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22 maio 2026

Eu sou um milagre: uma história de câncer


Quando eu tinha 20 anos, depois de anos lutando contra a anorexia, meu corpo já estava vencido. Eu estava extremamente desnutrida, sem menstruar há quase dois anos, fraca, quebrada.
E, ainda assim, de algum jeito estranho, eu lutava pela vida.
É difícil explicar isso para quem nunca passou por algo parecido. Eu queria morrer… mas ao mesmo tempo queria viver. Talvez eu não quisesse exatamente morrer. Talvez eu só quisesse matar a dor.
Já fazia acompanhamento com psicólogos e psiquiatras quando precisei fazer exames de sangue. O médico que me acompanhava era um senhor de mais de 80 anos, alguém que me conhecia desde pequena. Quando viu os resultados, levou um susto.
— Você está quase com leucemia.
Aquela frase caiu sobre mim como um raio.
Fui encaminhada para um hematologista no hospital infantil da capital, porque ali havia um excelente tratamento para leucemia, e eu ainda era muito nova. O médico que passou a me atender era jovem, talvez residente. Inteligente, mas duro. Ele me olhava com superioridade, como se eu fosse culpada não apenas pela minha doença, mas quase pela doença das crianças ao meu redor também.
Segundo ele, elas não tiveram escolha. Eu tive.
Durante quase um ano, minhas quartas-feiras foram tomadas por exames, consultas e quimioterapia. Ou “mini quimio”, como ele insistia em chamar. Meus exames pioravam semana após semana. O quadro era grave, severo. Mas ele se recusava a chamar de leucemia, porque, segundo ele, eu mesma tinha causado aquilo.
A quimioterapia era “fraca”, diziam. Fraca o suficiente para ainda me fazer perder cabelo. Fraca o suficiente para destruir o pouco de força que eu tinha.
Passei aquele ano convivendo com crianças em tratamento. Crianças pequenas, carequinhas, frágeis… e incrivelmente cheias de vida.
Eu almoçava a comida do hospital — que eu adorava — e tentava fingir que estava tudo bem.
Mas havia um detalhe: quase ninguém sabia.
Alguns amigos conheciam uma parte da história. Pouquíssimos sabiam da quimioterapia. Minha família sequer desconfiava da gravidade da situação.
E eu continuava piorando.
Foi ali que conheci duas pessoas que nunca esqueci.
Uma menininha de 7 anos, que vou chamar de Leah. Doce, pequena, corajosa.
E Vítor, um garoto de 17 anos, ateu, revoltado, engraçado e absurdamente humano. Ele se apaixonou por mim. Era fofo comigo de um jeito que eu não sabia receber naquela época. Mas meu coração estava preso em outra pessoa.
O tempo foi passando.
E eu só piorava.
Até que, no auge do meu desespero, eu encontrei Jesus.
Ou talvez tenha sido Ele quem me encontrou.
Na noite em que quase me matei, Deus me segurou.
Mesmo assim, eu ainda não conseguia comer. Meu corpo parecia rejeitar a vida. Então um dia o médico me disse algo que atravessou minha alma:
— Se você não comer, vai morrer. E mesmo que sobreviva, talvez nunca possa doar sangue. Nunca possa ter filhos.
Aquilo me destruiu.
Porque eu queria viver.
E mais do que isso: eu queria ser mãe.
Eu sonhava com meus filhos. Sonhava com uma casa cheia. Sonhava com sete crianças correndo pela casa. E naquele momento percebi que não queria entregar esse sonho para a doença.
Então eu pedi forças a Deus.
E Deus me curou.
Num culto simples e lindo, alguém olhou para mim e disse:
— Deus está te arrancando da sepultura. Ele está te curando agora.
Eu nunca esqueci essas palavras.
A partir dali, algo mudou dentro de mim.
Comecei a comer. Pouco a pouco.
Procurei uma nutricionista maravilhosa, que me ensinou novamente a ter uma relação com a comida. Uma colher de cada vez. Um passo de cada vez.
E meus exames começaram a melhorar.
Enquanto eu melhorava… Leah morreu.
Pouco tempo depois, Vítor também morreu.
E até hoje existe uma culpa silenciosa dentro de mim. Uma sensação difícil de explicar. Como se eles não tivessem tido escolha… e eu tivesse escolhido viver.
Mas talvez essa seja justamente a verdade.
Eu escolhi viver.
Mesmo quebrada.
Mesmo doente.
Mesmo com medo.
Terminei a última quimioterapia.
Sobrevivi.
Depois disso, doei sangue.
Aquilo que me disseram que talvez eu nunca pudesse fazer.
E tive filhos. Não um. Nem dois.
Quatro.
Quatro pequenos milagres correndo pela minha casa.
Hoje, olhando para trás, eu vejo aquela menina magra, assustada, sem esperança… e quase não acredito que sobrevivi.
Mas sobrevivi.
E nunca, em toda a minha vida, fui tão feliz quanto sou agora.
Eu sou um milagre.

09 abril 2026

Despedida (poesia)

Hoje eu sonhei com ela.

Não era um sonho comum.
Era silêncio. Era sagrado.
Era como se o tempo tivesse parado só para nós duas.

A capela estava vazia —
e, ao mesmo tempo, estranhamente cheia.
Eu sabia que todos estavam lá,
mas não nos viam.
Era como se aquele momento não pertencesse ao mundo,
mas só a nós.

O caixão estava aberto.
E então eu vi o que não fazia sentido —
até fazer.

Ela estava ali…
cuidando de si mesma.

Vestia o próprio corpo com delicadeza,
ajeitava os cabelos,
corrigia a maquiagem,
como quem cuida de alguém amado.

E cuidava com carinho.

Eu não entendi.
Meu coração estranhou aquela cena.
Mas então ela olhou para mim —
e sorriu.

E, como sempre,
resmungou.

— Que absurdo isso… não colocaram uma roupa decente.

Quase pude rir em meio às lágrimas.
Era ela.
Inteira.
Até no jeito de reclamar.

Ela ajeitou tudo.
Deixou como gostava.
Como era.
Como deveria ser.

E então eu olhei.

Não havia dor no rosto.
Não havia peso.
Nem marcas.

Só serenidade.

Como se dormisse.
Como se sorrisse baixinho.

E ali, naquele sonho, eu chorei.

E agora, acordada, eu choro também.

Mas é diferente.

Já não é a dor que rasga.
Não é o luto que pesa.

É a saudade que fica.
Mansa.
Viva.
Cheia de amor.

Hoje eu entendi —
sem palavras, sem explicação —
que o ciclo se fechou.

O luto já não mora mais aqui.
Ele passou por mim,
me atravessou,
e agora segue.

O que ficou…
foi o amor.

E uma esperança silenciosa,
quase como aquele sorriso sereno que vi:

de que, no fim,
ela encontrou paz.

E talvez —
só talvez —
tenha sido recebida
por Aquele que eu tanto espero.


10 março 2026

Nota de falecimento (do jeito que ela provavelmente comentaria):

Faleceu, há poucos dias, em uma tragédia que ainda nos deixa meio sem palavras, uma mulher que marcou a família de um jeito muito particular.

Não era famosa, não saiu nos grandes jornais, mas poderia facilmente ganhar uma manchete doméstica do tipo:
“Mulher mantém tradição familiar da melhor torta fria e da dobradinha mais disputada das reuniões.”

E quem conhecia sabe que não é exagero.

A torta fria dela não era apenas uma torta fria. Era uma instituição. A dobradinha também. Dessas comidas que aparecem na mesa e imediatamente fazem alguém dizer:
“Foi ela que fez?”

Mas reduzir a história dela à culinária seria injusto. Porque, na verdade, ela era especialista em outra coisa: cuidar.

Cuidou dos pais até eles partirem.
Cuidou dos irmãos mais novos.
Cuidou dos sobrinhos.

Sempre presente, sempre atenta, sempre com aquele jeito muito próprio de demonstrar preocupação — que muitas vezes vinha acompanhado de uma observação importante sobre o nível de barulho do ambiente.

Porque, sim, existe outra característica que merece registro histórico: a sensibilidade auditiva dela para barulhos.

Barulho de criança.
Barulho de conversa.
Barulho de qualquer coisa que, na avaliação técnica dela, ultrapassasse o aceitável.

E quando o assunto precisava ser devidamente esclarecido… vinha um áudio. Não um áudio qualquer. Um áudio de aproximadamente 17 minutos, cuidadosamente elaborado, explicando a situação.

Quem recebia sabia: era melhor sentar, dar play e escutar com atenção.

Hoje, depois da tragédia que nos pegou de surpresa, essas coisas todas voltam à memória de um jeito diferente.

A torta fria.
A dobradinha.
Os cuidados.
Os áudios.
As reclamações dos barulhos.

Tudo isso, que antes fazia parte do cotidiano da família, agora virou lembrança — daquelas que fazem a gente rir um pouco no meio da saudade.

Porque no fundo é assim que algumas pessoas permanecem:
nas histórias que a gente conta,
nas comidas que ninguém consegue reproduzir direito,
e na frase que inevitavelmente alguém vai dizer na próxima reunião de família:

“Imagina o áudio que ela mandaria agora.”

E talvez, se ela pudesse comentar essa própria notícia, diria duas coisas:

Primeiro, que a torta fria dela realmente era melhor que a de qualquer outra pessoa.

E segundo… que estava barulho demais.

04 março 2013

Mortes das férias - Reprise II (Lado Escritora)

Fragmento do meu projeto: "Reprise", para saber mais, leia aqui.

Foi o primeiro dia de aula em que não queria ir para a escola na história da minha vida.
Não era só mais mortes que assombravam a turma. Era a morte de Vanessa Gadine. Ela era a alegria personificada. Sem ela, tudo ficaria milhares de vezes pior.
Lembro como se fosse ontem. De todos voltando da festa de terror, vestidos em seus trajes assustadores, ironizando a maldição da 307.
E então os gritos.
O corpo estava em pedaços, formando o caminho da minha casa. Pernas, braços e pedaços mutilados, me aterrorizaram até encontrar o portão.
Lá vi o rosto de expressão sofrida e seus cabelos castanhos, mesclados de loiro. A cabeça decepada de Vanessa Gadine me fez gritar e gritar até que meus pais aparecessem.
Minha férias foram uma tentativa frustrada de me fazer esquecer tudo. Viagens entediantes e divertidas, idas a um psicólogo louco, que eu fiz apaixonar-se por mim (e deu certo, eu me livrei dele) e um romance de verão que fez meu namoro com Renata finalmente acabar.
Antes tarde do que mais tarde.
Só via Sérgio para receber notícias ruins de modo formal, já que meus pais fecharam a clínica para tirarem férias junto comigo.
As duas primeiras vítimas das férias, estavam em uma balada em Recife, para onde viajaram juntos.


Post criado a pedido de uma amiga, que vai querer ver sua própria "morte" nas linhas de um dos meus livros.