10 março 2026

Nota de falecimento (do jeito que ela provavelmente comentaria):

Faleceu, há poucos dias, em uma tragédia que ainda nos deixa meio sem palavras, uma mulher que marcou a família de um jeito muito particular.

Não era famosa, não saiu nos grandes jornais, mas poderia facilmente ganhar uma manchete doméstica do tipo:
“Mulher mantém tradição familiar da melhor torta fria e da dobradinha mais disputada das reuniões.”

E quem conhecia sabe que não é exagero.

A torta fria dela não era apenas uma torta fria. Era uma instituição. A dobradinha também. Dessas comidas que aparecem na mesa e imediatamente fazem alguém dizer:
“Foi ela que fez?”

Mas reduzir a história dela à culinária seria injusto. Porque, na verdade, ela era especialista em outra coisa: cuidar.

Cuidou dos pais até eles partirem.
Cuidou dos irmãos mais novos.
Cuidou dos sobrinhos.

Sempre presente, sempre atenta, sempre com aquele jeito muito próprio de demonstrar preocupação — que muitas vezes vinha acompanhado de uma observação importante sobre o nível de barulho do ambiente.

Porque, sim, existe outra característica que merece registro histórico: a sensibilidade auditiva dela para barulhos.

Barulho de criança.
Barulho de conversa.
Barulho de qualquer coisa que, na avaliação técnica dela, ultrapassasse o aceitável.

E quando o assunto precisava ser devidamente esclarecido… vinha um áudio. Não um áudio qualquer. Um áudio de aproximadamente 17 minutos, cuidadosamente elaborado, explicando a situação.

Quem recebia sabia: era melhor sentar, dar play e escutar com atenção.

Hoje, depois da tragédia que nos pegou de surpresa, essas coisas todas voltam à memória de um jeito diferente.

A torta fria.
A dobradinha.
Os cuidados.
Os áudios.
As reclamações dos barulhos.

Tudo isso, que antes fazia parte do cotidiano da família, agora virou lembrança — daquelas que fazem a gente rir um pouco no meio da saudade.

Porque no fundo é assim que algumas pessoas permanecem:
nas histórias que a gente conta,
nas comidas que ninguém consegue reproduzir direito,
e na frase que inevitavelmente alguém vai dizer na próxima reunião de família:

“Imagina o áudio que ela mandaria agora.”

E talvez, se ela pudesse comentar essa própria notícia, diria duas coisas:

Primeiro, que a torta fria dela realmente era melhor que a de qualquer outra pessoa.

E segundo… que estava barulho demais.

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