Eu tinha 20 anos e estava em uma festa de quinze anos. Minha irmã mais nova estava lá, rodeada pelas amigas, e eu me adaptei ao grupo delas. Não me sentia adulta o suficiente para ficar com os pais conversando sobre trabalho e contas. Ainda existia em mim algo muito adolescente.
Eu não conhecia aquelas meninas, mas ri com elas, dancei, conversei e até ajudei algumas a se maquiar. Era natural. Eu sempre me senti à vontade entre meninas. Não havia segundas intenções, maldade ou qualquer coisa além disso. Eu era uma delas.
Mas eu estava vestida do jeito que me fazia sentir segura: boné, moletom largo, calça jeans. Roupas masculinas. Não porque eu 1 sentisse um homem. Eram apenas roupas. Um escudo.
Naquela época, eu carregava traumas de abuso e violência sexual. Aprendi cedo demais que, para algumas pessoas, ser mulher significava se tornar alvo. Então fui me escondendo. Quanto menos eu chamasse atenção, melhor. Quanto mais larga a roupa, quanto mais eu apagasse os traços do meu corpo, mais protegida eu me sentia.
Minha identidade nunca esteve nas minhas roupas.
Porque, apesar de tudo, eu sempre fui muito feminina. Gostava de combinar cores, de uma maquiagem aqui e ali. Sonhava em ser mãe em tempo integral. Havia delicadezas em mim que ninguém via. Minha feminilidade não tinha desaparecido. Estava apenas escondida atrás de uma armadura.
Mas os adultos daquela festa não sabiam de nada disso.
Em algum momento, ouvi alguém dizer:
"Aquele menino seguindo elas para todo lado."
Depois vieram outros comentários. Risadas. Uma expressão horrível para falar de homossexualidade. Preconceito puro.
E, curiosamente, o que me destruiu não foi o preconceito.
Foi outra coisa.
Foi ouvir que eu era um menino.
Parece exagero dizer isso tantos anos depois. Mas eu me lembro exatamente da sensação. Foi como levar uma facada nas costas. Como se alguém tivesse arrancado algo de mim e jogado no chão.
Porque aquelas pessoas não estavam vendo a verdadeira eu.
Elas não viam a menina que tinha aprendido a se esconder para sobreviver. Não viam a mulher que existia por trás do moletom largo. Não viam os sonhos, as dores, os medos.
Só viam um estereótipo.
Depois disso, eu não consegui mais voltar para junto das meninas. Me sentei em um canto e fiquei esperando a hora de ir embora. Minha irmã não percebeu. Ninguém percebeu.
Mas eu estava quebrada.
Hoje penso em como é curioso o fato de que, às vezes, descobrimos quem somos justamente quando alguém nos diz quem não somos.
Foi naquele canto, naquela festa, ouvindo comentários de pessoas que nem sabiam meu nome, que entendi algo sobre mim.
Eu não queria ser um menino.
Eu não era um menino.
Eu amava ser mulher.
E talvez a maior ironia de todas seja essa: passei anos tentando esconder minha feminilidade para me proteger do mundo e, naquele dia, quando o mundo acreditou que eu realmente não era uma mulher, doeu mais do que eu poderia imaginar.
Porque uma armadura nunca deixa de ser uma armadura.
Debaixo dela, eu continuava sendo eu.



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