrível que pareça, acertou. No dia em que completou quatro anos, foi chamada para a escolinha que havia escolhido. E logo encantou as professoras com sua inteligência fora do comum — embora sua raiva, igualmente fora do comum, também se fizesse notar.
Marjorie é sociável. Sua linguagem de amor é tempo de qualidade. É inteligente e criativa de um jeito que me surpreende todos os dias. É carinhosa, colaborativa e gosta de cuidar das irmãs. Às vezes preciso lembrá-la de que isso não é sua obrigação, mas ela simplesmente gosta de cuidar. Existe nela uma ternura que naturalmente se transforma em serviço.
Quando soube que ela era superdotada e tinha TOD, não me surpreendi. Nem uma coisa, nem outra. Eram características que eu já enxergava desde que ela era um bebê.
A Marjorie me trouxe a realidade de ser mãe de menina. Também me trouxe a experiência, ao mesmo tempo maravilhosa e desafiadora, de conviver diariamente com uma criança mais inteligente do que eu.
E talvez esse seja um dos maiores presentes que ela me deu: a oportunidade de aprender, todos os dias, que os filhos não chegam para caber nos nossos planos. Eles chegam para nos expandir.
A menina que eu sonhei aos onze anos não veio para me dar uma segunda chance. Veio para ser ela mesma. E que privilégio imenso é poder ser a mãe da Marjorie.



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