Quando eu tinha 20 anos, depois de anos lutando contra a anorexia, meu corpo já estava vencido. Eu estava extremamente desnutrida, sem menstruar há quase dois anos, fraca, quebrada.
E, ainda assim, de algum jeito estranho, eu lutava pela vida.
É difícil explicar isso para quem nunca passou por algo parecido. Eu queria morrer… mas ao mesmo tempo queria viver. Talvez eu não quisesse exatamente morrer. Talvez eu só quisesse matar a dor.
Já fazia acompanhamento com psicólogos e psiquiatras quando precisei fazer exames de sangue. O médico que me acompanhava era um senhor de mais de 80 anos, alguém que me conhecia desde pequena. Quando viu os resultados, levou um susto.
— Você está quase com leucemia.
Aquela frase caiu sobre mim como um raio.
Fui encaminhada para um hematologista no hospital infantil da capital, porque ali havia um excelente tratamento para leucemia, e eu ainda era muito nova. O médico que passou a me atender era jovem, talvez residente. Inteligente, mas duro. Ele me olhava com superioridade, como se eu fosse culpada não apenas pela minha doença, mas quase pela doença das crianças ao meu redor também.
Segundo ele, elas não tiveram escolha. Eu tive.
Durante quase um ano, minhas quartas-feiras foram tomadas por exames, consultas e quimioterapia. Ou “mini quimio”, como ele insistia em chamar. Meus exames pioravam semana após semana. O quadro era grave, severo. Mas ele se recusava a chamar de leucemia, porque, segundo ele, eu mesma tinha causado aquilo.
A quimioterapia era “fraca”, diziam. Fraca o suficiente para ainda me fazer perder cabelo. Fraca o suficiente para destruir o pouco de força que eu tinha.
Passei aquele ano convivendo com crianças em tratamento. Crianças pequenas, carequinhas, frágeis… e incrivelmente cheias de vida.
Eu almoçava a comida do hospital — que eu adorava — e tentava fingir que estava tudo bem.
Mas havia um detalhe: quase ninguém sabia.
Alguns amigos conheciam uma parte da história. Pouquíssimos sabiam da quimioterapia. Minha família sequer desconfiava da gravidade da situação.
E eu continuava piorando.
Foi ali que conheci duas pessoas que nunca esqueci.
Uma menininha de 7 anos, que vou chamar de Leah. Doce, pequena, corajosa.
E Vítor, um garoto de 17 anos, ateu, revoltado, engraçado e absurdamente humano. Ele se apaixonou por mim. Era fofo comigo de um jeito que eu não sabia receber naquela época. Mas meu coração estava preso em outra pessoa.
O tempo foi passando.
E eu só piorava.
Até que, no auge do meu desespero, eu encontrei Jesus.
Ou talvez tenha sido Ele quem me encontrou.
Na noite em que quase me matei, Deus me segurou.
Mesmo assim, eu ainda não conseguia comer. Meu corpo parecia rejeitar a vida. Então um dia o médico me disse algo que atravessou minha alma:
— Se você não comer, vai morrer. E mesmo que sobreviva, talvez nunca possa doar sangue. Nunca possa ter filhos.
Aquilo me destruiu.
Porque eu queria viver.
E mais do que isso: eu queria ser mãe.
Eu sonhava com meus filhos. Sonhava com uma casa cheia. Sonhava com sete crianças correndo pela casa. E naquele momento percebi que não queria entregar esse sonho para a doença.
Então eu pedi forças a Deus.
E Deus me curou.
Num culto simples e lindo, alguém olhou para mim e disse:
— Deus está te arrancando da sepultura. Ele está te curando agora.
Eu nunca esqueci essas palavras.
A partir dali, algo mudou dentro de mim.
Comecei a comer. Pouco a pouco.
Procurei uma nutricionista maravilhosa, que me ensinou novamente a ter uma relação com a comida. Uma colher de cada vez. Um passo de cada vez.
E meus exames começaram a melhorar.
Enquanto eu melhorava… Leah morreu.
Pouco tempo depois, Vítor também morreu.
E até hoje existe uma culpa silenciosa dentro de mim. Uma sensação difícil de explicar. Como se eles não tivessem tido escolha… e eu tivesse escolhido viver.
Mas talvez essa seja justamente a verdade.
Eu escolhi viver.
Mesmo quebrada.
Mesmo doente.
Mesmo com medo.
Terminei a última quimioterapia.
Sobrevivi.
Depois disso, doei sangue.
Aquilo que me disseram que talvez eu nunca pudesse fazer.
E tive filhos. Não um. Nem dois.
Quatro.
Quatro pequenos milagres correndo pela minha casa.
Hoje, olhando para trás, eu vejo aquela menina magra, assustada, sem esperança… e quase não acredito que sobrevivi.
Mas sobrevivi.
E nunca, em toda a minha vida, fui tão feliz quanto sou agora.
Eu sou um milagre.



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