09 abril 2026

Despedida (poesia)

Hoje eu sonhei com ela.

Não era um sonho comum.
Era silêncio. Era sagrado.
Era como se o tempo tivesse parado só para nós duas.

A capela estava vazia —
e, ao mesmo tempo, estranhamente cheia.
Eu sabia que todos estavam lá,
mas não nos viam.
Era como se aquele momento não pertencesse ao mundo,
mas só a nós.

O caixão estava aberto.
E então eu vi o que não fazia sentido —
até fazer.

Ela estava ali…
cuidando de si mesma.

Vestia o próprio corpo com delicadeza,
ajeitava os cabelos,
corrigia a maquiagem,
como quem cuida de alguém amado.

E cuidava com carinho.

Eu não entendi.
Meu coração estranhou aquela cena.
Mas então ela olhou para mim —
e sorriu.

E, como sempre,
resmungou.

— Que absurdo isso… não colocaram uma roupa decente.

Quase pude rir em meio às lágrimas.
Era ela.
Inteira.
Até no jeito de reclamar.

Ela ajeitou tudo.
Deixou como gostava.
Como era.
Como deveria ser.

E então eu olhei.

Não havia dor no rosto.
Não havia peso.
Nem marcas.

Só serenidade.

Como se dormisse.
Como se sorrisse baixinho.

E ali, naquele sonho, eu chorei.

E agora, acordada, eu choro também.

Mas é diferente.

Já não é a dor que rasga.
Não é o luto que pesa.

É a saudade que fica.
Mansa.
Viva.
Cheia de amor.

Hoje eu entendi —
sem palavras, sem explicação —
que o ciclo se fechou.

O luto já não mora mais aqui.
Ele passou por mim,
me atravessou,
e agora segue.

O que ficou…
foi o amor.

E uma esperança silenciosa,
quase como aquele sorriso sereno que vi:

de que, no fim,
ela encontrou paz.

E talvez —
só talvez —
tenha sido recebida
por Aquele que eu tanto espero.


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