A Mágica da Arrumação não é sobre um livro ou uma resenha. É sobre um estilo de vida.
Claro que não precisa ser seguida de forma rígida. Mas o simples fato de entender que guardar coisas sem utilidade — ou coisas que você sequer ama, como a autora sugere — já muda muita coisa.
Muitas vezes guardamos objetos simplesmente pelo ato de guardar. Achamos que algum dia eles serão úteis. Só que, na maioria das vezes, quando esse dia finalmente chega, estamos perfeitamente dispostos a comprar aquilo novamente em algum lugar.
Com roupas acontece muito. "Talvez um dia eu use." Mas não usa. E os armários vão se enchendo.
Desconfio que parte do problema da acumulação tenha relação com um excesso ou uma falta de algo mais precioso dentro de nós. Mas também acho que, no Brasil, existem outros fatores.
O primeiro é o descontentamento. Comprar traz uma sensação momentânea de prazer. Acabamos adquirindo coisas que não precisamos simplesmente pela satisfação da compra.
O segundo é a memória de tempos difíceis. A crise econômica e a inflação fizeram com que muitas pessoas crescessem ouvindo que não se joga nada fora. Afinal, e se precisar depois? E se não houver dinheiro para comprar de novo? Para quem viveu isso, a ideia de descartar algo que ainda funciona parece quase um desperdício.
Recentemente, minha mãe e minhas tias foram organizar a casa de uma tia que faleceu. Ficaram impressionadas com a quantidade de coisas acumuladas.
O engraçado é que elas próprias também são acumuladoras.
Todas têm certa tendência a guardar objetos sem uso, sem função real, porque "talvez algum dia" precisem deles.
Eu sempre fui bastante desapegada. Mas, depois da enchente, aconteceu algo curioso. Talvez por causa do trauma, comecei a acumular coisas como se tudo pudesse desaparecer de novo.
Graças a Deus — e ao livro também — percebi a tempo que aquele mecanismo de proteção poderia transformar minha casa em um caos.
Me desfiz da maior parte das minhas roupas. E, sinceramente, ainda acho que tenho mais do que preciso.
Não sou a pessoa mais organizada do mundo. Quem dera. Mas percebi uma coisa: quanto mais coisas acumulamos, mais bagunça criamos. Inclusive com as crianças.
Aliás, as crianças também se tornaram fruto dessa cultura do acúmulo.
Brinquedos de todos os tipos, com todas as funções imagináveis, se transformam em caixas e mais caixas dentro de um quarto.
Agora existe até a moda de guardar brinquedos em locais altos e fazer rodízio entre eles para que a criança tenha brinquedos "novos" de tempos em tempos. Como se ela não fosse continuar tendo todos eles mesmo assim.
É um acúmulo enorme de itens sem necessidade real.
Eu acredito que criança precisa de brinquedos. Claro que precisa.
Mas também acho lindo observar uma criança sem brinquedos por perto. A criatividade reina.
Na minha opinião, um Lego, alguns brinquedos de faz de conta — como uma cozinha ou um kit de ferramentas —, massinha e tinta já oferecem possibilidades quase infinitas.
E ainda existem os brinquedos rotativos: alguns favoritos que são usados por um tempo e depois cedem espaço para outros.
Com os adultos, é ainda mais simples.
Nossos brinquedos costumam estar nas nossas mãos o tempo todo.
Precisamos de pouco.
Alguns utensílios de cozinha, alguns cosméticos, alguns livros.
Ah, os livros.
Eis algo de que desapeguei.
Ainda amo bibliotecas. Ainda amo entrar em uma livraria e passear entre as estantes.
Mas já não sinto necessidade de ter uma biblioteca em casa.
A enchente levou embora uma coleção construída durante anos. E, junto dela, foi embora também meu desejo de colecionar livros.
Hoje mantenho apenas os que comprei para as crianças. E, às vezes, confesso que até me arrependo um pouco.
No fim das contas, A Mágica da Arrumação não é sobre arrumar.
É sobre guardar apenas o que importa.
É sobre dar valor ao que você possui.
Eu aprendi isso da pior maneira possível.
Mas aprendi.
Hoje guardo aquilo que amo.
E amo aquilo que guardo.
E talvez essa seja a maior lição.
Porque, no final, o que realmente importa são as pessoas que estão aqui.
As coisas, mais cedo ou mais tarde, deixam de ser nossas.
As pessoas também.
Por isso aproveitamos enquanto estão presentes.
E as coisas?
Usamos aquilo de que precisamos.
E doamos aquilo que sobra.



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